Cine Ceará fisga uma pérola brasileira das ondas do mar

Cine Ceará fisga uma pérola brasileira das ondas do mar

Rodrigo Fonseca

28 de maio de 2016 | 11h47

Julio Andrade e Pietro Mario em

Julio Andrade e Pietro Mario em “Maresia”: um mergulho filosófico na criação estética compete no festival cearense

Garimpo de pepitas audiovisuais de CEP ibero-americano, o Cine Ceará, realizado há quase três décadas em Fortaleza, pelo cineasta e professor Wolney Oliveira, assegurou para sua 26ª edição, agendada de 16 a 22 de junho, uma joia ficcional brasileira inédita em circuito para sua programação: Maresia. Só o fato de oferecer ao eterno Capitão Furacão, o septuagenário ator e dublador Pietro Mario Bogianchini, um papel à altura de seu talento já seria suficiente para tornar o longa-metragem de Marcos Guttmann uma iguaria a ser degustada com o paladar do exotismo. Porém, a narrativa especular que o diretor de curtas como KM 0 construiu com base na prosa de Barco a Seco, de Rubens Figueiredo, vai além de encantamentos afetivos com a figura de Mario, que foi reverenciado em 2013 com o belo curta Pietro, de Hsu Chien. A potência aqui se dá pela alta voltagem filosófica que Guttmann alcança ao estabelecer uma espécie de tratado sobre estética com base numa trama ficcional entre um especialista em artes plásticas e a obra errante de um pintor dado como morto há décadas. Os dois papéis foram oferecidos ao mesmo ator, Julio Andrade, cuja selvageria essencial, que já nos rendeu inestimáveis atuações (Hotel Atlântico, Gonzaga de Pai para Filho), serve aqui tanto para dar corpo a um intelectual fechado a emoções (o marchand e pesquisador) quanto a um artista obediente apenas à maré. Ao seguir por estas duas trilhas, cada uma em um ponto da História, apoiado na afiada montagem de Waldir Xavier e Marília Moraes, sempre atenta à sensualidade, Guttmann esgarça uma bifurcação amorosa, na qual há de um lado a paixão do pintor por uma viúva (vivida por Mariana Nunes) e, do outro, a paixão de um analista por seu ofício – e pelo ideal de “verdade” que crê ser capaz de extrair deste trabalho. O resultado, além de uma homenagem à pintura como expressão inquieta do inconsciente, é uma discussão sobre o fazer artístico, pondo na balança criadores e críticos.

Mariana Nunes e Julio Andrade em

Mariana Nunes e Julio Andrade em “Maresia”

É da natureza do Cine Ceará estabelecer uma competição multinacional, de DNA latino, tendo este ano concorrentes panamenhos, uruguaios, espanhóis e mexicanos (país homenageado numa retrospectiva paralela), em igualdade de concurso com os brasileiros. E Maresia, com a elegância visual da fotografia de Alexandre Ramos, tem força para defender o cinema brasileiro, também bem representado pelo mais recente documentário de Belisario Franca, Menino 23, e da ficção Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, de Petrus Cariry, um dos filmes mais inquietantes do Festival do Rio 2015, agora em exposição para a terra natal de seu realizador. É uma seleção que promete discussões ricas sobre linguagem.

 

O cardápio de atrações nacionais do Cine Ceará 2016 traz:

LONGAS:

Clever (Federico Borgia e Guilhermo Madeiro. 2015. Ficção. 83min. Cor. URUGUAI)

Casa Blanca (Aleksandra Maciuszek . 2015. Documentário. 62min. Cor. MÉXICO)

Salsipuedes (Ricardo Aguilar e Manolito Rodríguez. 2016. Ficção. 95min. Cor. PANAMÁ)

Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois (Petrus Cariri. 2015. Ficção. 80min. Cor. BRASIL)

Avó (Asier Altuna. 2015. Ficção. 103min. Cor. ESPANHA)

Epitafio (Yulene Olaizola e Rubén Imaz. 2015. Ficção. 82min. Cor. MÉXICO) Maresia (Marcos Guttmann. 2015. Ficção. 77min. Cor. BRASIL)

Menino 23 (Belisario Franca. 2015. Documentário. 80min. Cor. BRASIL)

 

CURTAS: 

Abissal (Arthur Leite. 2016. Documentário. HD. 17min. Cor. CE)

A Festa e os Cães (Leonardo Mouramateus. 2015. Documentário. HD. 25min. Cor. CE)

Carruagem Rajante (Jorge Polo e Lívia de Paiva. 2016. Ficção. HD. 21min. Cor. RJ)

Da Janela Pra Consolação (Dellani Lima. 2016. Experimental. HD. 17min. Cor. SP)

Fotograma (Luís Henrique Leal e Caio Zatti. 2016. Documentário. HD. 9min. Cor. PE)

Índios No Poder (Rodrigo Arajeju. 2015. Documentário. HD. 21min. Cor. DF)

Janaina Overdrive (Mozart Freire. 2016. Ficção. HD. 19min. Cor. CE)

Monstro (Breno Baptista. 2015. Documentário. HD. 20min. Cor. CE)

Noite Escura de São Nunca (Samuel Lobo. 2015. Ficção. HD. 21min. Cor. RJ)

O Teto Sobre Nós (Bruno Carboni. 2015. Ficção. HD. 22min. Cor. RS)

Quando é lá fora (André Pádua e Leonardo Branco. 2016. Ficção. HD. 21min. Cor. MG)

Solon (Clarissa Campolina. Experimental. 2016. HD. 16min. Cor. MG)

Uma Família Ilustre (Beth Formaggini. 2015. Documentário. HD. 18min. Cor. RJ)

USP 7% (Daniel Mello & Bruno Bocchini. 2015. Documentário. HD. 15min. Cor. SP)

 

p.s.: Fora do Cine Ceará, no reduto da televisão, uma apoteótica atuação de Gérard Depardieu anima a telinha na série Marseille, da NetFlix. Espécie de House of Cards da França, só que mais bem dirigido, o seriado acompanha os bastidores da política numa zona portuária que depende da abertura de um cassino para reaver a força financeira de outrora. A direção é de Florent-Emilio Siri, do cult Ninho de Vespas (2002), que filmou Refém (2005), com Bruce Willis, nos EUA, voltando à Europa para rodar o tocante musical  My Way – O Mito Além da Música (2012), sobre Claude François, o Fábio Jr. francês. Vale uma espiada atenta.