Cinema Mascaro: desejo, real(idades) e neon

Cinema Mascaro: desejo, real(idades) e neon

Rodrigo Fonseca

07 de agosto de 2020 | 14h27

Gabriel Mascaro levou “Divino Amor” à grade da MUBI

Rodrigo Fonseca
Construída entre 2008 e 2019 (com ideias a caminho) no fio de alta tensão do desejo e das políticas do ser e estar, a obra mundialmente aclamada do pernambucano Gabriel Mascaro já arrebatou troféus em Veneza (para “Boi Neon”), aplausos de Sundance e da Berlinale (dados a “Divino Amor”) e burburinhos de aclamação de Roterdã pra “Avenida Brasília Formosa” (2010) e menção especial pros fortes “Ventos de Agosto” (2015). Aromas sociológicos, em especial as fragrâncias da luta de classes, perfumam todas as suas reflexões, alcançando um cheiro mais amadeirado, daqueles carvalhos que nunca tombam, em “Doméstica” (2012). Saca a carreira lá fora desta investigação observacional sobre o cotidiano da faxina como labuta: 25 International Documentary Film Festival Amsterdam, Holanda; 53 FICCI – Festival Internacional de Cine de Cartagena, Colômbia; Tempo Documentary Festival, Suécia; 15 BAFICI, Festival de Filme de Buenos Aires, Argentina; 10 IndieLisboa – Mostra Pulsar do Mundo, Portugal; Distrital México; 17 FIDOCS – Festival Internacional de Documentales, Santiago del Chile; I Transcinema, Festival Internacional de Non-Ficción, Peru; 42º Festival du Nouveau Cinéma de Montréal, Canadá; DOK Leipzig 2013, Alemanha; Zurich Film Festival, Suíça; Clair Obscur/Festival Travelling – Rennes, França; MoMa’s Documentary Fortnight – New York, nos EUA e… ufa! Tem mais coisa, muita coisa coroando o longa-metragem que entra em pauta no seminário Na Real_Virtual, em sua edição nº 9, nesta sexta-feira, às 19h, online. Os DJs nas carrepetas desta sabatina documental: o crítico Carlos Alberto Mattos e o cineasta Bebeto Abrantes, com apoio dos produtores Marcio Blanco e Kerlon Lazzari, da Imaginário Digital. Mascaro vai falar de sua prática, de suas estratégias de buscar o que reside nas entrelinhas do verbo e nos hiatos entre fato e fábula.
“Em ‘Doméstica’, havia um filme sobre trabalho que virou um filme existencialista, algo que passava por um mestre do documentário como Eduardo Coutinho”, contou Mascaro ao P de Pop durante o Festival de Berlim, em 2019, quando exibiu “Divino Amor”, que hoje integra a grade da MUBI (www.mubi.com) e merece ser assistido antes do colóquio de Mattos e de Abrantes. “Ali, eu queria fazer a fabulação de um Brasil do futuro, de 2027, onde o carnaval deixou de ser a nossa festa mais popular e deu a uma festa religiosa, evangélica, em forma de rave. Eu tento pensar um Estado no qual a religião tem ainda mais influência sobre o Brasil… como já anda tendo hoje. É também uma discussão do Estado se apropriando do corpo”.

Espécie (crítica) de “THX1138” (o marco zero de George Lucas) meets “Fala que eu te escuto”, programa de evangelização mais popular (e exótico) da TV brasileira, a sci-fi “Divino amor” saiu de Sundance diretamente para a mostra Panorama do 69º Festival de Berlim como estandarte da inquietação de seu país em relação ao avanço do conservadorismo moral. É um estandarte também da evolução narrativa de Mascaro, responsável pelo precioso “Boi neon” (prêmio especial do júri nos Horizontes de Veneza, em 2015). Há nele, em sua mirada futurista, de distopia, uma sequência na qual Joana, funcionária de cartório encarregada de cuidar de separações, vivida por uma Dira Paes em estado de Graça (aquela que vem do Alto, do Olimpo das atuações memoráveis), faz um circuito de exercícios aeróbicos como se estivesse em vídeo da Jane Fonda dos anos 1980. Veste collant, faz posições repetitivas num Kumon de disciplina do corpo. Isso porque a alma de Joana já foi disciplinada há tempos, num pacto selado com Cristo e com a segurança de um mundo avesso aos quebra-molas do antropocentrismo. No mundo dos homens, em ebulição, o prazo de validade de tudo é curto, até das relações amorosas. No mundo do Senhor, tudo fica para sempre, ainda que o preço a se pagar por isso é anular diversidades.
Assim como a ginástica de Joana parece VHS da Turner Classics, também existe estilização quase brega no universo religioso frequentado por Joana e seu marido, o florista Danilo. Este é vivido por um Julio Machado sempre afiado em todas as vezes em que faz da palavra um lugar de perturbação. O mundo deles parece o Festival da Canção de San Remo… ou o “Show de Calouros” de Silvio Santos. Parece conceitualmente, pois a direção de arte de Thales Junqueira, potencializada na fotografia de Diego García, deixa nítido que existe ali um pensamento muito filosofado (e bem abrasivo) de usar um colorido eletrônico, lisérgico e neon, para aproximar o culto daquele futuro fundamentalista (estamos no Brasil de 2027) de uma rave.
“Em seus documentários, Gabriel Mascaro testou vários limites em relação à dramaturgia, à ética e à autoria. Arriscou sempre chamuscar-se na fogueira para sair do outro lado com um filme em brasa”, explica Mattos ao justificar a escolha de um centauro entre a não ficção e a fabulação no rol do Na Real_Virtual, que pode ser acompanhado até o dia 14 de agosto via https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020.

Desde 20 de julho, tem um papo sobre a arte de documentar no simpósio de Mattos e de Abrantes, mobilizando titãs da narrativa como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Petra Costa, Walter Carvalho, Belisario Franca e Joel Pizzini. Rolam conversas às segundas, quartas e sextas, tendo um longa como eixo. “Doméstica” é o atalho que os curadores tomaram para chegar ao coração documental de Mascaro. Sua sinopse oficial: Sete adolescentes assumem a missão de registrar por uma semana a sua empregada doméstica e entregar o material bruto para o diretor realizar um filme com essas imagens. Entre o choque da intimidade, as relações de poder e a performance do cotidiano, o filme lança um olhar contemporâneo sobre o trabalho doméstico no ambiente familiar e se transforma num potente ensaio sobre afeto e trabalho.
“O filme ‘Doméstica’ é parte de uma onda que eu chamo de cineantropologia pernambucana, que dramatiza as relações de classe numa cultura ainda arcaica e pensa as relações entre a cidade do Recife e seus habitantes. Isso é muito forte, se a gente junta aos de Mascaro os filmes de Kleber, Marcelo Pedroso, Renata Pinheiro etc.”, explica Mattos. “O ‘Doméstica’ põe a nu uma dialética entre a perpetuação e a diluição das relações senhoriais do passado. Mostra que ainda prevalece a passagem dos empregados como ‘herança’ entre várias gerações da família, assim como os casos em que se dissolvem as fronteiras entre a família do empregado e a do patrão”.

Abrantes enxerga pluralidade na estética mascariana. “Uma das riquezas do .doc contemporâneo brasileiro é a diversidade de estratégias usadas por nossos cineastas, na abordagem e construção de um dado real. Gabriel Mascaro destaca-se nessa lista desde seu primeiro filme ‘KFZ-1348’ (com um fusca e seus donos como fio condutor} passando por ‘UM LUGAR AO SOL’ (dispositivo espacial e de classe: entrevistas com moradores de coberturas de prédios) até chegar em ‘DOMÉSTICA’. Neste, câmeras entregues para jovens filmarem suas empregadas domésticas”, diz Abrantes. “Esses filmes são regidos por aquilo, que muitos chamam de dispositivo narrativo. Coutinho, falava das regras de um filme, ou prisão. O fato é que o diretor define uma certa situação de controle, para se permitir perder o controle. Assim: em vez do roteiro, inventa-se uma metodologia, que deflagra e estrutura a narrativa”.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: Será exibido nesta segunda-feira, às 19h20, no Canal Brasil, o documentário “Lorna Washington – Sobrevivendo a Supostas Perdas”, com direção da dupla Leonardo Menezes e Rian Córdova. O documentário mostra a trajetória da transformista Lorna Washington, com 42 anos de carreira. O longa revela bastidores de shows LGBTQi+. Entre os entrevistados, a atriz Rogéria (em uma de suas últimas entrevistas em vida), a cantora Alcione, o carnavalesco Milton Cunha, o ativista político Almir França e as performers Rose Bombom e Isabelita dos Patins falam sobre estratégias de resistir. Conhecida por sua versatilidade, elegância e pelas opiniões polêmicas, Lorna Washington fez história em boates que marcaram época como: Papagaio, de Ricardo Amaral, Sótão, Le Boy e 1140. Sua militância na luta contra o preconceito e sua peleja pela conscientização sobre o HIV também a levaram à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para receber uma homenagem. O .doc é uma história de lutas.

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