Chanchada policial com o DNA de ‘Máquina Mortífera’ mostra a Cannes o bom diretor que Shane Black é

Chanchada policial com o DNA de ‘Máquina Mortífera’ mostra a Cannes o bom diretor que Shane Black é

Rodrigo Fonseca

15 de maio de 2016 | 07h00

Ryan Gosling fas as vezes de Renato Aragão ao lado de Russell Crowe em

Ryan Gosling fas as vezes de Renato Aragão ao lado de Russell Crowe em “Dois Caras Legais”: uma auma de direção

Excelente ideia da curadoria do 69° Festival de Cannes abrir o domingão com Dois Caras Legais, guloseima recheada de humor e adrenalina que serve como um atestado para o talento do ás do roteiro Shane Black como realizador. Com estreia no Brasil prevista para junho, a chanchada policial estrelada por Russell Crowe e um impagável Ryan Gosling foi exibida hors-concours na seleção oficial, colocando-se fora da briga pela Palma de Ouro – na qual os destaques até agora são I, Daniel Black, do inglês Ken Loach, The Handmaiden, do coreano Park Chan-Wook, e Toni Erdmann, da alemã Maren Ade. Seu ritmo narrativo de tom levemente noir é contagiante, nos embalos de um enredo de investigação nos EUA dos anos 1970. Na trama, uma jovem mocinha desapareceu e uma atriz pornô foi encontrada morta, sendo que ambas tinham conexão com um filme X-Rated (inadequado para menores) que pode revelar podres de muita gente importante na politica em Los Angeles. Eis que um detetive particular, Holland March (Gosling, num timbre de comédia de dar inveja), e um jagunço de aluguel que quebra narizes por dinheiro, Jackson Healy (Crowe), vão unir forças para desvendar o caso.

A pergunta ao fim da sessão foi: se Cannes valoriza tanto autores de gênero, por que Black não foi escalado para concorrer. Seu longa é uma homenagem eletrizante ao cinema de ação dos anos 1970 e 80. E merece ser respeitado como tal.

Sempre acompanhado de um cigarro eletrônico, para sublimar em vapor a tensão de alternar a pena de escritor com a câmera de diretor, Shane Black pagou caro o preço de ter sido o roteirista mais bem pago de Hollywood nos anos 1980 e início de 1990, mas vem dando o troco filmando (e ainda escrevendo) o que bem quer, vide The Nice Guys. Não é qualquer nome na Meca da indústria do audiovisual com cacife para ter Ryan Gosling e Russell Crowe juntos, pagando mico, numa versão ébria e chapada dos anos 1970. Mas depois do fenômeno de bilheteria que Homem de Ferro 3 tornou-se, faturando US$ 1,2 bilhão mundo afora tendo Black como realizador. Cannes recebeu o filme calorosamente, tentando entender melhor a cabeça criativa que, três décadas atrás, deu ao cinema de ação um novo ethos, distanciando o filão de seu parentesco com o faroeste e aproximando-o de uma elegância noir ainda bruta, mas cheia de charme. E fez tudo isso quando tinha apenas 22 anos e concebeu o roteiro de Máquina Mortífera (1987), com Mel Gibson e Danny Glover.

 

Naquela época, com a primeira aventura do detetive Martin Riggs e do sargento Roger Murtaugh, Black introduziu no gênero o conceito do herói kamikaze, cuja disposição para morrer era tão grande quanto a aptidão (e a disposição) para matar. Seu gesto foi exemplar e rendeu frutos como Duro de Matar (1988), com Bruce Willis, redefinindo o conceito do heroísmo na tela grande ao trazer uma fratura psicológica para adicionar tridimensionalidade aos protagonistas. Não por acaso, o Tony Stark playboy e ébrio de Robert Downey Jr. na franquia do Vingador Dourado da Marvel caiu-lhe nas mãos, as de roteirista e as de diretor. E a escolha do estúdio Disney deu certo.

Por quase dez anos, entre 1996 e 2005, o nome dele foi um prenúncio de desastre para os produtores, graças ao fracasso de projetos como O Último Boy Scout (1991), nos quais gastou-se muito e faturou-se pouco. Para evitar acusações e deboches, ele saiu de cena. Mas resolveu voltar à cena fazendo algo mais do que roteirizar. Dirigir virou um verbo de ação para Black quando ele resolveu filmar as peripécias de um astro em crise (Downey Jr.) com um detetive gay (Val Kilmer): Beijos e Tiros. Foi uma premissa simples e rápida, para filmar com merrecas trocadas dos cofres da Warner, mas a encomenda saiu melhor do que se esperava. O projeto não faturou aos tubos, mas virou cult. Dali, ele recebeu o sinal verde para criar como quisesse, sendo até chamado para a TV, via Amazon Studios, para rodar um western: Edge (2015).

Com Dois Caras Legais, Black prova ser um dos grandes.