Sem amnésia diante do brilho de Christopher Nolan

Sem amnésia diante do brilho de Christopher Nolan

Rodrigo Fonseca

02 de março de 2020 | 08h19

RODRIGO FONSECA
Entre os projetos mais misteriosos citados no European Film Market do Festival de Berlim 2020, encerrado no domingo, foi o remake de “Amnésia”, thriller de suspense responsável pela consagração do diretor inglês Christopher Nolan há 20 anos. Festejado em Cannes, em 2018, quando ministrou um colóquio sobre “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), o realizador mal falou sobre essa refilmagem, por estar com a cabeça enfiada na finalização de “Tenet”, filme de espionagem com John David Washington e Robert Pattinson, que estreia em julho – há que aposte na ida dele à Croisette. O trabalho mais recente de CN como realizador foi o sucesso “Dunkirk”, de 2017. Mas, durante a Berlinale, sempre que seu nome era citado, o marco de excelência a ele atribuído era a sci-fi “Interestelar”, de 2014, convertido hoje em objeto de culto entre cinéfilos.

Com “Tenet”, Nolan chega de volta ao écrã candidatando seu novo projeto ao posto de blockbuster e potencial candidato ao Oscar, como é da natureza deste cineasta que elevou os filmes de super-heróis a um patamar (sombrio e ) cult com a trilogia “Batman”, estrelada por Christian Bale. Poucos diretores atualmente na ativa conseguem despertar tanta paixão quanto este realizador britânico alçado ao estrelato popular com a franquia do Homem-Morcego. Há um paredão de ranço contra ele por parte de uma ala da crítica que esnoba seu virtuosismo e seu humanismo. É a mesa ala que está de nariz torcido para o seminal “1917”, de Sam Mendes. A mesma que fez ferina campanha contra “Coringa” (o Leão de Ouro de 2019) e contra “Birdman” (2014), e tentam de tudo para desqualificar a potência mastodôntica do cinema de Alejandro González Iñárritu e Darren Aronofsky. São os mesmos que cospem em Wong Kar-wai e Kim Ki-Duk. Os mesmos que tratam “Dheepan” (a Palma de Ouro de 2015) como um filme-ONG. Os mesmos que ridicularizam Denis Villeneuve e seu soberbo “A Chegada”, procurando defeitos inexistentes em “Relatos Selvagens” (2014) e reduzem Asghar Farhadi (de “A Separação” e de “O Apartamento”) ao rótulo de manipulador. Mas tem filmes que ultrapassam qualquer mimimi. Um bom exemplo é “Interestelar” (“Interstellar”, 2014), joia de Nolan – já que o foco aqui é ele.

Guy Pearce em “Amnésia”

Resgata-se aqui um punhado de anotações sobre esta produção de US$ 165 milhões, cujo faturamento nas bilheterias chegou a US$ 675 milhões e que, de quebra, papou um merecido Oscar de efeitos especiais.

Dois elementos guiam a dramaturgia cinematográfica do cineasta inglês Christopher Johnathan James Nolan: culpa e necessidade de controle. Há uma mistura covalente de ambos no combustível afetivo que alimenta os motores de Interestelar. Matthew McConaughey, seu protagonista, merecia mais um prêmio desses pela aventura sci-fi do homem em busca de um planeta capaz de abrigar a população da Terra, em um futuro assolado por poeira e fome. Os efeitos especiais, a trilha sonora e, sobretudo, a edição de som são mais do que dignos de papar estatuetas. Pois, juntas essas peças fazem desta produção de US$ 165 milhões (salpicada por todos os sintomas do cogito “nolaniano”) uma epifania cinéfila.

Vamos parte a parte:
Na bifurcação de elementos essenciais à grafia do diretor, o primeiro a se apresentar como argamassa onipresente na obra de Nolan foi a culpa. E tal onipresença, somada a um enorme talento para esculpir mágoas e ressentimentos, tem feito dele um realizador autoral. De “Amnésia” (2000) ao onírico “A origem” (2010), passando pelo subestimado “Insônia” (2002) e por toda a trilogia “Batman”, é caro a ele transitar por um limite de dívida moral. Há em seus personagens a sequela de um erro que os impele a ações eticamente duvidosas.

Do lado esquerdo do ringue de sua invenção, aparece a necessidade atávica do controle em seus heróis, os mascarados e os de cara limpa. Do investigador tatuado e amnésico vivido por Guy Pearce há duas décadas ao Homem-Morcego com a fleuma galesa de Christian Bale, os personagens centrais da obra de Nolan são movidos por uma onipotência que fazem deles os senhores da certeza. Todos acreditam ter pleno domínio da engenhoca chamada mundo no microcosmos onde vivem. Não é diferente com Cooper, fazendeiro (ex-piloto e futuro astronauta) interpretado por um McConaughey com um visual à la Jeffrey Hunter (galã e grande ator dos anos 1950 e 60) e à la Steve Canyon (herói das HQs de Milton Caniff). A semelhança com Canyon é mais óbvia e vem dos traços apolíneos classicistas no visual do astro, oscarizado por “O Clube de Compras Dallas”, em 2014. A referência à Hunter vem, não apenas pela proximidade física de ambos, mas pelo fato de Hunter estar no longa que mais se assemelha à história contada por Nolan – que não é, mas nem de longe, o já citado “2001 – Uma odisséia no espaço”.

Nolan é um realizador grandioso demais para resvalar em uma obviedade tão deslavada. Há homenagens a “2001” de Kubrick, a começar por robôs em forma de monolito. Mas “Interestelar” não é kubrickiano. É fordiano. Sua matriz é o John Ford sublime de “Rastros de ódio” (“The searchers”, 1956), no qual Jeffrey Hunter coadjuvava John Wayne. Apesar da fantasia de ficção científica que veste, “Interestelar” é um faroeste. Um faroeste metafísico. Um bangue-bangue sem tiros (mas com cenas de perigo com adrenalina fora das CNTPs toleráveis). É a saga da conquista de um novo Oeste, empreendida por um herói culpado (por abandonar os filhos) e obcecado em controlar as situações (de perigo á sua volta).

Cheio de perigos, o Oeste à sua frente não é feito de planícies verdejantes e índios de lança, mas sim de substâncias aquosas ou rochosas que Mendeleev não categorizou em sua Tabela Periódica (aquela decorada no 2º grau do ensino médio). O Oeste de Nolan é a imensidão inóspita de um Império em fase de crescimento (e povoamento), como era o Império EUA na ótica de John Ford.

E, assim como ele temperava seus faroestes de crítica, Nolan apimenta este western intergaláctico com um espírito de alarmismo ao iniciar a trama mostrando a Terra de Cooper como um lugar que despreza o passado. Os feitos dos astronautas é desmentido pelo governo. Uma crise malthusiana na produção de alimentos leva as autoridades a forçarem aspirantes a universitários e mesmo engenheiros gabaritados a viver como fazendeiros, produzindo quiabo, trigo e milho. Mas uma massa de pó decorrente de cataclismos ecológicos desta erodindo os solos férteis e devastando as colheitas. Resta ao ex-piloto plantar e buscar alternativas de lavouras. Eis que num esforço para interpretar com a ajuda da filha mais nova, Murph (Mackenzie Foy), uma série de estranhos sinais localizadores, Cooper acaba se deparando com uma base da Nasa, secreta, onde um cientista, o professor Brand (Michael Caine, sempre sublime), e sua filha Amelia (Anne Hathaway, deliciosamente andrógina), buscam planos Bs e Cs e Ds para o alvorecer da raça humana.

O plano de Brand é encontrar um novo lar para os humanos. Este lar estaria numa dimensão paralela a ser encontrada na transposição de buracos negros. Amelia vai atrás dessas hipóteses de salvação. Mas precisa do reforço de um piloto experiente. Eis que o talento de Cooper se faz presente – e o heroísmo do longa se faz notar -, numa jornada pelo tempo e pelo espaço. Nessa jornada, Nolan embaralha Física e Química, conceitos quânticos, dialéticas hegelianas e reflexões cinematográficas de André Bazin e Gilles Deleuze. Tudo entra junto em uma passarela de fôlego épico, com reviravoltas contínuas e uma discussão contínua sobre o valor da família. Contínua e bem similar à de “Rastros de ódio”, no qual John Wayne e Jeffrey Hunter viviam anos à cata de uma parente surrupiada por selvagens de cocar. Aqui, Cooper se lança num tráfego entre realidades paralelas, uma mais perigosa do que a outra, na qual a passagem das décadas passa num ritmo diferente do nosso. Mas sua obsessão em salvar os homens e mulheres (sobretudo o filho e a filha, vividos por Casey Affleck e por uma taciturna Jessica Chastain quando adultos) não leva a sério movimentos de relógio. Cooper é “irretrocedível”, como o caubói de John Wayne nos “rastros” de Ford”.

Numa homenagem ao Homero de Hollywood, Nolan cria uma Ilíada espacial cuja plasticidade muda a cada novo cenário: a fotografia do suíço Hoyte Van Hoytema (de “Ela”) é de um realismo poeirento e amarronzado nas cenas relativos ao presente, adquirindo um azulado de videoclipe nas sequências siderais no âmago das galáxias. O balé de Kubrick em “2001” aqui dá lugar a um cavalgada de valquírias trêbadas pelo dever, embaladas nos acordes de Hans Zimmer. A exploração espacial é a estrela de Belém deste filme no qual McConaughey reconfirma seu vigor cênico e seu empenho em virar um dos titãs de seu tempo. Ao lado dele, surge Matt Damon num papel sobre o qual nada se deve falar. O segredo reina no tomo final, quando Chastain, mesmo numa atuação desbotada, evoca a Jodie Foster do “Contato” (1997), de Robert Zemeckis – filmaço esquecido, aqui bem-vindo -, no desespero de uma filha em busca do pai. Uma filha que olha para o alto (e avante) à caça de seu genitor. E nesse vínculo, o amor vira o cinzel que alinhava as pontas soltas de um longa cientificamente engajado e poeticamente inesquecível.

p.s.: Às 19h40 desta segunda, rola “Bróder”, de Jeferson De, no Canal Brasil, filme que rendeu o Kikito de melhor ator a Caio Blat por um desempenho devastador em uma trama sobre fraternidade.

p.s. 2: “Linda de Morrer”, a “Tela Quente” desta segundona é uma agradabilíssima comédia de costumes apoiada no carisma de Gloria Pires, e na precisão da cineasta Cris D’Amato para o riso. A transmissão zarpa às 22h50.

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