Chico Diaz desbrava Fernando Pessoa à luz de Saramago

Chico Diaz desbrava Fernando Pessoa à luz de Saramago

Rodrigo Fonseca

17 de abril de 2019 | 18h54

Aos 60 anos, o ator filma “O ano da morte de Ricardo Reis”, sob a direção de João Botelho

O Pessoa de Chico Diaz, heterônimo do Brasil, hoje nos sets de Lisboa
Rodrigo Fonseca
Duas semanas antes de partir para Lisboa, para protagonizar um projeto com potencial para redefinir a relação do cinema mundial com o legado literário de José Saramago (1922-2010), Chico Diaz se via rodeado de poemas, ensaios biográficos históricos e anotações. Em seu ateliê, ele era só palavra e desassossego, um binômio que nos conduz a um outro ás lírico da língua portuguesa, Fernando Pessoa (1888-1935). Um dos atores de maior prestígio da América Latina, com um histórico de filmes e peças invejável em 60 anos de vida e 38 de carreira, Diaz foi o escolhido pelo cineasta João Botelho (realizador egresso de Lamego, cinco vezes indicado ao Leão de Ouro de Veneza, responsável por filmaços como “O fatalista”) para protagonizar “O ano da morte de Ricardo Reis”. A julgar pelo romance de 1984 com o qual dialoga, pelas franjas da imagem, o projeto pode ser definido como um ensaio sobre lealdade (à pátria, à amizade e à poesia) a partir da relação entre Pessoa e seu heterónimo, Reis. Chico viajou no dia 14 de março e filma a todo vapor, com calhamaços de páginas na mão.

“Eu me deparo com a certeza da necessidade poética, diária  e constante. O estado poético é altamente protetor, tem seus nutrientes fortalecedores e revigorantes. É um bom lugar para estar nos tempos que correm, como uma caverna preciosa. E sendo com Pessoa e seus inúmeros eus, é melhor ainda”, diz Chico, ao P de Pop. “A contemplação, o espetáculo do mundo, ver a vida à distância, deixar para os deuses e para o Destino a resolução dos passos… são imagens plenas. É bonito de ver o carinho com que os portugueses  reverenciam a sua língua, não diria a nossa, mas a deles e sua história”.

Cena de “Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral”: lotação esgotada em salas do Ceará

Em cartaz nas telas do Brasil, país pelo qual milita em nome da igualdade social, com “Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral”, Chico é quem interpreta Ricardo Reis, um dos heterônimos de Pessoa (Alberto Caieiro e Álvaro de Campos são os outros igualmente famosos). “É uma história que remonta a um momento histórico no qual ventos fascistas sopram sobre Portugal, parecido com que o mundo vive na contemporaneidade”, alerta Chico.

Ele se viu surpreso e lisonjeado pela escolha do aclamado cineasta luso, que lotou salas em seu país com “Os Maias: Cenas da vida romântica” (2014). “Sei que Botelho viu-me a fazer teatro lá em Portugal, numa peça sobre Carlos Drummond de Andrade (Biografia de um poema) que o diretor Antônio Pires, do Teatro do Bairro, montou com o Cassiano Carneiro e Rita Loureiro. Mas há que estudar, há que se preparar. Fico feliz em ver quantas pessoas de respeito passam por esse projeto Brasil – Portugal: é Botelho, é Saramago, é Pessoa e é a própria lusofonia, tão cheia de símbolos”.

Interessado em ter uma persona mais cientificista, racional, Pessoa deu a Ricardo Reis o direito de assinar versos como “Quando há alguma coisa de belo a dizer em vida, esculpe-se; quando há alguma coisa de belo a dizer em alma, faz-se versos”. Na trama de Saramago, adaptada por Botelho, Reis dá adeus à sua estada no Brasil, para onde se muda em 1919, e volta para a Lisboa de 35, para se despedir de seu criador, que acaba de morrer. Mas este, tem uns nove meses sobre a Terra, antes de ser esquecido, que espera gastar com seu alter ego. A versão do livro para o cinema é um projeto de DNA luso-brasileiro, produzido cá por Clélia Bessa e lá por António Botelho, filho de João – este enxerga em Chico uma força cênica singular.

“Para um grande romance do Saramago é preciso um grande actor. O Saramago permite que o actor que faça de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, tenha sotaque brasileiro, pois viveu 16 anos no Brasil. Chico Diaz é um grande actor de novelas, de teatro e de cinema. Gostei imenso da peça que ele fez cá em Lisboa com encenada pelo António Pires. Gostei imenso do método de trabalho e dedicação dele em palco. É um monstro de trabalho”, elogia o cineasta português. “Não havia melhor escolha”.

Cena do novo longa de Botelho, inspirado em romance publicado por Saramago em 1984: filmagens vão até maio

O cronograma de “O ano da morte de Ricardo Reis” estava estimado em dois meses. Iniciado em março, Diaz tem uma travessia longa pela frente ainda, coordenada pela produção de António Botelho. “Filmamos de 25 de março a 27 de maio, entre Lisboa e Coimbra, e, no elenco, destacam-se portugueses como Luís Lima Barreto, Catarina Wallenstein e Victória Guerra”, diz António.

Imerso nesse processo que atravessa o Atlântico, Diaz, astro de cults brasileiros como “Corisco & Dadá” (que lhe deu o troféu Candango, em Gramado, em 1996) e “Amarelo manga” (que lhe valeu um Candango, em 2002), vai se familiarizando com uma nova visão estética audiovisual.

“Sobre o João Botelho… essa transposição das linguagens, da Literatura para o Cinema, da Palavra para a Imagem, já o caracteriza, marca e singulariza. Este filme é uma homenagem aos anos 30, quase expressionista.  Não há naturalismo”, define Diaz. “Como João conhece demais todos os planos e angulações internos que as lentes oferecem, além de todos os consequentes efeitos decorrentes destes, fica mais fácil trabalhar… ou mais difícil, pois, às vezes, apenas uma inclinação de queixo ou uma sombra bem aproveitada é mais eficaz que qualquer intenção ou emoção buscada pelo ator. Interessante também notar que o rigor estético com que ele mantém a composição do quadro, muito próximo mesmo à pintura, já leva consigo boa parte da narrativa. Pouca psicologia, poucos sentimentos na origem, mas… está tudo lá”.

Este ano, Diaz será visto ainda na TV, na HBO, na minissérie “The american guest”, de Bruno Barreto, como Marechal Cândido Rondon (1865-1958), o defensor dos índios. Ainda em 2019, deve voltar à teona no filme “Montanha-russa”, de Vinícius Reis, que define como “um roteiro poderoso”. |

Nascido no México, fruto da união da tradutora Maria Cândida e do teórico de comunicação paraguaio Juan Díaz Bordenave (sobre quem prepara um documentário), Chico sempre exultou brasilidade em sua metodologia de atuação, não apenas politicamente, mas em seu esforço de dar voz a marcas regionais do continente populacional que o Brasil é. De 1981 até hoje, ele filmou de Norte a Sul. Foram muitos personagens, muitos heterônimos. E agora, é a vez de passear pelo universo do “fingidor” da poesia, fazendo jus ao esplendor narrativo do único prêmio Nobel de literatura da Língua Portuguesa.

“Saramago se apropriou de Pessoa e deu carnalidade a ele, uma vida própria. Fora isso, ele se aproximou de uma série de temas da realidade portuguesa daquele tempo, meados dos anos 1930, como o avanço de Mussolini na Europa, o que gera uma série de poemas furiosos. Sou uma pessoa extremamente feliz, por Ricardo  Reis e pelo meu ofício. São tantos heterónimos vividos. Agora, felicita terem me convidado a atravessar o Atlântico a bordo da nave lusófona”, diz Chico, que formou-se em Arquitetura e também é pintor. “Como ator, eu convivo com heterônimos de mim mesmo desde os 18 anos. Fui outros Chicos ligados a geografias bem diferentes da minha”.

 

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