César Troncoso, cristal de fino talento

César Troncoso, cristal de fino talento

Rodrigo Fonseca

28 de agosto de 2020 | 14h23

O ganhador do Kikito de Cristal do 48º Festival de Gramado, em foto de Leonardo Machado: a excelência de um titã uruguaio chamado César Troncoso é reconhecida pela maratona cinéfila gaúcha e por um livro da editora Estuario

Rodrigo Fonseca
Não é todo dia que um ator latino-americano ganha, em vida, ainda em “madurez jovem”, vira livro, mas nem todo bom ator latino-americano é bom como César Troncoso, genial uruguaio de 57 anos que a gente aprendeu a amar lá atrás, em “O Banheiro do Papa” (festejado em Cannes, em 2007), e já nos deu joias como “O Vendedor de Sonhos” (2016). Seus feitos nos palcos, na telinha (fez aqui a novela “Flor do Caribe”) e nas telonas são revisitados sob a lupa do prestígio em “Oficio de Alto Riesgo”, do crítico Diego Farone (Estuario Editora). Ao mesmo tempo em que se consagra nas livrarias, o astro de “A Oeste do Fim do Mundo” (2013) – obra-prima de Paulo Nascimento, pelo qual recebeu o troféu de melhor ator latino, em Gramado, há sete anos – voltará a receber loas do evento gaúcho este ano. E que loas. Transferida pra web e pra TV, via Canal Brasil, de 18 a 26 de setembro, a micareta cinematográfica gramadense vai conceder a ele o Kikito de Cristal, um símbolo da integração entre as Américas. A honraria a ele oferecida já foi dada a mestres da direção como Eduardo Coutinho, Ruy Guerra e Juan José Campanella e a gigantes da atuação como Cecilia Roth e Othon Bastos. Neste momento em que colhe elogios em sua pátria natal por seu desempenho nos palcos “Marx in Soho”, de Howard Zinn, o Jack Lemmon de Montevidéu tem outras peças em vista e alguns projetos de filme, apesar da pandemia. Por aqui, no cinema nacional, ele foi do premiado “Em Teu Nome” (2009) ao culturado “Benzinho” (2018), passando pelo blockbuster “Faroeste Caboclo” (2014). Em sua pátria, fez “Uma Noite de 12 Anos”, sobre a militância de Pepe Mujica, o que levou seu nome a ser aclamado durante o Festival de Veneza de 2018. “Sempre uso como definição que não faço arte, eu sou ator. Às vezes, como ator, posso fazer arte, mas posso também fazer artesanato, fazer besteira. Muitas vezes, você precisa aceitar trabalho porque precisa pagar as contas. Outras vezes, você consegue resolver o problema estético, fazendo filmes em que o valor artístico é grande, mas o salário não é tão bom. Sinto que, por trabalhar em vários países, como estou conseguindo fazer agora, posso fazer as duas coisas: pagar as contas e fazer projetos interessantes”, disse o ator, em recente entrevista. No papo a seguir, ele rasga o coração ao P de Pop pra avaliar o trabalho de ator na Pangeia sul-americana.

Como você avalia a atual situação do cinema no Uruguai?
César Troncoso:
No Uruguai, o que temos é o dinheiro do Estado, o dinheiro que a intendência de Montevidéu dá. Para isso, você precisa se apresentar em um concurso e imagino que é uma das razões pelas quais temos boa qualidade no nosso cinema. Você precisa passar por um júri que vai revisar o seu projeto. Não tem um capitalista que coloca dinheiro para fazer de qualquer jeito. Não temos também – o que é um problema, mas, de algum jeito, pode ser virtude – esses cômicos que, muitas vezes, acabam fazendo filmes ruins para fazer bilheteria. E não temos nada de ficção na nossa televisão. A qualidade dos nossos filmes, boa, acho que também é diversa. Agora estamos tendo variedade. Sempre tivemos um jeito próprio de fazer cinema, como se fosse o jeito de fazer do cinema independente argentino. Mas essa não é a única maneira. Estão aparecendo adaptações de livros para o cinema, estão aparecendo filmes de gênero, sobretudo, filmes de terror. Estamos tendo comédias bizarras, mas tem outras que são tipicamente uruguaias. O público acompanha isso às vezes sim e, às vezes, não. Por exemplo, um bom filme que foi feito em coprodução com a Espanha mas com uma história uruguaia, foi o “Uma Noite de 12 Anos”. Ele apareceu na Netflix e tornou-se um sucesso. Depois apareceu “Alelí” e ele também teve boa audiência. A gente ainda não vai 100% ao cinema. É um pouco do que eu ouvia no Brasil quando aí cheguei: “Eu não acompanho o cinema nacional”. Isso é um problema da América Latina. Tem filmes como os do Ricardo Darín, que sempre vão dar boa bilheteria, mas há os filmes menores e independentes, que se tornam atrações de festivais. As pessoas do próprio país não acompanham. Isso é um problema e deveríamos estar trabalhando nisso.

Em recente entrevista, você afirmou: “A cultura brasileira é uma das melhores cartas de apresentação do país no mundo”. Como é a sua relação com o cinema do Brasil?
César Troncoso:
É a variedade que faz da cinematografia do Brasil uma coisa bem interessante. Eu sinto uma grande fascinação por essa diversidade de vocês. Para mim, “Bye Bye Brasil”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, o “Faroeste Caboclo” (longa que eu fiz e adoro) são grandes filmes. “A Via Láctea”, era um lindo filme, com a Alice Braga e o Marco Rica. “A Cidade Baixa”, com o Wagner Moura e o Lázaro Ramos, também é grande. O Brasil é um país que tem de tudo. Tem os grandes filmes experimentais. Tem os filmes do Gabriel Mascaro, que são ótimos, caso de “Boi Neon” e “Divino Amor”. Eu sinto muita tristeza quando vejo que vocês não estão fazendo as bilheterias que mereciam. Quando você vai para outros lugares, fica sabendo que o cinema brasileiro é bem respeitado. Sei que vocês possuem muito admiração pelo cinema argentino e eu também, mas, às vezes, olhar para os outros impede de olhar para si mesmo. O Brasil possui muita qualidade no seu cinema.
Como você vê a luta do Brasil para manter sua cultura ativa?
César Troncoso:
A nossa classe artística é a classe que foi a primeira forçada a parar e a última a voltar a ter trabalho, pois, pra muitos, não somos importantes. A pergunta sempre teria que ser essa: Por que você é brasileiro? Só porque mora em um lugar geográfico do Brasil? Será que você não é brasileiro por ter um jeito particular de sentir as coisas, de viver a vida, um jeito de falar, um modo de brincar. Essas são as coisas que a cultura constrói. Pra muitos, isso é um luxo. Na prática, é uma questão de identidade.

Quais são seus planos para o teatro?
César Troncoso:
O que tenho é uma peça sem nome ainda, mas com um ator e uma atriz daqui. A Camila Diamant vai atuar comigo. É uma peça que estamos tentando fazer. Ainda estamos no processo de construção do espetáculo, mas já recebemos um edital e vamos tentar construí-la. A peça maior que tenho em teatro para o ano próximo vai ser “Esperando Godot”, de Samuel Beckett. Uma peça que vou fazer, no próximo ano com o diretor uruguaio Jorge Deveni, você pode conhecê-lo em “Os Golfinhos Vão Para o Leste”. Não sei se vocês assistiram a esse filme no Festival de Gramado. É um filme que ele protagonizou, no qual fazia um pai gay. Ele é um dos diretores mais antigos que temos no Uruguai. Acabo de fazer, por aqui, a primeira sessão de “Marx in Soho”, no Auditório Nacional Sodré. Vai ser na sala grande porque agora temos os protocolos da covid-19. É uma sala de 1800 espectadores em que tivemos hoje 400 pessoas. Por enquanto, em teatro, é isso.
Este ano, que projetos de cinema você tem pela frente?
César Troncoso:
Fiz um filme dirigido pela Denise Moraes e pelo Bruno Torres, que se chama “A Pele Morta” e conta a história de um caminhoneiro e de um indígena. Tenho um convite no Sul, do diretor Lucas Cassales, e, também lá, o diretor Paulo Nascimento, um parceiro, sempre tem algo para me oferecer.

p.s.: Está chegando ao fim o 31º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo – Kinoforum. Uma das atrações obrigatórias, indicadas ao troféu Grande Otelo no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro é “Alfazema”, de Sabrina Fidalgo. Todo ano, um curta-metragem fura a bolha dos holofotes restritos a longas e filmes feitos para streaming e se impõe por sua estrutura estética ou seu combativismo político. Do fim de 2019 até agora, o novo curta da realizadora de “Rainha” tem dado um banho de confete, de axé, de afirmação racial negra e de empoderamento feminino por onde passa, e ainda papou o Candango de melhor direção em Brasília. Shirley Cruz tem uma atuação zépelintrica no papel de uma foliã visitada por entidades de diversas potências e índoles em meio ao Carnaval.

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