‘Céus’, um novo incêndio nos palcos do Rio

‘Céus’, um novo incêndio nos palcos do Rio

Rodrigo Fonseca

09 Dezembro 2016 | 11h49

Num bunker, cinco pessoas buscam respostas para um enigma terrorista:

Num bunker, cinco pessoas buscam respostas para um enigma terrorista: a peça “Céus” é do autor de “Incêndios”, o libanês Wajdi Mouawad

RODRIGO FONSECA

Há um clima de Agenda Secreta (1990), de Ken Loach, misturado com Jogos de Guerra (1983), de John Badham, na peça Céus, em cartaz até o dia 18 de dezembro, no Teatro Poeira, no Rio, pela tensão típica de thrillers de espionagem em alta voltagem no time de personagens construído por Wajdi Mouawad na percepção de que “terrorismo e poesia não são incompatíveis como se julgava”. Libanês radicado no Canadá, aclamado aqui (e no resto do planeta) por Incêndios, texto magistralmente transposto por Denis Villeneuve para a telona em 2010, o dramaturgo encontrou no diretor Aderbal Freire-Filho – o responsável pela encenação – um interlocutor capaz de galvanizar o que há de universal de sua obra e usá-lo como ponto de diálogo com questões brasileiras. Em cena apenas em vídeo, Aderbal é o estopim que deflagra o incidente incitante de toda a trama: Valery Masson, um fã de poesia e música clássica, expert em criptologia, que se mata dias antes de terminar suas funções em um bunker de análise de dados. Lá se avaliam indícios de células terroristas pelo mundo a partir de charadas cifradas entre letras, números, versos…

Mesclando recursos audiovisuais e encenação numa relação formal complementar, este centauro de narrativas faz da linguagem seu próprio tema: a língua do terror (de prosódia feroz), a língua da amizade (muda, na maioria das cenas), a língua da troca (cheia de ruídos do passado), a língua da paternidade (substantivo dominante) e, por fim, a língua da vingança. À frente do buker, há um analista já cansado de mil batalhas (papel de Isaac Bernat) e abalado por uma separação iminente. Seu poder é desafiado por um hacker profissional (Rodrigo Pandolfo), que questiona seus métodos. Lá ainda trabalham uma tradutora, Dolorosa (Silvia Buarque, bela e doída numa atuação devastadora, dando tom à tradição materna sempre presente na obra de Mouawad), e um outro técnico criptográfico, Charles Eliot Johns, que se torna o Sol da peça graças ao desempenho esbaforido de Charles Fricks (um dos atores de maior ferramental cênico do país na atualidade).

A eles, naquele misto de laboratório e tumba, vai se juntar um jovem decodificador, Szymanowski (Felipe De Carolis), que foi amigo de Valery. Ao longo de duas tensas horas (ou quase isso, já que não se sente o tempo galopar), Szymanowski tenta abrir os olhos de seus colegas para o perigo real e imediato de um ataque a pontos culturais estratégicos das maiores cidades do mundo, tendo como evidência um quadro e uma estrofe poética. A decantação dessas evidências permite a Mouawad – e, numa carona de coautoria, a Aderbal – a chance de executar uma autópsia em corpo vivo de nossos preconceitos políticos e de nossas miopias morais. Uma frase nos salta aos ouvidos: “O Demônio diz o que sabe; o anjo sabe o que diz”. Ela é uma bússola para a surdez ideológica do nosso tempo, rachada pelo urro quase espiritual de Eliot Johns num clímax que nos leva ao desespero e ao alarme – uma tarefa milenar do Teatro.