‘Chambre 212’ de portas abertas

‘Chambre 212’ de portas abertas

Rodrigo Fonseca

28 de setembro de 2019 | 03h41


Rodrigo Fonseca
Apaixonado por comédias sobre DRs, em que discussões de relação são gatilho para muita experimentação de ângulos de câmera inusitados, o cinema francês há de se deleitar com o filão em seu circuito comercial graças ao empenho de um campeão de bilheteria local, que regressa às telas no dia 9 de outubro: Christophe Honoré. Respeitado no universo da literatura, por romances como “Tout contre Léo” (1995), elogiado nos palcos em seu trabalho como encenador, ele virou um quindim pra crítica, arrebatando uma legião de fãs, quando lançou o musical “Canções de amor” (2007), aos 37 anos, sendo definido como um herdeiro de Jacques Demy (1931-1990). A comparação com o mestre por trás de “Os guarda-chuvas do amor” (1964) veio pela maneira como ambos redefiniram o uso não realista da música como diálogo, reinventando o lirismo a partir de um diálogo com problemas concretos (e existenciais) do dia a dia. A diferença é que Honoré deu uma mão de tinta a mais nas cores existenciais de seu universo no inédito “Chambre 212”, exibido e premiado na mostra Un Certain Regard do 72º Festival de Cannes, em maio. O filme deu à sua estrela habitual, Chiara Mastroianni, a láurea de melhor atriz na Croisette, por uma atuação cheia de viço em um longa-metragem sem música, mas carregado de romantismo, naquele que muitas resenhas definem como o melhor trabalho do realizador. Chiara tem uma performance de arrancar aplausos nesta “dramédia” de tons fantásticos sobre uma advogada que resolve encerrar 20 anos de casamento indo morar em um hotel, onde observa os passos de seu (quase) ex. Mas o querer é um verbo manhoso: algo pode reaproxima-los. E esse algo, no caso, é a reapariação da versão jovem de seu marido… ou seja, o cônjuge da moça aparece com o corpo e a disposição que tinha aos 25 aninhos, na pele de Vincent Lacoste. Na entrevista a seguir, dada aqui ao P de Pop do Estadão em janeiro, em Paris, Honoré disseca essas manhas.
Estadão P de Pop: Muitos de seus filmes abordam o cotidiano dos soropositivos, uma escolha autoral sua que se torna mais do que oportuno neste momento em que pesquisas médicas apontam um aumento do contágio da AIDS. O que torna a doença um assunto central no seu cinema?
CHRISTOPHER HONORÉ
: A caminho dos 50 anos, eu pertenço a uma geração que escapou de se infectar, mas que viveu suas primeiras experiências sexuais à sombra da AIDS, com medo da contaminação, vendo nossos ídolos gays morrerem doentes. A AIDS sempre este coma gente, como um fantasma, mas também como um balizador do desejo. E cinema vem do desejo.
Estadão P de Pop: Você ganhou fama nos anos 2000 como um artesão do musical, apostando num registro não realista. Mas “Conquistar, amar e viver intensamente” é uma narrativa quase naturalista em seu registro do cotidiano. Como dirige talentos como o de Chiara Mastroianni?
CHRISTOPHER HONORÉ:
Embora eu venha da literatura, não tenho obsessão pelas vírgulas ou pelos acentos agudos do meu texto: meu roteiro existe para ser reinventado no set. Por isso, eu não ensaio, pois prefiro trabalhar com a matéria viva da descoberta. Janto com os atores, converso com eles, dou referências do que ver ou ler e parto para um processo de interação no qual os atores personalizam a história que tenho para contar.
Estadão P de Pop: E o que existe de singular nesta história?
CHRISTOPHER HONORÉ:
A diferença do tempo dos afetos. Este filme conta a história de um amor ameaçado por impasses e fantasmas que não anda, por mais que os dois amantes se desejem.
Estadão P de Pop: De alguma maneira, a sua maturidade pessoal e profissional pesa na amargura que há em torno dos personagens?
CHRISTOPHER HONORÉ:
Estou no momento em que vejo uma série de jovens de 20 e poucos anos que me responsabilizam por sua escolha em fazer cinema por conta de terem visto meu “Canções de amor” quando eram muito garotos. Eu já estou num momento de perceber uma distância geracional entre mim e uma nova linhagem de diretores. De fato, este é um filme mais pessoal, mas por várias razões, a começar por uma reflexão sobre o que foi os anos 1990. O que fomos nos anos 1990.
Estadão P de Pop: Qual é o seu lugar hoje no cinema francês?
CHRISTOPHER HONORÉ:
Um lugar de preservação da ideia de que nem todo filme precisa ser “para todos”. Há um lugar comum na França que se opõe a uma arte mais intelectualizada, em oposição a narrativas mais sofisticadas, com a proposta de que a troca de ideias comum em nossa tradição cinéfila não tem mais lugar. Há um culto ao cinema de gênero, uma defesa de que todos nós, cineastas, precisamos investir em “produtos” de adesão coletiva em vez de apostarmos em histórias pessoais. Mas as histórias que tenho para contar não são pensadas por número de espectadores. Venho da literatura, da experiência solitária do leitor e do livro. Fazer cinema, pra mim, sempre foi uma experiência solitária, cercada de emoções conflitantes. Mas, aqui, a sensação de algo que não caminha, de uma paixão num impasse, é o que mais me interessa. E é o que eu tenho para dizer, com o máximo de sinceridade.

Falando em cinema francês, “Les Misérables”, de Ladj Ly, deu uma aula de sociologia e de comunicabilidade em sua passagem pelo Festival de San Sebastián, que termina hoje, com a entrega da Concha de Ouro e a projeção de “Coringa”, com Joaquin Phoenix. Ly pode (e deve) sair de lá com o prêmio de júri popular. De descendência maliana, este realizador francês com carreira de ator e de documentarista, mergulha na ficção a partir de um paralelo com a literatura de Victor Hugo, falando sobre um trio de policiais que se envolvem num conflito com a população de um subúrbio de Paris, com população majoritariamente negra. É a melhor montagem de todos os candidatos à Palma já exibidos: nervosa, mas aberta à reflexão das contradições sociais. Ganhou o Prêmio do Júri em Cannes, empatado com o brasileiríssimo “Bacurau”.
San Sebastián também aclamou um drama de época que hoje mobiliza cinéfilos nas salas de exibição de Paris: “Retrato de uma jovem em chamas” (“Portrait de la jeune fille en feu”). De uma potência plástica singular, o longa rendeu à diretora Célina Sciamma a láurea de melhor roteiro em Cannes. A trama se concentra nos esforços de uma pintora da Bretanha Francesa, em 1770, a artista plástica Marianne (Noémie Merlant) para pintar um quadro de uma ex-noviça forçada a se casar, Héloïse (Adèle Haenel). Juntas, elas se libertam. “É a importância da união”, disse Sciamma.
Estima-se que a Concha Dourada espanhola de 2019 possa ir para o drama brasileiro “Pacificado”, dirigido pelo americano radicado no RJ Paxton Winters (com o cineasta de NY Darren Aronofsky, de “Cisne Negro”, entre seus produtores) e estrelado por Léa Garcia, Débora Nascimento, José Loreto e (um genial) Bukassa Kabengele. É uma investigação sobre a vida nas favelas cariocas pós UPPs e pós Jogos Olímpicos. Quem decide seu destino é o júri presidido pelo irlandês Neil Jordan.

Tendências:

  • Netflix divulga as 5 séries internacionais preferidas do público brasileiro
  • Projeta Brasil do Cinemark apresenta filmes brasileiros por apenas R$ 4
  • Glória Maria faz cirurgia para remover lesão cerebral e passa bem
  • ‘Sonic - O Filme’: Internautas aprovam ‘reforma’ do personagem; assista
  • Lollapalooza Brasil 2020: confira o line up por dia