Chuvas de ‘Ombela’, lendas de Haziel

Chuvas de ‘Ombela’, lendas de Haziel

Rodrigo Fonseca

19 de novembro de 2019 | 10h06

“Ombela”, em foto de @Renato Mangolin: encantamento e inclusão

RODRIGO FONSECA
Não apenas por estarmos nas vésperas do Dia da Consciência Negra, mas pela dignidade das lutas estéticas de todo dia, é necessário aplaudir a potência de “Ombela – A Origem das Chuvas”, encerrado no dia 17, no Oi Futuro, que se configura como uma das mais criativas experiências narrativas, pelas veredas da magia e da inclusão, do teatro brasileiro em 2019. A peça é baseada no livro homônimo do poeta e escritor angolano Ondjaki e, a partir dele, narra a história de uma deusa menina, africana. Sua heroína é a deusa das chuvas, que está começando a entender os seus sentimentos, em especial, a diferença entre alegria e tristeza. Ao chorar, ela se questiona para onde vão suas lágrimas. O pai de Ombela explica que sentir as emoções faz parte da evolução. O que ela não sabe é que suas lágrimas dão origem aos nossos mares e rios, e muitas perguntas seguem na sua cabeça. Junto com a inseparável amiga, uma rã, ela vai descobrir a importância desse fenômeno que se chama chuva e ensinará para o pai tudo o que aprendeu em sua jornada. A ideia do espetáculo é reforçar todos os valores apontados por Ondjaki em sua obra, conscientizando o púbico, de forma lúdica e realista, de que a preservação do nosso planeta é urgente. De uma doçura singular nos diálogos, a adaptação é de Mariana Jaspe e Ricardo Gomes. Direção é de Arlindo Lopes. Que ganhe mais espaço.

Mas há outras bossas conectadas a matrizes africanas nas artes cênicas nacionais.
Valquíria no Valhalla da literatura infantojuvenil, Carine Haziel é uma multiartista com vozinha de pirlimpimpim que, com a ajuda de instrumentos musicais dos mais variados, da flauta ao pandeiro, passando por chocalhos, anda tirando o encantamento da cena teatral carioca das CNTP, na construção de um ritual fabular que evoca as tradições da África. Prestes a lançar o livro “Janelinha Aberta”, sobre modos de ser na infância, ela sobe nesta terça-feira, no palco do Sesc Quitandinha, em Petrópolis, às 10h e às 14h, com o espetáculo “Lendas africanas” a fim de encantar crianças de dente de leite e as de bocas banguelas. Será uma jornada de contação de histórias, amor e fantasia.
“É uma peça que valoriza a importância das narrativas orais para transmitir conhecimentos históricos, hábitos e costumes do povo. E as lendas apresentadas são: ‘Por que o Sol e a Lua vivem no Céu?, ‘Por que a girafa não tem voz?’, ‘O macaco e o tambor’ e ‘A tartaruga e o Leopardo’. O som do tambor africano inicia a roda de histórias como num ritual de chamada para que todos estejam presentes para ouvir a primeira história”, explica a atriz e escritora.
No dia 27, ela passa pelo evento cultural de Consciência Negra, na Gibiteca Edmundo Rodrigues do Colégio Estadual Infante Don Henrique, em Copacabana, promovendo um papo sobre o ato de ler.

p.s.: A fotógrafa Laura Merians ganhou um par de prêmios no festival Camerimage, na Polônia, pelo enervante “Pacificado”, thriller social que deu ao Brasil a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián, em setembro. O longa-metragem também foi laureado pelo júri popular na 43ª Mostra de SP. A direção é de Paxton Winteres, cinegrafista que nasceu nos EUA, viveu anos na Turquia e mora no RJ há quase uma década, tendo construído a narrativa com o apoio de moradores do Morro dos Prazeres. Na produção estão norte-americanos (entre eles o diretor de “Cisne Negro”, Darren Aronofsky) e brasileiros (Marcos Tellechea e Paula Linhares). Um dos astros do supracitado “Ombela”, Bukassa Kabenguele (ganhador do merecido prêmio de melhor ator na Espanha, pelo longa) vive um ex-traficante que foi o líder de sua comunidade e regressa para casa, após cerca de 14 anos no cárcere, para se reinventar, fazendo pizzas e aprendendo a ser pai.
p.s.2: Nesta quarta-feira, no feriado da Consciência Negra, a TV Globo exibe o filmaço “Tudo o que aprendemos juntos”, de Sérgio Machado, com Lázaro Ramos no papel de um professor de música, ás no violino, que se vê às voltas com as violência da exclusão social brasileira. Passa às 22h15.

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