Cinemas dos EUA entram ‘En guerre’ com o Capitalismo

Cinemas dos EUA entram ‘En guerre’ com o Capitalismo

Rodrigo Fonseca

15 de julho de 2019 | 11h21

Vincent Lindon vive um líder sindical no longa de Stéphane Brizé que estreia sexta em solo americano

Rodrigo Fonseca
Um ano depois de sua “barulhenta” passagem pelo Festival de Cannes, onde eriçou ânimos com suas propostas de “reforma trabalhista” em forma de dramaturgia de ação, “En guerre”, de Stéphane Brizé, vai enfim estrear nos EUA, com a promessa de apresentar para os cinéfilos americanos uma nova modalidade de “cinema catástrofe”. Nela, não vemos fenômenos naturais, como terremotos ou furacões, e sim, crises na economia global. Na trama desta eletrizante produção – vista por cem mil pagantes em apenas três dias, após sua estreia, na França, em maio de 2018 -, um operário de vasta KMetragem no empório da “mais valia” tenta organizar uma mobilização entre seus colegas a fim de evitar o sucateamento da usina onde trabalha.
“Existe uma naturalização do desemprego na mídia, que esvaziou a dimensão trágica do corte de laços entre a massa assalariadas e suas fontes de renda. A demissão parou de ser vista como um escândalo. A linhagem documental do cinema pode, com muita eficácia, dar voz a esse incidente. Mas a ficção pode potencializar outras veredas desse ritual institucionalizado de exclusão”, disse Stéphane Brizé, ao P de Pop, durante um acalorado bate-papo, na Croisette, ao lado de Vincent Lindon, seu ator assinatura, que é uma espécie de Antonio Fagundes da França.
Em 2015, os dois saíram ovacionados de Cannes com “O Valor de um Homem”, um estudo sobre a horizontalização da miséria, nos ambientes profissionais, que deu a Lindon o prêmio de melhor ator no festival francês. O tema era o mesmo: os saldos da crise econômica para quem não tem trabalho, vistos sob a ótica de um 50ão que não via formas de ser incluindo no mercado. Agora, “En Guerre”, que evoca o monumental “Eles não usam black-tie” (1981), azeita a dobradinha entre Brizé e Lindon a partir de uma estrutura narrativa de ação contínua: não é violência, mas protesto, agitação. O que eles fizeram parece um documentário, pelo hiperrealismo das passeatas de uma célula operária em conflito com seus patrões.
“Não é reportagem, é dramaturgia política: eu critico o jornalismo incluindo repórteres em ação na minha narrativa, incapacitados de fazer alguma diferença a partir de seu ofício, pois estão todos num marasmo capitalista. A linguagem documental me ajuda porque, hoje, ela flagra temas para os quais o jornalismo nem sempre investe”, disse Brizé, que, na montagem, buscou dar à narrativa um ritmo nervoso, típico de filmes de ação, como “Z” (1969), de Costa-Gavras.“Nossa linha de ação é a cólera, pois só ela pode se impor contra a injustiça, tendo como alimento experiências reais legítimas, mesclando não-atores a profissionais como Lindon”, disse o diretor, encarado hoje como a promessa de renovação do cinema social francês.

Na trama, Lindon vive o sindicalista Laurent Amédéo, que luta para mediar a relação entre seus colegas de fábrica com patrões alemães interessados em fechar a empresa. “Nosso cuidado era fugir da vitimização e do heroísmo sindicalista”, disse Lindon ao Estadão. “Vítimas, o mundo fabrica. Mártires… deles a ficção não precisa. O que nos faz falta é reação. Reação em massa. E na massa existem corações que batem com singularidade”.

p.s.: Vai ter “Silvio e os outros” (“Loro”), de Paolo Sorrentino, na 8 1/2 Festa do Cinema Italiano 2019, de de 8 a 21 de agosto, em várias cidades brasileiras. É uma atuação magnífica a de Toni Servillo como Silvio Berlusconi.

Tendências: