Ciclo de diretoras brasileiras em Lisboa

Ciclo de diretoras brasileiras em Lisboa

Rodrigo Fonseca

06 de janeiro de 2020 | 14h15

Rodrigo Fonseca
Vencedor da Mostra de Tiradentes em 2013, “Os Dias Com Ele”, de Maria Clara Escobar, vai ser a atração inaugural de um importante gesto de intercâmbio cultural entre os cinemas do Brasil e de Portugal, num estudo (em sua fase inaugural) das memórias dos Anos de Chumbo. O belo .doc sobre o dramaturgo e professor de Filosofia da Comunicação Carlos Henrique Escobar inaugura, nesta quarta, o Cineclube da Casa do Brasil de Lisboa (Rua Luz Soriano, 42, quase c/Calçada do combro, no Bairro Alto). A curadoria é da doutora em cinema e programadora Lídia Ars Mello. Ela escalou para as quartas de janeiro uma seleção de filmes políticos brasileiros contemporâneos, todos documentais, realizados por mulheres cineastas. As sessões serão comentadas por profissionais de cinema e de direitos humanos que tenham afinidade com os longas escolhidos.

As atrações do evento:
“Os dias com ele” (2014), de Maria Clara Escobar.
Sinopse: Filme no qual a própria realizadora mergulha no passado quase desconhecido de seu pai, Carlos Henrique Escobar, ex-militante político na época da ditadura militar no Brasil. Ele que vive em há cerca de 20 anos em Aveiro/Portugal.

“Marighella” (2011), de Isa Grinspum Ferraz
Sinopse: O filme é um retrato político e afetivo sobre o Líder revolucionário Carlos Marighella, vítima de prisões e tortura durante a ditadura militar no Brasil. Ele atuou na resistência dos principais acontecimentos políticos do Brasil entre os anos 1930 e 1969, foi considerado o inimigo número 1 do/pelo regime militar.

“Retratos de identificação” (2014), de Anita Leandro.
Sinopse: O filme reconstrói o momento da prisão conjunta dos companheiros de luta e resistência política, atuantes na luta armada contra a ditadura militar brasileira: Maria Auxiliadora Lara Barcellos (Dôra), Reynaldo Guarani, Chael Schreier e Antônio Roberto Espinosa, militantes da VAR/Palmares – Vanguarda Armada Revolucionária.

“Setenta” (2013), de Emília Silveira
Sinopse: No dia 7 de dezembro de 1970, grupos de militantes políticos contra à ditadura no Brasil capturam o embaixador suíço Giovanni Bucher. O mais longo sequestro político da história do país. O filme SETENTA reencontra 18 sobreviventes desta história, cerca de 40 anos depois e aborda este importante acontecimento político histórico, imagens que trazem até os nossos dias fatos e duras memórias deste passado.

De certa maneira, os quatro longas de realizadoras brasileiras selecionados por você passam em revista, de algum modo, o processo ditatorial por que passamos nos anos 1960 e 70. Que memória esses filmes tecem, que lembranças eles resgatam e o quanto essas recordações ou interpretações conversam com o Portugal que saiu do Salazarismo em 1974?
Lídia Ars Mello:
É importante frisar que, no Brasil, o longo e tenebroso processo ditatorial durou de 1964 a 1985; e dizer que práticas destrutivas e de tirania, infelizmente, retornam, com outra faceta, no atual governo. Eu destacaria inclusive o desmonte atual da ANCINE (Agência Nacional de Cinema), o desrespeito e a tentativa de apagamento da história da produção cinematográfica brasileira. Nosso cinema que, aliás, tem recebido muitos prêmios em relevantes festivais do mundo inteiro nos últimos anos. Sim, os quatro filmes da mostra a serem exibidos no Cineclube da Casa do Brasil de Lisboa, em janeiro de 2020, “passam em revista” este funesto período da história brasileira. São filmes que abordam um passado de torturas, desaparecimentos e mortes de militantes políticos durante o regime militar, marcas que ficaram na memória e que não devem ser apagadas. Neste sentido, o conteúdo dos filmes dialoga com a ditadura Salazarista, uma vez que nela também houve repressão, tortura e morte a quem fazia oposição política ao governo. O período da ditadura em Portugal durou longos 48 anos. E este é um passado que não se deve esquecer, mas acessar e rememorar para que não se repita, seja em Portugal ou no Brasil. No nosso país há pessoas que querem negá-lo ou mesmo anulá-lo.
Que Brasil está desenhado nesse seu projeto de intercâmbio cinematográfico?
Lídia Ars Mello:
Penso que o passado deve servir ao presente como forma de aprendizado, para não nos deixar sucumbir aos mesmos equívocos e tragédias. O que, me parece, não aconteceu com a história da ditadura militar no imaginário popular e político no Brasil. O cinema, e, pois, a Mostra de filmes a ser exibida no Cineclube da Casa do Brasil de Lisboa – é parte do objeto de estudos, composto por 10 filmes dirigidos por realizadoras mulheres, do meu Pós-doutorado em Estudos fílmicos na Universidade de Coimbra, infelizmente, sem bolsa de estudos -, pode ser um meio de fazer chegar ao presente este passado que muitos ainda desconhecem e deveria ser divulgado para todos, principalmente, brasileiros.

Qual é esse Brasil que começa com Escobar e passa por Marighella?
Lídia Ars Mello:
O Marighella foi um militante que resistiu bravamente ao poder ditatorial no Brasil, um homem que lutou com todas as armas para defender o povo. E que não era da classe média e nem branco. Tinha enorme força ativista, era um comunista, de fato, e, hoje, pode servir de exemplo e estímulo para uma militância brasileira que parece estar em estado de letargia, num tempo em que urge enfrentar a barbárie do poder dominante. Já o Escobar do filme “Os dias com ele”, da diretora Maria Clara Escobar (que assim como o filme Marighella da Isa Grinspum, é um retrato afetivo e histórico-político do Brasil), foi um intelectual respeitado e ex-professor da UFRJ, também ex-militante político na época da ditadura militar no Brasil: Carlos Henrique Escobar. O documentário da Maria Clara, que inaugurará o Cineclube da Casa do Brasil de Lisboa, é um filme em que a diretora vai ao encontro do pai e seu passado político, e dialoga com esta memória que ela não viveu e que é premente saber nos dias correntes; memória conflituosa expressa nas imagens desta obra fílmica, passado e presente postos em tensão. Os outros dois filmes da programação de janeiro são: “Retratos de identificação” (2014), da documentarista (e professora da UFRJ) Anita Leandro, filme que aborda o momento e processo da prisão conjunta dos companheiros de luta e resistência política, atuantes na luta armada contra a ditadura militar: Maria Auxiliadora Lara Barcellos (Dôra), Reynaldo Guarani, Chael Schreier e Antônio Roberto Espinosa, militantes da VAR/Palmares – Vanguarda Armada Revolucionária. E “Setenta” (2013), um documentário da diretora Emília Silveira que retrata o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher por um grupo de luta armada, composto por militantes políticos contra à ditadura no Brasil, colocando em diálogo 18 sobreviventes, cerca de 40 anos depois, as imagens fílmicas trazem até os nossos dias fatos e duras memórias deste acontecimento político histórico brasileiro. Saliento que os quatros filmes mencionados são relevantes documentos históricos.

Como você avalia o desenho da produção feminina (ou seja, de cineastas mulheres) no cenário atual da produção fílmica brasileira?
Lídia Ars Mello:
A meu ver, as realizadoras mulheres no Brasil, nos últimos anos, têm conquistado um lugar de destaque no cinema brasileiro. E os temas de seus filmes são variados dentro das demandas sociais do nosso tempo. Segundo dados da ANCINE, de junho de 2019, sobre a participação de mulheres brasileiras no mercado cinematográfico, 32% delas tiveram projetos selecionados na direção de filmes com recursos da Agência Nacional de Cinema. Posso trazer aqui um exemplo que me é mais próximo, sobre o universo e o número de filmes produzidos de 2011 a 2019, filmes políticos, digo, neste caso, sobre a ditadura militar. No meu mapeamento, até 2010 houve cerca de 40 filmes realizados sobre esta temática (quase todos documentários), sendo a maioria deles dirigidos por homens, e somente cerca de 5 filmes, por mulheres. Já de 2011 até 2019, cerca de 20 filmes foram/têm sido realizados sobre o regime de exceção brasileiro (e as práticas repressivas de 2014 para cá), são filmes dirigidos por mulheres, e apenas cerca de cinco deles por homens (incluindo “Marighella”, de Wagner Moura, que está “suspenso”/cerceado no Brasil, e eu tive a chance de ver recentemente em Lisboa). Ou seja, pelo menos a realidade da produção deste tipo de cinema mudou substancialmente entre homens e mulheres na última década. Não me pergunte o porquê. Mas, de imediato, eu especulo que seja pelo fato de que de 2011 a 2014 tínhamos no poder uma Presidenta mulher (Dilma Rousseff); havia mais recursos públicos da ANCINE para o cinema; e houve a criação da Comissão Nacional da Verdade, que permitiu um acesso mais amplo aos arquivos da polícia política brasileira. E, além disso, acrescento, as mulheres diretoras de cinema brasileiras têm sido muito guerreiras e buscado ocupar seu lugar enquanto diretoras e não apenas trabalhado em outras funções do cinema, que a elas foram por longos anos designadas por homens diretores. Todavia a produção cinematográfica em geral do mercado brasileiro ainda está longe de se equiparar entre diretores/as, homens e mulheres, principalmente, quanto ao acesso a recursos e meios de se fazer cinema. O desejo de nós mulheres, pelo menos o meu, é que as oportunidades sejam iguais para os profissionais de cinema. Quem sabe um dia isso se torne realidade. Não custa sonhar.

p.s.: Como seria se bom se todo ano começasse sua programação de filmes brasileiros com uma narrativa da inquietude de “Ainda Temos a Imensidão da Noite”, de Gustavo Galvão, que chega às telas este fim de semana, como um colírio existencial. É uma espécie de “Round Midnight” do B-Rock dos anos 2010. É pura vontade (d)e potência: um ensaio existencial sobre geografias, a de Brasília e a de Berlim, sob acordes do roquenrol. Bonito de ver e viver. E ainda tem Marat Descartes em cena, para desopilar a alma. A trama: cansada de lutar por um lugar ao sol com sua banda de rock, Karen (a ótima Ayla Gresta), a vocalista e trompetista do grupo, decide ir embora de Brasília, cidade que seu avô ajudou a construir. Ela segue os passos do ex-parceiro de banda Artur, que tenta a sorte em Berlim. O convite parte de Martin, amigo alemão com quem os dois fecham um triângulo imprevisível.

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