Cinema espanhol em fase de ouro

Cinema espanhol em fase de ouro

Rodrigo Fonseca

14 de fevereiro de 2022 | 14h09

RODRIGO FONSECA
Eternizado na streaminguesfera via “La Casa de Papel” e cotado a bombar na Netflix Brasil com a estreia de “Madres Paralelas”, aqui, no dia 18, o audiovisual espanhol chegou com força total à briga pelo Urso de Ouro com dois filmes: “Um Ano, Uma Noite”, de Isaki Lacuesta, exibido nesta segunda, e “Alcarrás”, de Carla Simón, agendado pra terça. O primeiro recria um atentado a uma boate, em 2015, sob a ótica de um casal. O segundo vai ao universo rural catalão para narrar a rotina de quem planta pêssegos pra viver. Mas a chegada de ambos coincide com a consagração de “O Bom Patrão”, de Fernando León de Aranoa, no troféu Gota, o Oscar da Espanha, no fim de semana. Teve prêmio de melhor filme, direção, roteiro original, montagem, trilha sonora e ator (pra Javier Bardem) dado à produção. E, com tanta vitória, o mercado europeu, a partir de Berlim, propaga o sucesso dessa comédia social com Bardem.

Seu título original é “El Buen Patrón” e ela começou sua carreira na disputa pela Concha de Ouro do 69. Festival de San Sebastián, em sua Espanha natal.
“Um bom roteiro é um presente para um ator. E foi o que encontrei aqui ao falar de um homem cujo código particular de honra é uma simples desculpa para seu abuso de poder, para atropelar os direitos fundamentais de seus funcionários. Uma pessoa antiética. Mas essa doença que ele encarna vem do olhar do Fernando”, disse Bardem, em resposta ao Estadão.
em San Sebastián. “A questão central aqui é discutir relaçōes de força em um ambiente de trabalho”.

Vinculado à tradição do cinema político europeu dos anos 1970, como o italiano “A Classe Operária Vá ao Paraíso” (Palma de Ouro em 1972), “El Buen Patrón” dá a Bardem seu melhor papel desde “Biutiful” – pelo qual ganhou o prêmio de melhor interpretação em Cannes, em 2010. Ele vive Blanco, dono dono de uma metalúrgica que se faz passar por um pai para seus empregados, mas é capaz de explorar a boa vontade deles sem nenhum pudor. Da mesma forma, ele disfarça seu sexismo numa postura avessa a práticas machistas, mas abusa das mulheres que o cercam, em nome do prazer.
“Blanco é um sujeito que usa a palavra ‘éxito’ como desculpa para abusar da boa vontade alheia. O que Fernando me ofereceu ao me escalar para esse personagem foi um meio de discutir a busca pelo controle”, disse Bardem. “É um cinema que faz pensar”.

Mark Rylance em “The Outfit”

Desde domingo à noite, fora de sua competição, a Berlinale .72 anda encantada com “The Outfit”, de Graham Moore. Em sua estreia na direção de longas, o oscarizado roteirista de “O Jogo da Imitação” (2014) visita a cartilha do cinemão noir num thriller arrebatador em que um veterano costureiro, chamado de Inglês (Mark Rylance), é obrigado a apaziguar os ânimos de um gângster em meio a uma disputa de mafiosos. Lembra Hitchcock em sua forma sutil de exponenciar a tensão. E Rylance devora nossa ansiedade com uma atuação genial.

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