CCBB revisita o monumental Hong Sang-soo

CCBB revisita o monumental Hong Sang-soo

Rodrigo Fonseca

07 de julho de 2021 | 13h41

Hong Sang-soo com a láurea de melhor direção de Berlim, em 2020 – @Berlinale

Rodrigo Fonseca
Numa peleja invejável para manter a cinefilia viva, preservando suas mostras de vozes autorais do audiovisual em esquema presencial, sem aglomeração, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) abre sua telona para um dos mais prolíficos realizadores do nosso tempo: o sul-coreano Hong Sang-soo. A abertura, às 17h30, desta tarde, ficou por conta de “A Mulher Que Fugiu”, pelo qual ele ganhou o Urso de Prata de melhor direção na Berlinale de 2020, das mãos de Kleber Mendonça Filho, realizador de “Aquarius” (2016) e então jurado na Alemanha. Todo ano tem longa-metragem novo de Hong (cujo sobrenome comumente é grafado Sangsoo)… às vezes dois… como é o caso de 2021. Em março, ele ganhou o prêmio de melhor roteiro na Berlinale, com “Introduction”, e já está em Cannes, com um trabalho inédito: “In Front Of Your Face”. Batizada de “Encontros à deriva”, a mostra do CCBB exibirá 24 longas do diretor (que hoje tem 60 anos), em 36 sessões, permitindo o acesso do público brasileiro a obras aclamadas pela crítica, mas raras no circuito comercial. A curadoria é de Isabel Veiga, Samuel Brasileiro e Vitor Medeiros, que fizeram na Caixa Cultural a belíssima mostra “A Repetição da Vida”, também sobre esse artesão das cartografias afetivas. Eles agendaram dois debates online: 1) “Entre a indústria sul-coreana e os festivais de cinema: reflexões em Hong Sang-soo”, com Eduardo Valente e Daniela Mazur, marcado para o dia 21/07, às 19h30; 2) “A escritura fílmica de Hong Sang-soo”, com Leonardo Bonfim e Hernani Heffner, marcado pro dia 28/07, às 19h30.
“Não sei dar explicações mais genéricas sobre as atitudes das personagens. Eu não trabalho com definições ou parâmetros. Eu apenas sigo sentimentos”, disse Sang-soo ao P de Pop em Berlim. “Eu resolvo a montagem dos filmes já na rodagem. Já sei o que entra e o que sai”.

Depois de estrear no CCBB do Rio de Janeiro, a retrospectiva segue para o CCBB de São Paulo (de 11 de agosto a 6 de setembro) e de Brasília (de 21 de setembro a 17 de outubro). Nesta quinta, às 17h30 , os cariocas conferem, “O Dia em que o Porco Caiu no Poço” (1996) e, na sexta”, também às 17h30, tem “Mulher na Praia” (2006). Sábado rola sessão dupla, com “A Filha de Ninguém” (2013), às 14h30, e “A Câmera de Claire” (2007), às 17h. Para domingo ficaram dois dos títulos mais aclamados dele: às 14h30, tem “Na Praia à Noite Sozinha”, que rendeu à sua habitual colaboradora, Kim Min-hee, o prêmio de melhor atriz na Berlinale de 2017; e às 17h, rola “Hahaha”, prêmio Un Certain Regard de 2010.
“O que me perguntam sobre processo, eu respondo como observação. Apenas isso. Quando você cria com base em um princípio prévio, amparado em um projeto teórico, o que se faz é repetir o que se ouviu e o que se viu no passado, sem estar aberto ao momento. E eu só sou o que vivo no meu momento presente. Não serei mais como hoje amanhã. Não sou hoje como era ontem”, disse o cineasta na Berlinale de 2017.
Reclames da mostra explicam: “Com uma linguagem minimalista, utilizando personagens banais, que vivem situações corriqueiras, o cinema de Hong flerta com o absurdo. Ainda que cada filme tenha características particulares, todos lidam com o mesmo universo e possuem uma estética muito parecida, como se cada obra fosse um novo episódio de uma interminável série sobre a ternura dos fracassos e a improbabilidade dos encontros. Hong criou seu próprio método de produção, que opera às margens da indústria audiovisual local, contando com mínima estrutura e baixíssimos orçamentos”. A equipe curatorial destaca que dois filmes podem ser assistidos também na plataforma Looke, de 2 a 8 de agosto: o já citado “Na Praia à Noite Sozinha” e “Certo agora, Errado Antes”, que ganhou o Leopardo de Ouro em Locarno, em 2015.

“A Mulher Que Fugiu” (2020) abre a mostra no CCBB-RJ

“Introduction” virou o primeiro fenômeno da competição oficial de Berlim, em maço. Não poderia se esperar situação distinta de um longa-metragem pilotado por Sang-soo, um dos mais aclamados e um dos mais prolíficos realizadores do planeta na atualidade. Ele entrou no páreo do Urso de Ouro com um filme de 66 minutos, fotografado num preto e branco que jamais desequilibra no balanço cromático (sem cair para as sombras e sem esturricar) sobre um rapaz que sai da Coreia do Sul e vai até a Alemanha visitar a garota por quem está apaixonado. Mas isso é apenas um mote para um procedimento padrão do realizador de cults como “Você e os Seus” (melhor direção em San Sebastián, em 2016) no qual pessoas se encontram, bebem e falam sem parar sobre coisas simples da vida. E, de simplicidade em simplicidade, ele monta uma espécie de Comédia Humana a partir dos nossos sentimentos mais alquebrados. Aqui, há outro fator, cada vez mais ausente nas telas, dada a patrulha da correção política: o cigarro. Fuma-se muito ao longo de uma hora e seis minutos de projeção. A cada baforada surge um desabafo, um elogio, uma sequela de uma solidão que parece não caber no peito.

Classificado por alguns como mestre e por alguns como um repetidor de rizomas, que faz equações matemáticas e não filmes, Hong Sangsoo confirmou a fase de bonança de seu país nas telas ao conquistar o prêmio de melhor direção na própria Berlim, em 2020, por “The Woman Who Ran”, ainda inédito aqui. Sua vitória em solo alemão veio vinte dias depois de a Coreia do Sul ter levado quatro Oscars para casa, apoiado na engenharia narrativa de Bong Joon-Ho e seu “Parasita”. Uma história construída nos trópicos de uma trivialidade aparente, como tudo o que ele faz.
“Introduction” tem tudo o que os longas anteriores dele traziam: falatório, comilança e carraspana. É um ritual comum. A diferença aqui é o peso do passado e o peso da juventude, que se confrontam num embate de vivência.

Na trama do longa, o rapaz que viaja da Ásia para a Europa atrás de uma namorada não tem nenhuma outra certeza do que quer ou do que precisa. Ele gosta e se deixa impelir por esse gostar. Mas em sua trajetória há um ator famoso que cruza seu caminho para tomar uns tragos. O ator é muito preocupado com o fato de um rapaz beber. Essa preocupação espelha o que ele já perdeu pro álcool e por escolhas sem qualquer temperança. O que Hong Sangsoo faz aqui é colocar esses dois extremos da experiência lado a lado e ver como um completa o outro. Para o espectador sobre a delicada experiência de ver como um adulto muito vivido areja seus pesos e seus fantasmas tentando aconselhar um garotão a dimensionar os pesos do presente e o peso do amanhã. É uma troca que Sangsoo desenha no lápis da delicadeza, como sempre.

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