‘Cemitério’ que renova o legado do Rei Stephen

‘Cemitério’ que renova o legado do Rei Stephen

Rodrigo Fonseca

12 de março de 2020 | 08h52

John Lithgow é o guardião da memória macabra de uma calunga que devolve os mortos à vida

Rodrigo Fonseca
Em fase de renovação de sua grade, vitaminada com a aquisição do oscarizado “Os Infiltrados” (2006), a Rede Telecine abriu espaço nobre para a mitologia sombria criada por Stephen Edwin King. Vai ter o remake de “Cemitério Maldito” na grade da emissora, celebrando uma prosa que, de 1967 até hoje, impõe respeito não apenas em sua obsessão por monstros e fantasmagorias, mas por seu estudo de geografias, físicas e morais. Uma delas, a de uma calunga de tribo indígena capaz de trazer os mortos de volta a este plano de realidade, fascina a cultura pop seja como literatura (este enredo de King virou romance em 1983), seja como cinema, tendo sido filmada em 1989, por Mary Lambert. No aniversário de 30 anos do filme, que tornou o livro ainda mais cultuado, os diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer esboçaram uma nova versão da trama, modificando detalhes aqui e acolá, dando mais (e melhor) ênfase à figura de Church, um gato que regressa do Além quizilado, furioso. Existe no novo “Pet Sematary” um apuro técnico, sobretudo na fotografia, que a versão da década de 1980 sequer esboçava viço. E há um combustível que arde como uma força mais assombrosa (para o Bem) do que as manifestações das trevas: o talento de John Lithgow. No apogeu de sua carreira, o ator-fetiche de Brian De Palma, com quem fez o suntuoso “Síndrome de Caim” em 1992, entra aqui como um oráculo que orienta o protagonista, o Dr. Louis (o bom Jason Clarke), acerca dos perigos de se brincar com a Morte. Mauro Ramos foi o dublador escalado para emprestar a voz ao veterano ator.

Nas telas, o regresso de Church dá arrepios, pois o felino evoca o tônus trágico de outro animal demoníaco, o bode Black Phillip de “A bruxa”, um cult de 2015. Mas Kölsch e Widmyer (do irregular “Feriados”) comentem o erro grave de não optarem por que linha de horror vão seguir, desperdiçando a rica dimensão realista que King levanta em sua discussão sobre a depredação do legado tribal. Por vezes, este retorno ao “Cemitério…” patina pela dinâmica do gore, filão sangue e tripas no qual a brutalidade requer grafismos exibicionistas. Por vezes, o caminho é do intimismo, à moda Roman Polanski em seu “O bebê de Rosemary” (1968). Mas a indecisão prejudica o resultado final, criando um filme que descamba para o insosso e para o ridículo, na direção do elenco mirim. Ainda assim, é uma iguaria a ser saboreada com prazer. Na versão brasileira, Garcia Júnior dubla Jason.

p.s.: Capaz de criar uma inusitada analogia entre o útero e os confins do cosmos, “Próxima”, de Alice Winocour, vai estrear no Brasil com o título “A Jornada”. Laureado em setembro com o Prêmio Especial do Júri do Festival de San Sebastián, na Espanha, o novo filme da diretora de “Augustine” (2012) repagina a imagem de Eva Green (“Os Sonhadores”), apostando em seu amadurecimento. A atriz vive um astronauta que, escalada para uma missão no espaço, precisa driblar questões da maternidade, sem deixar sua filha desamparada. Matt Dillon é um dos destaques do elenco desta requintada aventura existencial, com um pé nas estrelas e outro no chão por onde uma jovem mãe precisa avaliar seus sonhos profissionais.

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