CCBB abre o baú de Terry Gilliam

CCBB abre o baú de Terry Gilliam

Rodrigo Fonseca

05 de janeiro de 2022 | 14h00

Um dos integrantes do grupo humorístico Monty Python, o diretor Terry Gilliam ganha retrospectiva de sua obra no CCBB-RJ

RODRIGO FONSECA
Às 16h30 desta quarta-feira, uma sessão no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio (CCBB-RJ) com os curtas-metragens “Storytime” (1968), “O Milagre do Voo” (1975), “The Crimson Permanent Assurance” (1983), “A Lenda de Hallowdega” (2010) e “The Wholly Family” (2011) inaugura a mostra “Terry Gilliam – O Onírico Anarquista”, que fica em cartaz até 31 de janeiro. Com 28 produções em sessões presenciais, em formato digital, além de atividades paralelas online, a programação, toda gratuita, foi arquitetada sob a curadoria do diretor, produtor, roteirista, escritor e crítico de cinema Eduardo Reginato e do cineasta e editor Christian Caselli. Aos 81 anos, Terrence Vance Gilliam foi um ávido leitor da revista “Mad” e um fã de “Glória Feita de Sangue” (1957), de Stanley Kubrick (1928-1999), que começou a carreira fazendo animações e cartuns antes de integrar a trupe de humor Monty Python. Gilliam aparece como ator no primeiro longa a ser exibido na retrospectiva: “E Agora Para Algo Completamente Diferente” (“And Now for Something Completely Different”, 1971), de Ian MacNaughton. Nos anos seguintes, com e sem os MPython, o realizador dirigiu pérolas como a Trilogia Americana, com “O Pescador de Ilusões” (ganhador do Leão de Prata em Veneza, em 1991), “Os Doze Macacos” (indicado ao Urso de Ouro em 1996) e “Medo e Delírio” (indicado à Palma de Ouro em 1998). Todos estarão no festival, que agendou pro dia 23, às 14h30, uma sessão do longa mais recente do cineasta: “O Homem Que Matou Dom Quixote” (2018).
“Quixote é um herói na medida em que desafia o conformismo para realizar seu sonho. Ele seria capaz de inventar um gigante se precisasse combater um”, diz o diretor, que teve seu périplo para rodar a saga do Cavaleiro da Triste Figura registrada no documentário “Lost in La Mancha”. “Don Quixote é como uma doença que fica dentro de nós”.

Jonathan Pryce e Adam Driver nas veredas de Cervantes

Nascido em terras ibéricas, em Alcalá de Henares, em 1547, e morto em Madri, em 1616, o espanhol Miguel de Cervantes é considerado por muitos teóricos de literatura como o pai da metalinguagem na prosa, sendo classificado ainda como o responsável pela mais festiva alegoria da loucura na ficção ocidental: Don Quixote e seu criado, Sancho Pança. Por isso, só um louco teria condição de levar o Homem de La Mancha aos cinemas com um grau de vertigem tão potente quanto o do texto de seu autor, o que é o caso de Gilliam. Único integrante do Monty Python (grupo responsável pela reformulação da comédia inglesa nos anos 1970 e 80) a ter nascido nos EUA, Gilliam comeu o pão que o Diabo não quis e Cervantes amassou para tirar do papel “The Man Who Killed Don Quixote”, filme de encerramento do 71. Festival de Cannes, terminado no dia 19 de maio de 2018.
Respeitado como diretor por sucessos como “Brazil, o Filme” (1985), Gilliam levou 25 anos para filmar e concluir o projeto. Perdeu financiamentos, viu dois dos atores que escolheu morrerem (Jean Rochefort e John Hurt), foi processado por seu produtor, o português Paulo Branco. Porém, mesmo com tanto nunca abriu mão do bom humor nem de sua perseverança: “Se este filme sair, vou voar de asa delta pelado pela Europa”, prometeu ele, em 2000, quando tentou começar as filmagens.
Em 2016, com a adesão do astro Adam Driver (o neto de Darth Vader na franquia “Star Wars”), veio o sinal verde. A espera de um quarto de século valeu: de Cervantes ele extraiu um filmaço. “Filmar Quixote é jogar luz sobre a razão que leva todos os contadores de história do presente a trabalhar: a oportunidade de brincar com a imaginação e desafiar as fronteiras do Real que nos margeiam. Quixote é um idealista que celebra a palavra como combustível de invenção”, diz o diretor ao Estadão em Cannes, lembrando que teve seu périplo para rodar a saga de Quixote registrada no documentário “Lost in La Mancha”.
Projetada em Cannes logo após a entrega da Palma de Ouro de 2018 a “Assunto de Família” (“Shoplifters”), do japonês Hirokazu Kore-eda, “The man who killed Don Quixote” driblou uma ação judicial que quase tirou seu posto de filme de encerramento do mais prestigiado festival de cinema do mundo. Paulo Branco processou Gilliam por malversação de verbas, mas perdeu. Não por acaso, esta dionisíaca releitura do clássico de Miguel de Cervantes é aberta com uma cartela de texto comentando a ação nos tribunais: “Os produtores não sairão prejudicados daqui”. Tem outra comemorado sua realização, onde se lê, com humor: “enfim… depois de 25 anos de acertos e desacertos…”. Assim começa a jornada pela cabeça de Quixote. Uma jornada que rachou opiniões.

Gilliam da instruções a Driver ao filmar a saga do Cavaleiro da Triste Figura

Definido por alguns como um equívoco sem um pingo de graça e por outros como uma obra-prima, “The man who killed Don Quixote” é uma releitura livre, e pop, do texto de Cervantes com uma direção de arte magistral. Impressiona a atuação (digna de Oscar) de Adam Driver como um Sancho Pança dos novos tempos, o cineasta Toby. Escolhido para encarar a armadura do Cavaleiro da Triste Figura, Jonathan Pryce esbanja romantismo como Javier, sapateiro de uma vila espanhola que, anos atrás, viveu Quixote no filme de conclusão de curso de Toby (Driver, em brilhante atuação). No momento em que volta à Espanha, a fim de rodar um comercial, Toby se vê impelido a voltar às raízes. Por isso decide encontrar Javier, que, tomado pelo contato com as artes, passou a crer que é o próprio Cavaleiro da Triste Figura. Javier pensa que é Quixote e vê em Toby seu Sancho ideal, arrastando o garoto para lutar contra os gigantes do mundo de hoje. Gostando-se ou não dos caminhos tomados por Gilliam, não há como negar o quanto o realizador de “O Pescador de Ilusões” (1991) se recicla como narrador nesta empreitada pelo mundo da fabulação.
“Existem histórias que servem de bússola ao mundo”, disse Jonathan Pryce ao Estadão, em Cannes. “Quixote é uma delas”.

p.s.: O musical “Pimentinha – Elis Regina para crianças” estreia neste sábado, dia 8 de janeiro, no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea. Esta é a sexta peça do projeto Grandes Músicos para Pequenos, que já levou mais de 200 mil pessoas ao teatro e soma 14 prêmios de teatro infantil. Com direção de Diego Morais, direção musical de Guilherme Borges e texto de Pedro Henrique Lopes, o espetáculo é inspirado na infância de Elis Regina e reúne sucessos da carreira da cantora como “Fascinação”, “O Bêbado e a Equilibrista”, “Madalena” e “Como nossos pais”. No elenco, estão Jullie, no papel-título, Erika Riba (Dona Ercy), Lucas da Purificação (Jairzinho), Stephanie Serrat (Diva), Layla Paganini (Produtora) e Pedro Henrique Lopes (Adelino Junior e Adelino). Sessões aos sábados e domingos, às 16h. Ingressos pelo Sympla: https://bileto.sympla.com.br/event/70864.

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