CD de Johnny Hooker é um atestado de ousadia musical

CD de Johnny Hooker é um atestado de ousadia musical

Rodrigo Fonseca

02 Julho 2016 | 12h26

Johnny Hooker

Ebó para pragas de (des)amor, o CD Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! serve como consolidação para uma das obras mais ousadas – e poéticas – da cena musical brasileira hoje, tendo Johnny Hooker como bardo-bandeira de uma sexualidade (tanto faz se homo ou hétero) que anda cada vez mais reticente na Arte Brasileira. Na noite de sexta-feira, a Lapa acolheu o show-cabaré deste performer vocal da fossa amorosa – mistura de Iggy Pop e Maysa em gestos e plumas de Ney Matogrosso – e viu o Circo Voador virar um terreiro para reinvenções de Purple Rain e Garçom, numa releitura pop – e triste. Ideal para dores de cotovelo, desapegos ou queimações internas, o disco do cantor pernambucano soma atabaques de Santo a poemas de timbre castroalvista retratando o coração como um navio negreiro. Da canção de descarrego que dá nome ao álbum à mariabethanística Segunda Chance, a bolacha carrega nas tintas da ressaca, criando uma experiência sensorial caudalosa. É dele a faixa que alimentou a potência-carícia de Tatuagem (2013), um dos melhores filmes brasileiros da década: Volta. Alguém faça o favor de emprestar a discografia de Roberto Ribeiro a Hooker. Se esse gajo gravar Partilha… aí a jira abre para a MPB.