Chegou o ‘Redemoinho’ para oxigenar o cinema

Chegou o ‘Redemoinho’ para oxigenar o cinema

Rodrigo Fonseca

07 de fevereiro de 2017 | 13h45

A classe operária vai ao

A classe operária vai ao “Redemoinho”


RODRIGO FONSECA
Mais do que uma experiência estética radical de observação de uma classe operária que parece tão longe estando tão perto, Redemoinho representa a consolidação de uma jornada autoral a três: de um lado, o diretor de TV José Villamarim, do outro, o roteirista George Moura e, ao lado deles, o fotógrafo Walter Carvalho. Cada um de um canto do país (MG, PE, PB), unidos em uma série de protótipos televisivos, como O Canto da Sereia (2013), o seminal Amores Roubados (2014) e a novela O Rebu (exibida há três anos), eles convergem para o cinema, em um exercício de investigação do espaço e do cinema capaz de desafiar as convenções de nossa gramática audiovisual. E como matéria-prima, este drama natalino busca algumas das almas condenadas à inércia social e existencial presentes no segundo volume de Inferno Provisório, a Comédia Humana do escritor mineiro Luiz Ruffato, fincada em Cataguases.

Pátria de Humberto Mauro (1897-1983), imortalizada nas telas como instância poética de invenção de brasilidade, Cataguases volta a ser palco para a transcendência e para a busca de novos rumos narrativos para nosso cinema com Redemoinho, neste projeto que marca a estreia de Villamarim como cineasta, tendo sido laureada com o Prêmio Especial do Júri na Première Brasil do Festival do Rio. Saiu de lá ainda com o troféu de melhor ator para Julio Andrade (empatado com Nelson Xavier, por Comeback). Em nossa indústria, aguardou-se pelo projeto ao longo de dois anos, com ansiedade, desde o anúncio de suas filmagens. Reinava entre as classes cinematográficas a curiosidade de saber como o responsável por hits televisivos como Justiça sair-se-ia com outro léxico. E valeu esperar… Na parceria com seus dois colegas de criação, Villamarim leva às telas uma espécie de ciranda de implosões, cuja trilha sonora mais perene (com exceção de um Odair José lá no fundo) é o barulho de um trem.

77 a 7 Redemoinho 77 Villamarim

Símbolo de chegada e de partida, o veículo é uma espécie de cicatriz a céu aberto no peito dos moradores de uma Cataguases de cores esmaecidas, de muita chuva e muita sombra, na qual uma fábrica de tecidos é o sustento de muitos. Mais do que impactar pela sisudez de uma Minas de operários (sem o barroquismo com o qual as Gerais costumam ser retratadas), a produção surpreende (e nos sufoca) por uma estrutura de roteiro sofisticadíssima. Na dramaturgia de Moura o eixo central – o reencontro de dois velhos amigos, Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Julio Andrade) – é arejado por microsituações que lhe servem de satélites, estruturadas simbolicamente quase como flashes do correr da vida, algumas servindo para esclarecer dúvidas, outras abrindo caminhos autônomos, num processo de diálogo com a prosa de Ruffato.

É o silêncio que reina senhorial nesta narrativa, na qual a direção de fotografia feita por Walter Carvalho (talvez a mais ousada de sua carreira, em anos recentes, desde Baixio das Bestas) dá tanto valor a rebites de pontes e a ribanceiras quanto à gente ao seu redor. É um filme de clima, de construção climática, onde as revelações do enredo chocam menos do que os desabafos de inquietação frente a um lugar onde o Tempo escorre pela chuva que esfria ímpetos de renovação. É também filme de assombração, pelo fantasma de um menino morto que pesa no mormaço local. Mas não é um filme de causalidade: no ritual de observação orquestrado por Villamarim a partir das palavras de Moura e das lentes de Carvalho as ações não correm em P.A. (progressão aritmética), pois, nem sempre, um fato deflagará outro, nem sempre uma ação esperará reação. Tudo demanda contemplação. Mas gera encanto.