Chanchada nas veias, pop nas presas: o vampiro Fawcett arma o bote

Chanchada nas veias, pop nas presas: o vampiro Fawcett arma o bote

Rodrigo Fonseca

03 de junho de 2016 | 09h36

Vampiro40Graus Vampiro 40 Graus

Yes! Nós, no Brasil, temos vampiros de novo. Lançado mundialmente durante a 36ª edição do Fantasporto, o thriller de horror Vampiro 40 Graus, de Marcelo Santiago, chega ao circuito no dia 9 de junho, próxima quinta-feira, marcando um retorno do cinema brasileiro a um filão do pop que já marcou época em seu país nos anos 1980. Ele revive a febre dos filmes sobre sanguessugas verde & amarelos, que assombram as noites (sobretudo) do Rio de Janeiro à caça de pescocinhos cariocas. Seu cenário é um Rio retrofuturista, esburacado de obras e dominado por traficantes não apenas em favelas, mas no asfalto. No passado, filmes como As Sete Vampiras (1986), de Ivan Cardoso, movimentaram milhões na venda de ingressas explorando as peripécias das criaturas da noite. Depois, nos anos 1990, Olhos de Vampa, de Walter Rogério, trocou jugulares pelas nádegas da modelo Mary Alexandre: seu Nosferatu preferia bumbuns. Num paralelo com o cinema, a televisão do Brasil perambulou pelas trevas eternas com as novelas Vamp (1991) e O Beijo do Vampiro (2002), ambas de Antonio Calmon. Mas em todos esses exemplos, a marca da maldade tinha gosto de chicle de bola: carregava o açúcar do romantismo e o adoçante da comédia. Já o longa-metragem de Santiago é mais rascante. O projeto nasce de uma derivação da série de TV Vampiro Carioca (Canal Brasil), com o cantor e compositor Fausto Fawcett de protagonista. A produção é da LC Barreto, empresa por trás de sucessos como Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) e de longas indicados ao Oscar como O Quatrilho (1995).

“O universo dos vampiros não tem nada a ver com o estereótipo da brasilidade: a ideia do país solar e de seus habitantes cordiais e pacíficos”, diz Marcelo Santiago, que antes dirigiu longas como Sonhos e Desejos (2006). “Na realidade, o Brasil tem um lado sombrio, violento e cruel que não é imediatamente identificado com a brasilidade, mas que está presente em nosso dia-a-dia, em geral nas periferias e submundos das cidades. Essa realidade violenta é diária e amplamente divulgada por parte da imprensa, mas curiosamente não compõe a ideia de brasilidade. O universo dos vampiros se constrói exatamente sobre esse substrato violento, alimentando de sangue a imaginação dos espectadores”.

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Primo de Terceiro Mundo do Nosferatu de Murnau, o chefão do crime Vlak, o Vampiro Carioca, interpretado por Fawcett, pertence a uma linhagem rara de mitos do cinema latino-americano. Com sua fome de jugulares, faz parte do rol seleto de figuras cinematográficas com potencial de transcender os filmes nos quais nos são apresentados e se firmar no nosso imaginário por virtudes e fraquezas que espelham idiossincrasias da alma humana.

 

É a satisfação de uma busca cada vez mais inglória em nossas telas pele imortalização de personagens. Apoiado no carisma ébrio de Fawcett, uma espécie de Bukowski de Copacabana, Vlak sai do cinema e vai pra casa com a gente, por ser uma metáfora de nossas angústias. E o faz por ter os caninos afiados numa tradição centenária de guardiões do medo, que evoca desde os vampiros de Christopher Lee na produtora inglesa Hammer até o sanguessuga ultrarromântico vivido por Gary Oldman no Drácula de Coppola: como eles, Vlak sofre com a patologia do não pertencimento, de sentir-se desenraizado, num reflexo do mal-do-século de todos nós.

“O filme traz elementos típicos dos filmes de terror e de vampiro, desde os mais comuns – o sangue bebido e derramado em profusão – até outros contaminados pela era pós-moderna digital – o canino, símbolo principal e credencial de qualquer vampiro, agora equipado com um chip GPS – passando por psicopatas operando decepações com uma serra elétrica, assassinatos, sequestros e tortura. Tudo isso está no filme e tudo faz parte do universo do terror”, explica Santiago. “Mas o que dizer de um vampiro que arranca o próprio canino como forma de tentar escapar do destino de ser sugador? O que dizer dos personagens que habitam o submundo carioca por onde circulam os vampiros – o saci crackonha, a cabra vadia de Queimados, mendigos, massagistas, vendedores ambulantes, a apresentadora peituda de telejornal explorando o próprio sex-appeal misturado com a tragédia criminal que anuncia? O que dizer desse mesmo submundo – terrenos baldios, túneis, subterrâneos, o Saara dominado por chineses? É através desses elementos que se apresenta no filme o Brasil – e o seu jeitinho”.

13 Vampiro 40 Graus

Na trama, o longa de Santiago parece um casamento do horror com o policial, num encontro de Tropa de Elite com A Hora do Espanto. O enredo se desenrola quando Vlak, depois de uma temporada na Transilvânia, volta ao Rio para se tornar o rei do submundo carioca. Mesmo com tanto poder, ele está insatisfeito e inquieto, à procura de novos caminhos para fugir do tédio. Monitorado 24 horas por dia pela Limbo Corporation, comandada por Limboman, o chefão das máfias vampirescas da América Latina, Vlak decide extrair seu próprio canino, equipado com chip e GPS, para acabar com a vigília que o liga à quadrilha. Com isso, acaba perdendo a memória. Sem se lembrar de quem é, ele conhece a mafiosa asiática Wang Su e tem que lutar contra um antigo inimigo: o caçador de vampiros Draco, que recuperou as forças, e arrumou uma nova parceira, Dafne, a Foice Ruiva, psicopata procurada pelas autoridades cariocas. Nisso, o caos se abate sobre o submundo do Mal.  Mas sexy e implacável vampira Michele vai ajudar Vlak a recuperar a memória em meio a uma batalha que ameaça a integridade de todo o Brasil.

“O Rio de Janeiro retratado no filme é o Rio sob a ótica do Fausto Fawcett. Não mais o Rio 40o e sim o ‘sombRio 40º’ , uma cidade invisível para a maioria e o oposto do velho clichê da cidade maravilhosa”, diz Santiago. “Com a violência explodindo a cada esquina, o lado sombrio da cidade ganha visibilidade, mas continua não sendo diretamente associado a ela. Todo mundo gosta de acreditar no que gosta, ou no que acha que pode ser de bom-tom. Além da violência, o sombrio do filme é também o submundo do erotismo, da cidade hedonista. Como diz o Fausto, o filme faz uma biópsia do ambiente social – e lá está o Rio de Janeiro marcado e talhado pelas reformas urbanas goela abaixo, rumo ao ideal olímpico – e também uma outra biópsia, mais profunda, da consciência humana exposta. O crime e o erotismo do sombrio 40 graus têm grande poder de atração. O filme, como espelho, expõe essa atração e coloca o espectador cara a cara consigo mesmo”.

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