Chama a Jane, Berlinale 2022, pra vencer

Chama a Jane, Berlinale 2022, pra vencer

Rodrigo Fonseca

12 de fevereiro de 2022 | 21h11

Sigourney Weaver e Elizabeth Banks no longa da estreante Phyllis Nagy, “Call Jane: um prato feito pra prêmios, egresso de Sundance

RODRIGO FONSECA
Inimiga nº 1 dos Aliens de Ridley Scott, James Cameron. David Fincher e Jean-Pierre Jeunet, celebrizada como a tenente Ellen Ripley, a nova-iorquina Sigourney Weaver, aos 72 anos, pode ter dado à 72ª edição da Berlinale um filme embrulhadinho pra conquista do Urso de Ouro de 2022: “Call Jane”. Com certeza, a melhor atuação de estrela em papel coadjuvante, em todo o evento, até aqui, é dela no único dos 18 concorrentes da competição oficial da maratona cinéfila alemã a ter CEP estadunidense. Seu desempenho é comovente neste “feel good” drama que celebra a sororidade a partir da discussão do aborto na América dos anos 1960. A direção é da estreante Phyllis Nagy, dramaturga e diretora de teatro nascida em Nova York, há 59 anos, e radicada em Londres desde 1992. Ela confiou o protagonismo de seu belíssimo estudo sobre solidariedades femininas em tempos de revolta nos EUA a uma Elizabeth Banks (estrela de “Pagando Bem, que Mal Tem?”) disposta a passar pr’um outro patamar de respeitabilidade em sua carreira, após idas e vindas na direção.
Banks tem uma azeitada atuação na pele de Joy, uma dona de casa que precisa interromper sua segunda gravidez, a todo custo, por problemas cardíacos que podem custar sua vida. Por pudores morais, os médicos estão se lixando pra ela, preocupados apenas com o bebê, sem lidar com a variante de que a criança possa nascer órfã. Desesperada para abortar, no auge da patrulha de bons costumes do fim dos anos 1960, ela se depara com o anúncio de um grupo de acolhimento que atende pelo nome de Jane. A sigla é “Call Jane”… tipo um “Chama a Jane” cuja líder é a ativista feminista Virginia, Sigourney, em sua interpretação mais inspirada em anos. A função do grupo é garantir que mulheres como Joy, desesperadas para evitar uma maternidade indesejada ou arriscada, possam escolher sem próprio destino sem punição.

Greta Zozula assina a fotografia do único concorrente americano entre os 18 filmes no páreo do Urso de Ouro de longas

Roteirista de múltiplas habilidades, Phyllis consegue fazer um desenho desse universo de angústia pré-natal sem incorrer em arquétipos redutores. Seu retrato dos homens não resvala em caricaturas, como comprova a complexa figura do advogado Will, companheiro de Joy, que ela confiou a Chris Messina, um dos atores mais talentosos do cinema indie nos dias atuais. Até o médico aborteiro Dean (Cory Michael Smith) é tratado sem julgamentos, conquistando uma arquitetura dramática tridimensional. E a diretora ainda foi feliz em abrir frentes de debates sociais perpendiculares à exclusão do sexismo, como se vê no debate do feminismo negro que se trava na figura de Gwen (Wunmi Mosaku), uma das Jane, preocupada com o que chama de “suas irmãs” do movimento Pantera Negra. E tudo isso é narrado com uma direção de arte mimosa de Jona Tochet, galvanizada pela fotografia levemente granulada de Greta Zozula.
Antes de Berlim, “Call Jane” teve uma passagem bastante elogiosa por Sundance, em Utah. Mas a Europa pode fazer dele um dos filmes definitivos do ano. Que Sigourney não seja esquecida pelo júri presidido por M. Night Shyamalan, que precisa laurear coadjuvantes.

Seu maior rival, de quinta (quando o evento abriu suas portas) até hoje, segue sendo “Avec Amour et Acharnement”, nevrálgico ensaio da francesa Claire Denis sobre os fragmentos do discurso amoroso que espatifado durante a pandemia. Tem Juliette Binoche de um lado e o Antonio Fagundes europeu, Vincent Lindon (de “Titane”) do outro, como um casal sob o riso da atomização. A câmera espasmódica do fotógrafo Eric Gautier merece um troféu.
Quem jantou a Berlinale até os ossos neste sábado, nas seções paralelos, foi Bertrand Bonello. Em um ano de excelência absoluta da França pelas terras e telas germânicas, desde o filme de abertura, o agônico “Peter von Kant” (atestado de maturidade de François Ozon para entrar no Panteão dos diretores autores e lá ficar), o realizador de “O Pornógrafo” (2001) nos saiu com um experimento godardiano chamado “Coma”, centrado na vida contemporânea em meio às sequelas existenciais da pandemia. Colagens de vídeos com paisagens se alternam com duas hilárias estruturas: a) uma espécie de canal de internet com uma youtuber performática que se chama Patricia Coma (Julia Faure); b) uma hilariante representação de conflitos de casais feita com bonecas e bonecos tipo Barbie e Ken, dublados por talentos como Laetitia Casta, Vincent Lacoste e um inspiradíssimo Louis Garrel “Somos grandes amigos e passamos horas e horas por dia ao telefone. Portanto, sempre penso nele pros meus filmes”, disse Bonello, que dedicou a sessão ao ator Gaspard Ulliel, morto em janeiro, em um acidente de esqui, que faz uma das vozes do longa.

Ruanda comparece no Festival de Berlim com “Father’s Day”

Berlim segue apostando em atrações inéditas até terça-feira, dia em que será projetado o drama brasileiro “Fogaréu”, de Flávia Neves, uma das atrações nacionais mais esperadas do evento. É uma trama na fronteira entre o real e o fantástico, entre o passado colonial e a modernidade avassaladora do agronegócio, onde a cidade de Goiás é palco do encontro entre a jovem Fernanda (Bárbara Colen) e suas secretas raízes.
De tudo o que já se viu em mostras fora da competição oficial, merece especial destaque “Father’s Day”, de Kivu Ruhorahoza: Contradições sociais e tradições controversas de Ruanda se desnudam numa narrativa que faz a interseção entre três dramas familiares: a) o luto de uma mãe; b) uma jovem obrigada a cuidar de um pai que mal conhece; e c) um criminoso treina sua prole para seguir seu legado. É um filme de amor, sob um disfarce de geopolítica.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.