CineBH abre ‘Auto de Resistência’

CineBH abre ‘Auto de Resistência’

Rodrigo Fonseca

01 de outubro de 2021 | 12h48

“Auto de Resistência” venceu o É Tudo Verdade 2018

Rodrigo Fonseca
Inaugurada no dia 28 de setembro, com projeções online de pérolas como “A Primeira Morte de Joana” e “Minha Raiz”, a 15ª CineBH – Mostra de Cinema de Belo Horizonte – e com ela o 12º Brasil CineMundi: International Coproduction Meeting – segue online até domingo, celebrando as múltiplas vozes de invenção, de denúncia e de provocação de nosso cinema. Este ano, ao longo de seis dias, a maratona da capital mineira vai exibir 90 filmes nacionais (vindos de 12 estados) e internacionais (egressos de 17 países) em pré-estreias. Sua temática é “Cinema e Vigilância”, em referência ao estatuto do controle que surge com as atuais tecnologias. Nesse registro, há um título que a violência de uma metrópole como o Rio de Janeiro torna cada vez mais urgente: “Auto de Resistência”, de Natasha Neri e Lula Carvalho.

Raras vezes o prêmio de Melhor Filme do É Tudo Verdade, a maior maratona documental das Américas, foi tão bem dado quanto o de sua edição de 2018, em que coroou a reflexão foucaultiana, acerca do abismo entre os verbos “vigiar” e “punir”, de “Auto de Resistência”, um atestado de nossa insegurança pública. Numa reação ao atual estado de impunidades e inércias da política brasileira, o longa-metragem de Natasha e Lula está para os anos 2010 como “Wilsinho Galiléia” (1978), de João Batista de Andrade, esteve para a reta final da ditadura militar no país. Assim como o docudrama de João Batista – que denunciava a prática dos militares de promover a bestialização das periferias para legitimar a institucionalização do “Estado Fardado” -, o ensaio investigativo de Natasha e Lula expõe modos de se massacrar as massas como práticas de dominação. O cordeiro é o contribuinte pobre que sustenta a ave de rapina com impostos.
Com a ajuda de imagens raras (inclusive da vereadora assassinada Marielle Franco), muitas delas feitas de celular, o longa discute a morte de moradores de áreas mais pobres do Rio de Janeiro em intervenções policiais equivocadas. Por “equívoco” entenda “assassinatos de inocentes”. Ao analisar sociologicamente a mortandade nas mãos da PM como forma de exclusão, o filme compartilha com o espectador um estudo minucioso sobre corrupção policial e sobre o exercício de perseverança no pleito pela Justiça. Com engenhosidade dialética, a taquicárdica edição feita por Marília Morais ajuda o trabalho de investigação de Lula e Natasha a conversar, de modo frontal, com “Notícias de uma Guerra Particular” (1999) e “Ônibus 174” (2002) – docs. essenciais para entendermos nossos desgovernos. Eis um filme que se candidata à História em sua mirada geopolítica. Um filme do desespero.

Raquel Hallak virou a embaixadora das Gerais no planisfério cinéfilo fazendo de Minas uma capital da invenção e do debate a partir de festivais como o CineBH, a CineOP e a Mostra de Tiradentes

A pedido do P de Pop, a produtora que transformou MG em um vetor de empuxo pro audiovisual, Raquel Hallak, fala do desenho do CineBH, que se junta com a Mostra de Tiradentes e a CineOP, de Ouro Preto.
Em 2007, a Universo Produção lançou um novo empreendimento audiovisual – a CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte. O evento nasceu no bairro de Santa Tereza, um dos mais tradicionais redutos culturais da capital mineira. Essa maratona foi responsável pela reabertura do Cine Santa Tereza, cinema de bairro fundado em 1944 e desativado desde 1980. Na ocasião, a Universo Produção instalou “uma operação”, em tempo recorde, de reconstrução do espaço físico do cinema, entreaberto provisoriamente para ser sede do evento (2007-2011), e em 2016 foi reinaugurado após a conclusão das reformas, tornando-se o único cinema de rua público da cidade. A Mostra CineBH retornou ao bairro para comemorar seus 10 anos (2016) e brindar o legado cinematográfico que motivou novas iniciativas e diálogos na comunidade, em Belo Horizonte e em Minas Gerais.
Com edições anuais consecutivas, a Mostra CineBH, o evento de cinema da capital mineira, chega a sua 15a edição em 2021, reafirmando seu propósito de mostrar o cinema para o mundo, promover o diálogo entre as culturas, aproximar povos e continentes, fazer a conexão do cinema brasileiro com o mercado audiovisual, realizar encontros de negócios, investir na formação, intercâmbio e cooperação internacional, construir pontes nas escolas, comunidades, redes sociais e com a cidade de Belo Horizonte e Minas Gerais.
Em diálogo e conexão com as cidades que integram a Grande BH, o evento realiza desde 2016, a mostra A Cidade em Movimento que reserva um espaço para seleção e exibição de filmes independentes produzidos na Região Metropolitana de Belo Horizonte e a realização de rodas de conversa que reúnem cineastas, produtores e convidados especiais para dialogar sobre a vivência urbana diante de contextos sociais propostos pela curadoria de cada edição. Em 2021, a temática é “Cinema (em) Comum”, trazendo como perspectiva a ideia do comum no cinema e convocando as relações entre filme, processo e cidade na construção de um sentido de comunidade.
Ao fazer 15 anos de história, a Mostra CineBH lança uma novidade: amplia o diálogo e a conexão com as comunidades, coletivos e projetos sociais com a realização da ação Quem Movimenta a Cidade?, um recorte da programação A Cidade em Movimento. Um recorte que coloca em destaque ações, coletivos, projetos sociais e seus protagonistas, para apresentar o resultado de seus trabalhos, pesquisas, ações e projetos que fazem a diferença na cena da cidade, de Minas Gerais e do Brasil. Uma iniciativa múltipla e diversa para compartilhar a caminhada, construir pontes de forma integrada e somar sonhos, afetos e desejos de movimentos de interesses comuns no anseio de dias melhores.
Simultaneamente a toda programação da Mostra CineBH, acontece o Brasil CineMundi –International Coproduction Meeting, consolidado como o evento de mercado audiovisual do cinema brasileiro e faz conexão entre a produção brasileira e a indústria audiovisual. Chega a sua 12a edição em 2021 com a oferta de uma programação intensa e gratuita que oferece ambiente de mercado e plataforma de rede de contatos e negócios para o cinema brasileiro.
Ao longo de sua trajetória, o Brasil CineMundi tem registrado resultados que comprovam a importância e o alcance desse empreendimento para o mercado audiovisual brasileiro. Dos 159 projetos selecionados (2010-2020), mais de 100 foram finalizados, mais de 60 firmaram parcerias em coprodução e foram lançados comercialmente.
A cada edição, o evento tem atraído a participação de importantes players brasileiros e estrangeiros, ocupando lugar de destaque no circuito de eventos de mercado. A mostra está conectada com festivais, eventos e profissionais internacionais. Conquistou e estabeleceu parcerias construtivas e acordos de cooperação internacional que têm assegurado vaga para projetos brasileiros e a viabilização de produtores brasileiros em eventos de mercado internacionais, ampliando com isto as possibilidades de concretizar coproduções ou cooperações a curto prazo e/ou em possíveis projetos futuros.
Renova o Termo de Cooperação e parceria com a Embaixada da França no Brasil (França), o Instituto Goethe (Alemanha), o Projeto Paradiso (Brasil), os eventos de mercado internacionais – Word Cinema Fund(Alemanha), Ventana Sur (Buenos Aires, Argentina), Maff – Málaga Festival Fund&Co-productionEvent (Espanha), BioBioCine(Chile), Conecta(Chile), DocMontevideo (Uruguai) e DocSP (Brasil), Nuevas Miradas(Cuba), assegurando, desta forma a participação de produtores e projetos brasileiros nessas realizações.
Conta também com a participação de diversos players e com representantes da indústria audiovisual que possibilitam premiação aos projetos participantes – Mistika, Dot, CTAv, Forte Filmes, Parati Films, Naymovie, entre outros, com a oferta de materiais e serviços cinematográficos que visam somar esforços na viabilização dos projetos em filmes, para o projeto da categoria Horizonte, eleito pelo Júri e composto por três profissionais do audiovisual, que também recebe o Troféu Horizonte, oficial do evento.
A programação é diversificada e intensa, com atividades direcionadas aos profissionais dos projetos selecionados para o Brasil CineMundi, mas também com ações abertas ao público visando ampliar as possibilidades de troca de conhecimento, experiência e profissionalização do setor audiovisual.
Nesta edição, o evento conta com a participação de mais de 50 profissionais brasileiros e internacionais, que tomam parte de encontros de coprodução, rodadas de negócios, consultorias e mentorias de roteiro aos projetos selecionados, bem como oferece ações formativas e técnicas, debates, painéis, workshops e masterclasses internacionais com temas focados no mercado audiovisual, visando contribuir para o desenvolvimento do setor, com experiências e estratégias de coprodução, fundos de investimento, lançamento de filmes, exibição, vendas e distribuição de produtos audiovisuais no mercado nacional e internacional, estratégias de difusão de filmes em festivais internacionais e eventos de mercado.
De 2010 para cá, podemos constatar que o Brasil CineMundi é pioneiro em seu conceito e atuação. Tem registrado alcance e resultados que comprovam e favorecem a promoção e inserção do cinema brasileiro no mercado global, a formação e qualificação de profissionais do setor audiovisual, a oportunidade e investimento em novos talentos, a articulação e presença de projetos selecionados que se tornaram filmes, ganharam as telas do Brasil e do mundo, firmaram parcerias em coprodução e tiveram suas sessões de pré-estreias nas edições das mostras que integram o programa Cinema sem Fronteiras (Tiradentes, Ouro Preto e BH),promovido pela Universo Produção. Resultados que nos motivam a seguir adiante e reafirmam o empreendimento como o evento de mercado do cinema brasileiro diferenciado e fundamental para Minas Gerais e o Brasil.
Os desafios do setor audiovisual brasileiro no mercado global dão o tom da programação da Mostra CineBH e do Brasil CineMundi. Em pauta, o mercado audiovisual brasileiro; as políticas públicas; a coprodução internacional; o cinema documentário; as opções de intercâmbio e cooperação; as estratégias de inserção no mercado; distribuição e circulação de conteúdos; relato de experiências; a cinefilia e o cinema enquanto laboratório de experimentações de novas possibilidades de gênero.
Enquanto a Mostra CineBH discute o papel do cinema e da cinefilia na sociedade, o Brasil CineMundi apresenta novos projetos de longa brasileiro ao mercado internacional. Juntos apresentam uma temporada audiovisual contemporânea e histórica em filmes e atitudes.

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