Cinemateca Francesa flerta com streamings

Cinemateca Francesa flerta com streamings

Rodrigo Fonseca

22 de novembro de 2021 | 17h04

O ator Toni Servillo com o diretor Paolo Sorrentino nos sets de “È Stata La Mano Di Dio”, ganhador do Grande Prêmio do Júri em Veneza

Rodrigo Fonseca
Língua preconceituosas andam dizendo por aí que a Cinémathèque Française perdeu seus parafusos ao programar uma sessão de “Stallone Cobra”, de George Pan Cosmatos, pra fechar suas atividades de 2021, tendo pirado mais ainda ao dedicar uma programação integral, no mês de dezembro, à Netflix, só com originais da popularíssima plataforma digital. Mas os dois gestos da instituição acenam com a transformação da cultura cinéfila. As aventuras de Marion Cobretti, o Cobra, são indicativas de uma cultura de ação como espelho das brutalidades do mundo. Já o flerte com o grande N sugere um espaço de discussão sobre o que os streamings têm aportado de novo no terreno da linguagem, convidando cineastas de prestígio como Jane Campion para filmar sob a égide deles. Ela entra na mostra com “Ataque dos Cães” (“Power of the Dog”), pelo qual conquistou o prêmio de direção em Veneza. Sua sessão será no dia 11. Mas antes, no dia 7, a cinemateca parisiense inaugura esse evento com um dos longas mais comoventes do ano: “È stata la mano di Dio”, o escolhido da Itália para representar a pátria de Fellini na briga pelo Oscar.
Que filme sublime é essa aula de revisionismo histórico dada por Paolo Sorrentino. Trata-se de um hilário painel dos delírios da Nápoles dos anos 1980, a partir da chegada de Diego Armando Maradona (1960-2020) ao futebol italiano e da decisão de Federico Fellini (1920-1993) em realizar testes de seleção para figurantes de um projeto a ser rodado por lá. Sem medo das patrulhas medievais que hoje castram a cultura, o cineasta por trás de “Juventude” (2015) registra a nudez sob uma mirada afrodisíaca, recriando o passado sob a ótica de um adolescente, Fabietto (Filippo Scotti), que cresce em meio a delícias e decepções da vida. O Grande Prêmio do Júri dado por Veneza a Sorrentino foi justíssimo. Ele ainda saiu de lá com o prêmio Marcello Mastroianni, dado a Scotti.

Quem vive seu pai, um bancário trapalhão, é Toni Servillo. Ele e Sorrentino levaram um Oscar para a Itália, em 2014, com “A Grande Beleza”, que custou €9,2 milhões e faturou US$ 24 milhões, além de abocanhar mais 59 prêmios. Zapeando a streaminguesfera, o P de Pop encontrou o filmaço de Sorrentino em plataformas brasileiras como a Looke e na Amazon Prime. Dele, a Filmin.pt exibe “L’Uomo In Più” (2001), “As Consequências do Amor” (2004) e “Il Divo” (2008), que o consagrou com o Prêmio do Júri de Cannes, em 2008. Esses longas fizeram dele um dos maiores expoentes do “Risorgimento”. O termo se refere à onda autoral que vem salvando o (outrora majestoso) cinema italiano da decadência a partir de narrativas não convencionais feitas por uma novíssima geração de diretores na faixa dos 40 ou 50 anos. Matteo Garrone, Luca Guadadnino, Alice Rohrwacher, Laura Bispuri e Paolo Virzì vieram nessa esteira de sucesso dele, cujo lançamento mais recente, “Silvio e os Outros” (“Loro”) ficou sem tela por aqui, após seu acidentado lançamento no Velho Mundo, em 2018.
De uma delicadeza capaz de nos extrair lágrimas, “È Stata La Mano Di Dio” reconstitui a década de 1980, quando o jovem Fabietto Schisa, de 17 anos, engata um processo doloroso de amadurecimento, com o sonho de virar cineasta. Ele encontra alegria em uma família craque em celebrar a vida e em uma tia, Patrizia (Luisa Ranieri), que mexe com sua libido. Um par de eventos alteram tudo em seu dia a dia. Um deles é a chegada triunfante a Nápoles de uma lenda do esporte da época: o ídolo Maradona. O outro é um acidente com seus pais que pode condenar seu futuro. Salvo da dor do dia dia pela paixão por Maradona, ele será tocado pelo acaso (ou pela mão de Deus) e engata uma luta contra a inexorabilidade do destino. A requintada fotografia de Daria D’Antonio torna a paisagem à sua frente ainda mais fascinante.
Visto por cerca de um milhão de pagantes na Itália, onde dividiu a crítica por seu excesso de erotismo e de virtuosismo na imagem (sobretudo na direção de arte), “A grande beleza” surgiu como uma reação de Sorrentino à crise econômica europeia. Na trama, centrada em Roma, o jornalista Jep Gambardella (genialmente vivido por Toni Servillo), que, na juventude, publicou um romance considerado um marco literário, chega aos 65 anos, escrevendo reportagens sobre a nova realidade cultural de sua nação. Com o peso da idade e do tédio, Gambardella embarca em uma jornada existencial atrás da grandiosidade romana.
Integram ainda o pacotão Netflix da Cinémathèque Française “The Lost Daughter”, de Maggie Gyllenhaal, e “Vingança e Castigo” (“The Harder They Fall”), de Jeymes Samuel.

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