Cheia de amor pra dar, San Sebastián chora com Duras

Cheia de amor pra dar, San Sebastián chora com Duras

Rodrigo Fonseca

23 de setembro de 2017 | 07h14

Mélanie Thierry (à bicicleta) levou San Sebastián na garupa do melodrama em “La Douleur”

Rodrigo Fonseca
Ave rara na cena autoral e experimental dos festivais de cinema, a boa e velha love story virou “o” formato de San Sebastián na arrancada de sua 65ª edição, coalhada de tramas onde o querer bem é soberano. Bastou a cidade virar a madrugada enxugando o pranto debulhado por Me Chame Pelo Meu Nome – uma produção multinacional (incluindo o Brasil, via a paulista RT Features) centrada no amor entre um músico adolescente (Timothée Chalamet, numa atuação avassaladora) e um estudante mais velho (Armie Hammer) – para que um novo vale de lágrimas surgisse às 9h30. Pousou na manhã daqui um drama padrão A Escolha de Sofia, só que de DNA francês, sobre o passado da escritora e diretora Marguerite Duras (de O Amante) na II Guerra Mundial: chama-se La Douleur e a direção (meio frouxa) é de Emmanuel Finkiel. Mas o que importa mais neste mergulho de tintas metalinguísticas na vida da cineasta e autora (nascida em 1914, morta em 1996) de Índia Song e Nathalie Granger é a interpretação de Mélanie Thierry: é coisa de Oscar. Ela não vive exatamente La Duras e sim um tipo de recriação autobiográfica que a própria Marguerite fez de si no livro homônimo, no qual retrata seu engajamento na Resistência Francesa, em 1944. Vista no recente O Reino da Beleza (2014), Mélanie não apenas recria com perfeição o ethos intelectual dos anos 1940 como tonifica o melodrama a partir de uma composição distanciada, como se refletindo o sentido e a importância (radical) do gênero para os tempos de ontem e os dias de hoje.

Animê em alta

Ainda na sexta, San Sebastián rolou na grama do romantismo mais meloso pelas vias da animação com o esperado desenho Fireworks, Should We See It From The Side Or The Bottom, de Akiyuki Shinbo e Nobuyuki Takeuchi. Trata-se de uma chorosa versão de um telefilme de 1993, dirigido por Shunji Iwai, sobre um par romântico improvável e uma situação amorosa mais improvável ainda. Na trama animada, ambientada em uma cidade na qual fogos de artifício são lançados ao céu para celebrar os mínimos feitos do cotidiano, um guri que vive de limpar piscinas se apaixona por uma colega mais velha de sua escola. Ela não sabe disso, mas enxerga nele um amigo. Amigo com quem pode contar quando decide fugir de casa, por não concordar com o casamento de sua mãe com um novo homem. Na fuga, o garoto encontra um estranho artefato que, a cada contato com os rojões, permite que eles voltem no tempo. Teve gente chiando dos efeitos em 3D. Mas a direção de arte é um primor. E a trilha sonora ainda mais. Sexta ainda foi um dia de festa para o Brasil, por conta da boa resposta ao doc. de João Moreira Salles sobre 1968: No Intenso Agora.

Usa-se aqui o termo obra-prima para definir o mergulho de Salles nas lutas estudantis de 1968 e nas memórias de sua finada mãe para a China da época, com especial reverência dos espanhóis à montagem. Eduardo Escorel foi parte essencial dela, sobretudo na lógica de evitar causalidades. Estreia dia 9 de novembro no Brasil, respaldado por elogios na Berlinale e prêmios no festival Cinéma du Réel. É, sem dúvida, “o” documentário do ano e, quiçá, “o” documentário nº1 da carreira de um cineasta que filma como ourives, na apara do tempo, no acabamento do espaço da memória.

“No Intenso Agora”: novembro no Brasil

Nesta sábado a atração mais esperada é a homenagem para a cineasta Agnès Varda pelo conjunto de sua obra, um dos pilares da Nouvelle Vague. Este ano, em Cannes, a diretora de Cléo das 5 às 7 ganhou a mais valiosa honraria do cinema documental que a Croisette concede: o troféu L’Oleil d’Or, com o qual ela foi laureada por Visages, Villages, codirigido pelo fotógrafo JR. A produção será exibida aqui às 22h desta noite.