‘Chatô’ é uma aula de fotografia e um show de Marco Ricca

‘Chatô’ é uma aula de fotografia e um show de Marco Ricca

Rodrigo Fonseca

24 de novembro de 2015 | 12h58

Marco Ricca tem uma atuação em estado de graça no papel do magnata da mídia, representado como um Policarpo Quaresma

Dirigido por Guilherme Fontes, Marco Ricca tem uma atuação em estado de graça no papel do magnata da mídia, representado como um Policarpo Quaresma pop

Saudado pela crítica com unanimidade depois de quase 15 anos de calvário, nos quais foi vítima de toda a sorte de acusação, Chatô – O Rei do Brasil dá ao espectador pelo menos três aulas de qualidade cinematográfica com a excelência de sua narrativa. A primeira e mais imponente delas diz respeito à segurança dos enquadramentos que o diretor Guilherme Fontes adotou. Em seu recorte macunaímico para a trajetória de aventuras empresariais do jornalista responsável pela implementação da TV no país, o ator e (agora) cineasta com “C” maiúsculo cria não uma teia de videoclipes e sim um fliperama imagético na qual a nossa percepção vai sendo arremessada da esquerda para a direita, do alto para baixo, ao bel-prazer do imaginário fraturado de um homem às portas da impotência física. O que vemos em cena não são fatos mas sim memórias de fatos vividos por Assis Chateaubriand ao longo de sua vida, filtrados pelo desespero do apego à lucidez e à certeza de que suas escolhas celebraram o risco. Fontes, num espelho de seu quixote, arrisca-se a cada plano, deixando os personagens que rodam Chato numa dimensão fantasmagórica, quase alegórica, onde nos dizem menos sobre a História do Brasil, mas muito sobre a história de um sujeito que sonhou um Brasil possível, integrado, de manchetes imaginárias, vencedor. Ponto pra Fontes.

A aula número dois é ministrada por José Roberto Eliezer, fotógrafo do filme. Tem um quê felliniano de Oito e Meio na maneira como Zé Bob (apelido deste que é um dos diretores de fotografia mais talentosos do país) integra no quadro traços da loucura criativa do Chateaubriand fictício imaginado por Fontes a partir da biografia best-seller escrita por Fernando Morais. A câmera de Zé Bob realça o colorido da direção de arte traduzindo a miscelânea de cores que compõe a color bar das televisões e o cromatismo da cultura miscigenada que o Brasil é.

A aula três é dada por Marco Ricca, numa atuação em estado de graça. Com liberdade de invenção, compondo um sujeito que vai do adorável ao desprezível num só gesto, o ator alcança uma instância poética capaz de fundir o cômico, o épico e o trágico num esforço de criar um anti-herói do empresariado brasileiro, um Policarpo Quaresma da mídia. O resultado é um filme divertido – que podia tomar só um Lexotan aqui e ali na montagem, um tanto acelerada em excesso – capaz de tirar sarro da ingenuidade política nossa de todo dia. Um filme dirigido com alma e verdade.

Atenção: na semana que vem, estreia um outro filmaço nacional no qual Ricca brilha: O Fim e os Meios, de Murilo Salles, no qual ele encarna um assessor político sem um pingo de caráter mas com muito desejo incubado, o que gera um jogo de sedução em fervura máxima com uma jornalista interpretada por Cíntia Rosa.

p.s.: Fica ligado que, a partir desta quinta-feira (dia 26), tem Bruce Lee (1940-1973) nas telonas de todo o país, com uma retrospectiva de seus melhores filmes organizada em tributo aos 75 anos do ator chinês, que completar-se-iam dia 27 de novembro. Vão projetar em SP e no Rio pepitas como O Voo do Dragão (1972), no qual ele senta o sarrafo em Chuck Norris.

Bruce Lee enfrenta Chuck Norris no cult de 1972

Bruce Lee enfrenta Chuck Norris no cult de 1972

p.s.2: Entre os dias 27 e 29 de novembro, o balneário de Búzios, no litoral do Rio de Janeiro, vai ser incendiado por um dos eventos cruciais para o mercado exibidor nacional: o Festival de Búzios, agora na 21ª edição. Serão exibidas pepitas, entre elas:

Três Lembranças da Minha Juventude, de Arnaud Desplechin;
Labirinto de Mentiras, de Giulio Ricciarelli;

Anomalisa, genial animação de bonecos de Charlie Kaufman, ganhadora do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza;

Mar Me Quer, produção brasileira inédita de Isabella Nicolas;

Nahid, de Ida Panahandeh, ganhador do Prêmio do Futuro na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes 2015;

Pegando Fogo, de John Wells, com Bradley Cooper, encarado como pedida possível para o Oscar 2015.

Mais do que colocar Búzios na rota do cinema, o festival virou uma espécie de fórum de discussão para as apostas comerciais que prometem mobilizar o circuito.

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