Cinemateca do MAM: cantinho de saudade, renovação e charme

Cinemateca do MAM: cantinho de saudade, renovação e charme

Rodrigo Fonseca

23 de março de 2019 | 11h08

Rodrigo Fonseca
Sob a curadoria de Ricardo Cota e sob os cuidados paternos de Hernani Hefner, um bamba em preservação da memória audiovisual, a Cinemateca do MAM marcou um golaço ao dar espaço a um longa-metragem inédito de um jovem realizador – ímã de elogios, “Primeiros amigos”, de Matheus Benites, tem sessão neste sábado lá, às 15h, e no domingo, às 16h -, o que demarca o interesse em se valorizar os novíssimos talentos de nossas telas. Em paralelo, ainda houve uma vaga (esta tarde, às 17h) para “Cleópatra”, de Julio Bressane, que, há 11 anos, abriu debates semiológicos durante sua passagem pelo Festival de Veneza. E pra diversificar ainda mais o pacote, nesta segunda vai ser exibido “Clamor do sexo” (1961), de Elia Kazan, às 18h, inaugurando a retrospectiva “Warren Beatty: Uma Rajada de Charme”, que vai de 25 a 31 de março na Cinemateca do MAM. Nela, comemora-se o aniversário do Warren Beatty que no próximo dia 30 de março fará 82 anos. Serão exibidos nove longas que sintetizam as batalhas políticas que o astro travou, seja no campo comportamental, seja na seara do questionamento  do governo de seu país. Tem um texto aqui do P de Pop no folder do evento, a ser inaugurado com um debate entre Hernani e a presidente da Associação de Críticas de Cinema do Rio, Ana Rodrigues. Haverá ainda uma exposição sobre a memória de Beatty com o material de arquivo da Cinemateca, organizada pelo pesquisador Fabio Vellozo. A seleção inclui “Bonnie e Clyde: Uma rajada de balas”, 1967 (na quarta); “O Céu pode esperar”, 1978 (quarta) e “Dick Tracy”, 1990 (no dia 31), entre outras delícias. Com essas joias todas na retina, a má impressão que ficou da festa do Oscar em que Beatty e Faye Dunaway citaram “La La Land” em vez de falar “Moonlight”, ao anunciarem o ganhador da estatueta de Melhor Filme de 2017, ficará para trás de uma vez por todas.

Mito do cinema americano dos anos 1960 e (sobretudo) 70, Beatty voltou aos cinemas em 2016, à frente e atrás de um filme sobre o aviador, cineasta e milionário Howard Hughes (1905-1976): “Regras não se aplicam”. Aos 79 anos, ele dirigiu e protagonizou essa comédia de tintas dramáticas sobre a relação de uma jovem atriz com Hughes. A tal aspirante a estrela é vivida por Lily Collins, de “Espelho, Espelho Meu” (2012). Martin Sheen, Alec Baldwin, Oliver Platt e Annette Benning estão no elenco do longa, cuja trama constrói uma espécie de triângulo entre a menina, Hughes e um motorista. Quem se lembra do trabalho dele como realizador à frente de “Reds” (1981), pelo qual levou um Oscar para casa, sabe que estamos falando de um dos mais sólidos frutos da Nova Hollywood. E o MAM faz um trabalho digno de aplausos ao jogar holofotes sobre seu legado.

p.s.1: A revista “Superinteressante” acaba de lançar uma preciosa edição especial batizada “101 Filmes de Guerra”, com um rico dossiê sobre o gênero, escrito por Alexandre Carvalho, que inclui “Rambo: programado para matar” (1982) entre seus objetos de análise.

p.s.2: Filho de Othon Bastos, José Dumont e Tarcísio Meira em filmes e novelas, o ator Rodrigo Santoro faz jus a seus pais audiovisuais em “O tradutor”, produção cubana, baseada em hechos reales, na qual ele nos brinda com uma interpretação de resfolegar o peito. Tem uns calombos no roteiro. Mas a atuação doída dele e a forma como a direção refaz traumas políticos de Cuba, no fim dos anos 1980, tornam este longa um drama bem azeitado. É um documento precioso sobre a mudança história que se encena com a Queda do Muro de Berlim em territórios socialistas ou comunistas de outros continentes, como as Américas. Estreia dia 4 de abril.

p.s.3: Na madrugada de segunda (25/3) para terça, às 2h05, Tem “Casa Grande”, de Fellipe Barbosa, na telinha da Globo, abrindo um debate rico sobre o desmantelo de classes sociais.