Cinco novos filmes com fôlego para reciclar o cinema americano

Cinco novos filmes com fôlego para reciclar o cinema americano

Rodrigo Fonseca

07 Julho 2016 | 12h25

“Captain Fantastic”, de Matt Ross: melhor direção na mostra Un Certain Regard em Cannes

Em tempos de super-heróis, é escassa a oferta de filmes adultos para adultos nos EUA, o que torna o lançamento de Captain Fantastic, drama salpicado de humor e loucura dirigido pelo ator Matt Ross (o Gavin Belson da série Silicon Valley), um achado a ser festejado como uma exceção de resistência estética às margens do pop. Laureado com o prêmio de melhor direção na mostra Un Certain Regard de Cannes, ele dá ao sempre brilhante Viggo Mortensen (o rei Aragorn de O Senhor dos Anéis) uma passarela para que o ator desfile todo o seu armamento dramático. Numa atuação já encarada como potencial candidata a uma indicação ao Oscar, Mortensen é um escritor excêntrico que vive com os filhos em reclusão na Natureza, sem contato com a tecnologia digital nem com guloseimas “estraga estômago” do mundo industrializado. Mas o enterro de sua mulher obriga o sujeito a sair de seu casulo natureba e arrastar suas meninas e meninos pela América adentro, ensinando a eles que Coca-Cola é “água envenenada” e que nunca é cedo demais para se decorar poemas de Ezra Pound. De um humor daqueles que enfeitiçam, mas doem, o longa-metragem de Ross – que entra em cartaz em seu país natal nesta sexta-feira – é uma das pepitas douradas capazes de nos mostrar a mina de ouro incrustada no coração do cinema americano. Conheça a seguir outras quatro joias madeinusa com charme e fôlego para surpreender, todas elas inéditas por aqui e de circulação ainda restrita por lá.

Midnight Special Cartaz

Midnight Special, de Jeff Nichols
Indicado ao Urso de Ouro em Berlim, de onde saiu cravejado de elogios, este thriller sci-fi confirma a influência que o diretor Jeff Nichols (de O Abrigo) sofre da Easy Rider Generation – isto é, a turba de diretores como Scorsese, De Palma, Coppola, Spielberg &cia. que, entre 1967 e 1980, renovaram a forma de se filmar nos EUA, na base do engajamento político e do revisionismo estético. Numa homenagem indisfarçável a Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), o cineasta põe (seu ator-fetiche) Michael Shannon e Kirsten Dunst como pais de um garotinho dotado de poderes paranormais, o que pode estar ligado a forças de outro mundo. Mas a dimensão fantástica é mero detalhe frente ao que conta mais: um ensaio sobre lealdade familiar construído em um paralelo com conspirações políticas acerca do controle estatal.

Indignation wale

Indignation, de James Schamus
Produção multinacional de DNA americano e brasileiro, via a participação criativa da RT Features de Rodrigo Teixera (de Frances Ha e Alemão), este drama romântico sobre repressões morais e sexuais nos EUA dos anos 1950 marca a estreia na direção do veterano produtor e roteirista James Schamus, parceiro de Ang Lee em Hulk (2003), O Tigre e o Dragão (2000) e o cult Tempestade de Gelo (1997). Com base no romance homônimo de Philip Roth, o longa-metragem, exibido em Sundance, em janeiro, e em Berlim, em fevereiro, traz Lerman na pele de Marcus Messner, um jovem judeu pobre de Nova Jersey que tenta a sorte ao se mudar para Ohio, a fim de estudar. Lá, ele vai saber o quanto um amor pode doer, assim como vai se deparar com o antissemitismo. A hilária participação de Tracy Letts, dramaturgo responsável por sucessos teatrais como Killer Joe e Álbum de Família, é uma garantia de humor numa sequência entre reitor e aluno de rachar o bico.

Mr. Church Eddie

Mr. Church, de Bruce Beresford
Encarado como uma espécie de “volta por cima” para Eddie Murphy, cuja carreira anda no lodo desde que perdeu (injustamente) o Oscar por Dreamgirls (2006), esta produção nas franjas do melodrama desloca o eterno Tira da Pesada de sua zona de conforto cômica, transpondo-o para um terreno pantanoso de fragilidades afetivas e de debate racial. A direção é do australiano Bruce Beresford, o mesmo que fez de Conduzindo Miss Daisy (1989) um acontecimento no fim dos anos 1980. Ele é famoso por afastar seus astros e estrelas da persona pela qual eles são amados nas telas, resultando em atuações viscerais quase sempre laureadas com prêmios. Foi este o caso de seu trabalho com Robert Duvall em A Força do Carinho (1983), pelo qual este ganhou o Oscar de melhor ator. Aqui, Murphy encarna um cozinheiro que, ao longo de 15 anos, ajuda uma menina lourinha a crescer mais ética e mais amorosa. É daqueles novelões de arrancar litros de choro. Orçado em US$ 8 milhões (uma ninharia para os padrões da indústria dos EUA), o longa foi um dos principais destaques da seleção do Festival de Tribeca.

13 Equals

Equals, de Drake Doremus
Realizador do cult Loucamente Apaixonados (2011), Drake Doremus aproveita todo o empenho da atriz Kristen Stewart (para deixar seus tempos vampíricos de A Saga Crepúsculo para trás e apostar no risco) e faz dela um motor romântico para uma reflexão sobre impasses e impossibilidades afetivas frente aos interditos sociais e morais. Num futuro distópico, no qual as emoções foram erradicadas, uma doença faz dois jovens (Kristen e o ótimo Nicholas Hoult, de Mad Max – Estrada da Fúria) caírem de amores um pelo outro, gerando controvérsia. Tem algo de THX 1138 (1971), o filme que revelou George Lucas, na trama. Assim como sentem-se nela ecos de Temporada de Gripe, peça de Will Eno encenada aqui em 2004 por Felipe Hirsch. Mas Doremus dá uma encapada autoral no brinquedo, entregado ao espectador suas entranhas. Indicado ao Leão de Ouro em Veneza, a produção saiu de lá com um prêmio para sua trilha sonora.