Chico Diaz, um estreante… na direção

Chico Diaz, um estreante… na direção

Rodrigo Fonseca

13 de novembro de 2015 | 17h38

Cena do monólogo

Cena do monólogo “A Lua Vem da Ásia”

Tijolo essencial à edificação do cinema da Retomada, quando estrelou os seminais Corisco & Dadá (1996), Os Matadores (1997) e Amarelo Manga (2002), entre muitos outros sucessos de crítica e público, Francisco Diaz Rocha anda juntando as areias, as sublimações e as lantejoulas de que são feitos os sonhos para realizar o seu: dirigir um filme. O texto já existe: A Lua Vem da Ásia, obra literária de tiques surrealistas de Campos de Carvalho (1916-1998), já encenada por ele nos palcos, como monólogo – um daqueles de impressionar os críticos. A passagem para o lado de trás das câmeras coincide com uma leva de títulos inéditos que ele fez como ator e que estão pelando no forno, prontos para estrear: tem Oração do Amor Selvagem, de Chico Faganello; Deserto Azul, de Eder Santos; Travessia, de João Gabriel; El Ardor, de Pablo Fenrik; Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry, e Em Nome da Lei, de Sérgio Rezende, que periga ser um dos maiores blockbusters de 2016. Na entrevista a seguir, Diaz fala da vontade de filmar, da educação pela pedra que é atuar e de desilusões políticas, às vezes grandes, mas menores do que sua fé na Democracia.   

De que maneira o texto de Campos de Carvalho serviu como uma espécie de bússola para uma revisão crítica da sua própria trajetória como ator? O quanto aquele texto te revela sobre sua própria condição, como ator e como homem?
CHICO DIAZ –
Estava há tempos procurando um texto que falasse por mim, que me levasse ao palco com a razão e com a certeza de estar interpretando meu mundo e meu tempo. O texto de Campos de Carvalho é surpreendente no sentido em que situa a lucidez como uma questão manicomial. Coloca o homem em busca de um entendimento do absurdo real. Existe o percurso do eu e o percurso do mundo. Encontrei ali um discurso, um grito orientador no que acho bom para ser interprete. Aquele texto me fez testar todas as ferramentas, estar só em cena, mas não simplesmente para estar só… É um texto sobre a solidão, mas não fiz nenhuma revisão. Na verdade, foi um salto. Discutimos, no texto, a questão da consciência vs. inconsciência, para questionar se, na verdade, ela nos liberta ou nos aprisiona. Ali, nós nos situamos no único lugar da sociedade onde somos verdadeiramente livres: a imaginação e o pensamento. O texto também me trouxe a certeza de sermos vários, de sermos múltiplos, mesmo que únicos  e singulares.

Como você está estruturando essa sua passagem à direção pelas vias do cinema? Quem são seus parceiros? Quando começa o processo?
DIAZ –
Começa lenta e cuidadosamente, pois não ousaria dar esse passo se não tivesse certeza do potencial imagético e poético do texto, assim como de seu desbragado humor. Acredito muito no argumento e na empatia junto ao publico. Acredito também na identificação com o herói andarilho, perplexo com o que lhe sucede. O material que existe ali é impar e a própria linguagem proposta é um prato feito para o cinema, com seus diferentes níveis de narrativa, seus saltos no tempo e no espaço, suas diferentes e vertiginosas geografias. A ideia é mesmo fazer do filme uma comédia, tornando risível a trajetória do nosso herói. Estou buscando os parceiros certos. Na produção e estruturação do projeto conto com o Cavi Borges, da Cavídeo, assim como conto com o Cid César, do Cinemão. Eder Santos vai estar na composição plástica e Alfredo Sertã estará na musica. Eles acreditaram e arregaçaram as mangas. Não é fácil. Eu sei. Mas, estamos no momento de captação e definição dos outros parceiros, que serão fundamentais. Devemos iniciar preparação e filmagem no segundo semestre de 2016,  se tudo correr bem.

O quanto a sua experiência nas telas – quase onipresente na década de 1990 e início dos 2000 – foi se modificando ao longo dos anos?
DIAZ –
Amadurecer sem perder a ternura jamais, digamos. O amadurecimento é fato. Os procedimentos de aproximação aos personagens mudaram, multiplicaram-se. Vejo que cada filme tem sua natureza e exige um processo particular. O ímpeto dá lugar à técnica, o esforço é menor, potencializa-se a capacidade de expressão. Domina-se melhor a partitura exigida. Os próprios universos de personagens de mais idade exigem a ampliação desse conhecimento.

O ator é o vilão do filme

O ator é o vilão do filme “Em Nome da Lei”, promessa de fenômeno popular para 2016, dirigido por Sérgio Rezende 

Que cinema você encontra hoje ao seu redor?
DIAZ –
Vejo com muita alegria que o parque cinematográfico e o mercado de trabalho aumentaram muito, tremendamente, e isso em termos nacionais e regionais. Aumentou de forma impressionante, aliás. A quantidade de talentos revelados comprova isso. O argumento cultural regional se fortaleceu muito, dando acesso a todo tipo de história e imaginário desse Brasilzão. Isso é lindo. É um panorama cinematográfico que vai de Manaus a Porto Alegre, com argumentos originais como o do Vídeo nas Aldeias e muitos outros coletivos. Muitas escolas de formação foram criadas. Isso não existia lá atrás. E claro, é importante também agora localizar os limites, as limitações e os horizontes ainda possíveis. Com o tempo, tudo muda. Os personagens mudam, a forma de se colocar no mundo também e, no fundo, ainda é importante tentar saber para que serve isso tudo? Esse oficio de ator para mim, na minha ingenuidade, tem um quê de sagrado e, enquanto eu puder, vou defendê-lo assim, vou viver assim… na boa luta , na boa escolha.

O que espaço do teatro ainda representa para você neste momento de sua carreira: ainda existe desafio no palco?
DIAZ –
Sem dúvida alguma existe o desafio, aliás, cada vez mais. No palco sempre vai existir o desafio. É ali que se dá o verdadeiro encontro. Ali, os deuses são mesmo mais exigentes. Não há proteção e ao mesmo tempo, curiosamente, é o lugar onde se está mais forte.

No longa

No longa “Oração do Amor Selvagem”, o colono Tiago (Diaz) ensina ao pastor Kurtz (Ivo Müller) que a vontade do Senhor tem limites, mas a paixão dos homens, não

Você sempre foi uma figura de peso na afirmação da luta política em prol da igualdade social do país, sempre afirmou sua decisão de voto, sempre demarcou sua luta à esquerda. Em que pé andam as trilhas democráticas do Brasil hoje?
DIAZ –
Uma coisa não anda separada da outra. Ao representar meus semelhantes, o desejo é de reconhecimento e de reflexão. Veja a lista de personagens já vividos: ali está a luta. Os personagens, eles sim, no seu intimo, na sua dor, na sua alegria, na sua busca, seja na graça ou na solidão, representam ou deveriam representar um monte de gente. É por ai que se dão a identificação, o reconhecimento e a reflexão. Assim é para mim. Em relação à nossa tão combalida e combatida democracia… Bom, estamos aí, tentando entender ela, a Senhora Democracia. Apesar de todas as tentativas recentes de corromperem o processo democrático, usando se dos meios mais vis e violentos, caminhamos na tentativa de entender e manter uma visão de fortalecimento deste país e de tudo aquilo que já foi alcançado. Somos um grande e jovem país, que merece… e deve… ser tratado com respeito.

E a política brasileira virou o quê?

DIAZ – A política virou um “nincho ablubto de maragaifos”. O que quer dizer que eu não sei mesmo o que quer dizer. Não vejo os diferentes segmentos serem representados lá, nos ditos “Poderes”. Cadê o negro, o índio, a mulher, o trabalhador, o meio ambiente? Aquilo virou um balcão de negócios, de grandes interesses, de muito dinheiro. A utopia e a ideologia perderam para o Mercado. É necessária uma inteligente e urgente reforma política neste país.

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