‘O Cemitério das Almas Perdidas’: que filmaço!

‘O Cemitério das Almas Perdidas’: que filmaço!

Rodrigo Fonseca

08 de setembro de 2020 | 15h22

Renato Chocair é o súcubo de São Cipriano em “O Cemitério das Almas Perdidas”: um espetáculo de horror nacional com “e” maiúsculo

Rodrigo Fonseca
Sem medo de excesso, de barulho, de coágulos derramados e (sobretudo) das assombrações ideológicas que exorcizaram a fabulação do cinema brasileiro, substituindo-a por sociologia, “O Cemitério das Almas Perdidas” é a maior celebração da dimensão “espetaculosa” do horror feito no Brasil desde “Encarnação do Demônio” (2008). Uma celebração capaz de deslumbrar o olhar do espectador a cada plano. Exibido online no 7 de Setembro, como atração de abertura do 10º Cinefantasy, é um filme seminal para entender onde chegamos em nossas escolhas, as erradas e as vacilantes. E é uma aula de direção de arte, talvez a mais estonteante do ano vista em um longa-metragem brasileiro. Partindo-se do princípio de que o superpoder principal de seu herói (um rapaz negro açoitado pela opressão racial) é a capacidade de sonhar, temos, de arrancada, uma narrativa libertadora, política e esteticamente. Um diálogo antológico – “Nos seus sonhos, o Sol é sempre quente” – já demarca como obrigatório este estudo metafísico sobre os fantasmas (no sentido literal e no sentido geopolítico) da colonização empreendido pelo diretor Rodrigo Aragão. Consagrado no exterior (mesmo sem ter tido o devido espaço no circuito nacional) com “Mangue Negro” (2008), o cineasta capixaba realiza um feito histórico (em todas as latitudes do termo) em nossa produção audiovisual, ao construir uma espécie de épico do macabro, com um domínio infalível das ferramentas do gênero no qual é um artesão. Divido entre instâncias de tempo distintas, embaralhando memória, alucinação e presente, o realizador narra a chegada do Livro de São Cipriano (literatura capaz de evocar energias das trevas) às Américas pelas mãos de um jesuíta (Renato Chocair, numa medida precisa de loucura) indiferente ao derramamento do sangue alheio. Ao pisar na Pangeia latina, com seu Português quinhentista, ele e seus acólitos exterminam indígenas, usando o ocultismo de Cipriano como palavra de ordem. Destaca-se no bando, numa luminosa atuação, um dublê de Aguirre chamado Homero, vivido por Roberto Rowntree, ator talentoso a quem nossa legião de cineastas já deveriam ter dado mais destaque há tempos. Homero está para este filmaço como Jaws (Richard Kiel), o vilão da mandíbula de aço, estava para a franquia 007: é o braço armado do Mal. Na Ilíada de Aragão, Homero é a mão que balança o berço do demônio da Intolerância, conjurado pelo jesuíta ciprianista. Mas diante de toda a truculência que eles espalham, a Natureza reage, confinando-os Eternidade adentro numa calunga. Eis que, eras à frente, o súcubo de Cipriano vai clamar pela jugular alheia de novo, acossando uma trupe circense que tem o ótimo Francisco Gaspar como guia de seu caminhão. Não por acaso, só um sonhador, Jorge (Diego Garcias), pode fazer frente às ordenanças do Limbo.

O cineasta Rodrigo Aragão, de óculos, dirige o ótimo ator Roberto Rowntree – Imagens de divulgação

Na tela, a caracterização que Aragão dá ao circo evoca a peça teatral “Vem Buscar-Me Que Ainda Sou Teu”, de Carlos Alberto Sofredini (1939-2001), uma espécie de ode aos grupos mambembes de um Brasil interiorano. Todo o trabalho do diretor de arte Eduardo Cardenas (e que trabalho!) dialoga com esse histórico do circo-teatro, com a caracterização das companhias itinerantes de diversão sob lona. Ao mesmo tempo, ela dialoga também com o legado de José Mojica Marins (1936-2020), o Zé do Caixão, a quem o longa é dedicado. Hábil em bruxulear aquilo que precisa nos levar ao medo e a escancarar o que nos encaminha ao gore, a fotografia de Alexandre Barcelos valoriza os detalhes do trabalho de Cardenas, alcançando seu apogeu no momento em que uma população ancestral, liderada pelo Pajé Nauru (Markus Konká), reage contra o totalitarismo dos colonizadores de Cipriano. É uma insurreição enraivecida capaz de evocar de “Apocalypto” (2006) a “Bone Tomahawk” (2015), dois cults onde a Maldade caminha entre civilizações exterminadas pelos avanços coloniais. Avanços estes aos quais Aragão, perspicaz, dá tanto a carne do eurocentismo quanto do fundamentalismo religioso, utilizando o talento GGG da atriz Clarissa Pinheiro no papel da fiel Imaculada. Ainda sem data de estreia anunciada, “O Cemitério das Almas Perdidas” é um dos mais genuínos mergulhos nas lendas e nas mitologias fundadoras deste país, expresso como cinema das mais rigorosa lavra.

p.s.: Sucesso dos palcos brasileiros, o espetáculo “Nefelibato” terá exibição online nos dias 12, 19 e 26 de setembro, às 21h. Com direção de Fernando Philbert e supervisão artística de Amir Haddad, monólogo narra a trajetória de um homem que vai morar nas ruas após os efeitos devastadores da crise econômica nos anos 90. Vivido pelo ator Luiz Machado, Anderson oscila entre a lucidez e a loucura – ele hoje é apenas a sombra de um homem outrora bem-sucedido, mas que perdeu tudo: sua empresa, todas as suas economias, o grande amor da sua vida e um parente querido. Os ingressos estarão disponíveis na plataforma IClubbe (www.iclubbe.com/nefelibato). Com 25 anos de carreira (incluindo teatro, TV e cinema), Luiz Machado tem em “Nefelibato” o primeiro monólogo. “Anderson é alguém que vive situações limite. Um equilibrista no fio tênue entre lucidez e loucura, vida e poesia”, diz o ator.

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