CCBB revisita a carreira de Robert De Niro no que promete ser a mostra do ano

CCBB revisita a carreira de Robert De Niro no que promete ser a mostra do ano

Rodrigo Fonseca

11 de junho de 2019 | 10h48

Robert De Niro em cena de “Desafio no Bronx”, que marcou sua estreia como diretor, em 1993

Rodrigo Fonseca
Vai ter homenagem no Centro Cultural Banco do Brasil para Robert De Niro, começando no dia 25 de junho na filial de Brasília, e no dia 26, na sede do CCBB no Rio de Janeiro, como um balanço de cinco décadas (e meia) de carreira do ator nova-iorquino, que, aos 75 anos, está  prestes a voltar às telas à frente do novo filme de seu bom companheiro Martin Scorsese: o thriller de máfia “The Irishman”. Estima-se que o 76º Festival de Veneza (28 de agosto a 7 de setembro) vá projetar o longa-metragem, desenvolvido sob a grife Netflix, mas com circulação por cinemas já assegurada. Enquanto esta produção, a ser traduzida por aqui literalmente como “O Irlandês”, com Joe Pesci, Harvey Keitel e Al Pacino ao lado do veterano astro, não chega ao país, é possível entender o que tornou De Niro um mito a partir da seleção organizada pelo crítico Paulo Santos Lima, que tem feito um trabalho precioso de curadoria. Vieram dele as preciosas mostras O Cinema Paulista da Retomada e  Jerry Lewis, feita a quatro mãos com o igualmente ninja Francis Vogner dos Reis. No RJ, a abertura do evento, que segue até 15 de julho, fica dividida entre “Cabo do medo” (1991), do já citado Marty, e “Olá, Mamãe!” (1970), de Brian De Palma.

Em dezembro, o P de Pop encontrou com De Niro no Marrocos, quando ele foi homenageado pelo Festival de Marrakech, onde concedeu uma palestra sobre sua história na arte de atuar. A mediação ficou por conta da cineasta e atriz francesa Maïween, a quem o astro de “Taxi driver” (1976) conferiu o prêmio especial do júri de Cannes, em 2011, pelo longa-metragem “Políssia”, quando presidiu o júri da Palma de Ouro – esta ficou com “A árvore da vida”. No palco de Marrakech, onde Scorsese concedeu a ele um troféu honorário, o que se propôs a ser um jogo de perguntas e respostas sobre vida e obra virou um estudo sobre o que significa ser ator, em Hollywood e em qualquer canto do planeta.

Muitas vezes, um ator recebe um convite para filmes que ele, de cara, percebe não ter muito potencial de qualidade. Mas é trabalho. Há contas a serem pagas. E mesmo sem elas, é preciso ter compromisso ético com o que vai para tela, pois o espectador percebe o que é genuíno. A direção pode ser ruim, a trama fraca, a fotografia equivocada… mas nada disso é desculpa pra que se atue mal. O público pode reconhecer, num filme ruim, um grande trabalho. Basta você se empenhar… empregar sua verdade… Um soldado no quartel quer guerra”, disse De Niro a plateia, sorrindo apenas de nervoso, aqui ou ali, com alguma lembrança ou diante de alguma provocação de Maïwenn. “Gentileza é parte do que torna um diretor um bom cineasta. Jamais estive num set em que um realizador fosse grosso comigo ou com algum colega. Mas se eu visse um cineasta tratar um ator mal, acreditando que, ao desestabilizá-lo, ele possa atuar melhor, eu abordaria esse diretor, com jeitinho, e falaria: ‘as coisas não funcionam assim’. O drama deve estar nas páginas do roteiro, não impresso no set”.

Este ano, De Niro será visto ao lado de Al Pacino no novo longa-metragem de Martin Scorsese, o thriller de máfia “The Irishman” (“O Irlandês”), idealizado para a Netflix

Laureado com dois Oscars, De Niro não é do tipo de artista que conta causos sobre seu passado: é reservado, sorri pouco, carrega sempre um jornal consigo, para se atualizar das notícias de seu país e, segundo disse Scorsese a Marrakech, “entrou naquela idade em que telefona aos amigos para falar das novas dores em seu corpo”. Em 2019, ele estrelou a comédia “War with grandma”, na pele de um vovô aloprado, e está no elenco do esperado “The Joker” (“Coringa”), o filme sobre o Palhaço do Crime, o inimigo do Batman, com Joaquin Phoenix no papel central. E tem a ideia de rodar um documentário sobre sua mãe, Virginia Admiral (1915-2000), uma pintora e professora.

Tem muito diretor que faz curso de arte dramática para lidar com atores. O que eu tento fazer ao dirigir é não atrapalhar o que meu elenco”, disse De Niro, ao ver projetadas em Marrakech cenas de “Desafio no Bronx”, que ele dirigiu há 26 anos, sobre um gângster (vivido por Chazz Palminteri) que deseja apadrinhar um rapaz. “Donald Trump gostaria de ser como o personagem do Chazz nesse filme: alguém que assusta, mas tem um código de honra”. É um dos longas que Santos Lima programou no CCBB, com sessão no dia 27 de junho.

Alfinetadas como esta têm sido comuns nas referências públicas que o ator faz ao presidente dos EUA. No dia em que recebeu de Marrakech a Estrela de Ouro Honorária, honraria em paga de seus serviços prestados à arte, ele reagiu com uma crítica ao líder americano. “Vivemos sob um populismo em sua forma mais perigosa”, atacou o ator, que pode estar ainda no elenco de um projeto reunindo Sharon Stone e Meryl Streep sob a direção de Scorsese.

Tendências: