‘Cicatrizes’ da excelência na Berlinale

‘Cicatrizes’ da excelência na Berlinale

Rodrigo Fonseca

04 de fevereiro de 2020 | 08h24

Rodrigo Fonseca
Um dos achados das mostras paralelas do Festival de Berlim de 2019, “Cicatrizes” (“Stitches”), de Miroslav Terzic, vai entrar em cartaz no Brasil no dia 13 de fevereiro, na semana pós-Oscar, levando ao circuito nacional um debate sobre maternidade à moda da Sérvia que brilhou nas telas da Alemanha. “Savovi” é seu título original. O filme transforma em ficção, com uma potência trágica avassaladora, um crime histórico (e recorrente) nos países que um dia constituíram a Iugoslávia: o rapto de bebês, ainda na maternidade, onde as crianças eram dadas como mortas para seus pais e encaminhadas para adoção em territórios ricos do Velho Mundo. A trama de Terzic acompanha a angústia de uma mulher, Ana (Snezana Bogdanovic), que há 20 anos celebra o aniversário do filho que teria morrido ainda no berçário, neném. Só que o Destino bate à porta de Ana com outra versão dos fatos. Estaria o menino – hoje já um adulto – vivo?

A boa acolhida à produção, em todo o Velho Mundo, detona uma reflexão sobre a qualidade da seleção da última Berlinale, ainda montada sob o comando de Dieter Kosslick. O evento entra em sua edição número 70 no próximo dia 20, com a projeção de “My Salinger Year”, do canadense Philippe Falardeau, com Sigourney Weaver às voltas com o mercado editorial e com a literatura de J. D. Salinger e seu “O Apanhador nos Campos de Centeio”. O presidente do júri será o ator Jeremy Irons, que terá um longa-metragem brasileiro entre os títulos em concurso: “Todos os mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra.
Desta vez, na Berlinale, vai ter um talento egresso da terra brasilis no júri da seleção oficial de ficções: o realizador pernambucano Kleber Mendonça Filho, ainda em cartaz com “Bacurau” (codirigido por Juliano Dornelles). O time de jurados vai incluir a atriz francesa Bérénice Bejo, a produtora alemã Bettina Brokemper, a diretora palestina Annemarie Jacir, o dramaturgo e cineasta americano Kenneth Lonergan, o ator italiano Luca Marinelli. Na edição n. 69, Maria Augusta Ramos, a diretora de “O Processo”, foi jurada de documentários.

Na trama de “Savovi” (“Cicatrizes” no Brasil), Ana (Snezana Bogdanovic) tenta entender o que aconteceu com seu bebê supostamente natimorto

Confira aqui uma lista do que o Festival de Berlim conheceu de melhor no ano que passou, onde foi varrido pelo furacão “Marighella”, de Wagner Moura, em seus momentos finais, em um gesto de extrema maturidade do ator (e agora também cineasta) baiano na condução de sequências de ação.

1) Skin, de Guy Nattiv: Jamie Bell tem uma atuação desconjuntante no papel de um supremacista branco, tatuado dos pés à cabeça, que, ao se apaixonar por uma mãe solteira (a excepcional Danielle Macdonald), decide largar a célula neonazista onde cresceu e virar um sujeito avesso a intolerâncias raciais. Montagem avessa a clichês.
2) A portuguesa, de Rita Azevedo Gomes: Com uma direção de arte estonteante, este ensaio sobre a potência poética das fragilidades se estrutura a partir das artimanhas de uma mulher da Idade Média que tenta transformar um castelo num lar.
3) Deus é mulher e seu nome é Petúnia (“God exists, Her name is Petrynia”), de Teona Strugar Mitevska: Vem da Macedônia o favorito ao Urso de Ouro. Nele, uma historiadora desempregada é alvo de sexismos e conservadorismos ao se apoderar de uma cruz da Igreja Ortodoxa em que só homens poderiam pegar. Igualdade de gêneros e fundamentalismo religioso são seus alvos.
4) O Bar Luva Dourada (“The Golden Glove”), de Fatih Akin: Uma espécie de Nosferatu de carne, osso e feiura, Fritz Honka (1935-1998), psicopata que assombrou Hamburgo, de 1970 a 75, matando e esquartejando garotas de programa, ganha uma cinebiografia digna de mestres do terror e do expressionismo das mãos do maior cineasta em atividade na Alemanha, o teuto-turco Fatih Akin (de “Contra a parede”). Jonas Dassler é o favorito ao Urso de Prata de melhor ator por seu desempenho assombroso como Honza.
5) Flatland, de Jenna Bass: Uma policial tenta investigar um crime em uma África do Sul que revela fantasmas nunca exorcizados do aparatheid;
6) A Luz No Fim do Mundo (“Light of my life”), de Casey Affleck: O astro de “Manchester à beira-mar” (2016) utiliza o que de aprendeu de melhor com os grandes cineastas que o dirigiram (como Steven Soderberh, Kenneth Lonergan e o próprio irmão, Bem) para extrair de seu elenco uma dor à altura do mundo seco que constrói nesta ficção científica distópica. Ele vive um pai que quer salvar a filha dos perigos de um futuro no qual as mulheres da Terra foram dizimadas por uma moléstia misteriosa.
7) Divino amor, de Gabriel Mascaro: Dira Paes botou Berlim no bolso ao viver uma Joana D’Arc de repartição pública neste trabalho de maturidade do realizador de “Boi Neon”, construído como uma reflexão sobre a fricção do corpo com o Estado. Escriturária em um cartório, Joana (Dira) defende Deus sobre todas as coisas num Brasil futurista, de 2027, onde o carnaval deu lugar a uma rave de Cristo. Mas o Espírito Santo há de aprontar com sua fiel.
8) Anos 90 (“Mid90s”), de Jonah Hill: O astro de “Superbad – É hoje” (2007), duas vezes indicado ao Oscar de coajudvante (por “O homem que mudou o jogo” e “O lobo de Wall Street) foi estrear na direção recriando a época de sua educação sentimental, a década de 1990. Lá, entre pistas de skates, um rapaz assolado por bullying e solidão busca uma nova forma de se ressocializar. Isso narrado com uma fotografia que aposta na vertigem.
9) Tremores (“Temblores”), de Jayro Bustamante: Cura gay é o assunto do realizador de “Ixcanul”, que volta a falar sobre descobertas sexuais e amadurecimento só que de uma perspectiva masculina: Pablo (Juan Pablo Olyslager) é um consultor financeiro que tem sua vida virada do avesso depois que decide se assumir homossexual e morar com o namorado.
10) The shadow play, de Lou Ye: O diretor de “Amor e dor” (2011) faz uma reinvenção dos códigos do cinema noir num thriller sobre corrupção, no qual um jovem policial tenta averiguar o que há de errado na morte de um empresário.
11) Estou me guardando para quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes: Toritama é a capital nacional do jeans, mas é também um lugar onde as pessoas optam por uma autonomia profissional, avessa aos grilhões da mais valia, a fim de se apropriarem do Tempo. Mas, usando um dispositivo digno do diretor Dziga Vertov, em seu “O homem com a câmera” (1929), Gomes faz uma observação (sensorial) do fluxo da vida naquele canteiro de linha azul e agulha em disparada para tentar entender o que torna a temporalidade algo tão inalcançável.
12) Système K, de Renaud Barret: Na lógica do luxo ao lixo, este .doc sobre formas de resistência estética nas ruas do Congo acompanha as estratégias de um grupo de multiartistas de Kinshasa que utilizam capsulas de bala, sucata de eletrodomésticos e caveiras para fazer instalações das mais provocativas. É um filme sobre o redesenho do espaço urbano.
13) Querência, de Helvécio Marins Jr.: Com ecos do cinema documental de Humberto Mauro, em especial “Carro de bois” (1974), este experimento poético de observação do cotidiano de um tratador de gado, com sonhos de se firmar como locutor de rodeios, arrebata não apenas por sua potência visual, mas por sua denúncia da negligência das autoridades diante de crimes ligados a questões fundiárias. É um western sem bangue-bangue, num mundo onde a honra reza para Nossa Senhora.
14) Sinônimos (“Synonymes”), de Nadav Lapid: Ganhador do Urso de Ouro de 2019, este tratado israelense sobre a afirmação de identidades tem um frescor narrativo raro em seu estudo geopolítico da migração. Yoav (Tom Mercier) chega em Paris, amparado apenas por um dicionário de Hebraico x Francês, a fim de abandonar sua nacionalidade de berço e se reinventar. Mas a tradição segue em seus calcanhares.
15) Hellhole, de Bas Devos: Da pátria dos irmãos Dardenne brota este poderoso ensaio sobre a solidão em uma Bélgica marcada por cicatrizes morais relativas à exclusão. Uma série de personagens – entre eles, um jovem árabe com dilemas políticos, um médico de classe média em crise com as atitudes de seu filho e uma tradutora italiana cheia de conflitos, vivida pela genial Alba Rohrwacher – vão se cruzar numa ciranda afetiva em Bruxelas.
16) Graças a Deus (“Grâce à Dieu”), de François Ozon: No trabalho mais adulto de sua carreira, o realizador de “Dentro da casa” (2012) e outros sucessos recria um caso real (a ser julgado agora em março) de mobilização pública dos franceses contra um padre pedófilo. O brilho maior vem de seu roteiro, que estraçalha a lógica convencional dos três atos, de modo a cada segmento narrativo dar conta de uma das três vítimas do sacerdote, vividas por Melvil Poupaud, Swann Arlaud e o brilhante Denis Ménochet. Saiu do festival com o Grande Prêmio do Júri.

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