Cavalgada antimachista anima festival francês

Cavalgada antimachista anima festival francês

Rodrigo Fonseca

14 de janeiro de 2022 | 12h47

“Calamity, une enfance de Martha Jane Cannary” foi premiado em Annecy em 2020

Rodrigo Fonseca
Ao largo da realização do 24º Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, um fórum internacional, agora online (desde 2021, à força da pandemia), focado na promoção de longas-metragens ainda inéditos da terra de Truffaut, um outro evento, em forma de mostra, também via web, aberta ao público, é articulada na internet pelos mesmos organizadores, utilizando o nome MyFrenchFilmFestival. Quem cuida dessa articulação é a Unifrance, o órgão do Ministério da Cultura francês, dedicado a fomentar a circulação dos longas-metragens feitos em Paris, Nice, Lyon e arredores Atlântico afora, indo pelo Índico e o Pacífico, a fim de combater a hegemonia de Hollywood. É ela quem alimenta o https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt, com direito a premiações por júri oficial e júri popular, com curtas e longas. A seleção deste ano vai apresentar pérolas como “Calamity, une enfance de Martha Jane Cannary”, animação de Rémi Chayée. É um finíssimo exemplar da força da animação francesa. Seu título de trabalho aqui ficou “Calamidade”.
Laureado com o troféu Cristal de melhor filme no Festival de Annecy (a Cannes do setor), em 2020, o longa mostra a pequena Calamity, então chamada de Martha, como sendo uma menina corajosa que aprende a domar o machismo de seus contemporâneos ao se destacar em tarefas antes vetadas às mulheres. A trilha sonora de Florencia Di Concilio é um achado. “Tentei construir a jornada histórica de uma garota pobre que resiste às adversidades e busca criar seu próprio legado, à sua maneira, combatendo o machismo”, disse Chayé ao P de Pop. “É a releitura de um ícone”.
Nessa frase ele se refere não apenas ao quão icônica Calamity foi para o Oeste dos EUA, mas para o cinema. Doris Day (1922-2019) esmagou muitos corações, lotou muitos cinemas e duelou contra mil práticas machistas quando encarnou a vaqueira Calamity Jane em “Ardida Como Pimenta” (1953), faroeste farofa coroado com o Oscar de melhor canção para “Secret Love”. Já nos anos 1960, foi a vez de os quadrinhos se apaixonarem Martha Jane Canary-Burke (1852-1903), uma amazona sem par, cujas habilidades no laço, na cavalgada e no gatilho eram incomparáveis. Em 1967, René Goscinny (1926-1977) e Morris (1923-2001) levaram-na para o universo do xerife Lucky Luke, num álbum de enorme sucesso de vendas, onde ela chamou a atenção por suas cusparadas, numa desconstrução de um arquétipo do macho do western.

Na década de 1990, Calamity teve uma nova ribalta ao ser vivida por Ellen Barkin em “Wild Bill, Uma Lenda No Oeste” (1995), de Walter Hill, ao lado de Jeff Bridges. E, agora, essa lenda do tempo das diligências revive nas telas da Europa por meio do MyFrenchFilmFestival.
“Sou cria das HQs. Cresci frequentando uma biblioteca pública onde ia ler quadrinhos e descobri o Oeste por meio de ‘Tenente Blueberry’, de Moebius, e da obra de Hermann. A França sempre investiu muito em quadrinhos de bangue-bangue, por conta da influência pop do gênero entre nós. Aliás, a Europa toda era fã do filão, com séries alemãs de western e o faroeste spaghetti dos italianos. Mas quando resolvi criar uma história de formação na infância de Calamity, preferi abrir mão daquilo que o western tem de mais sexista: a recorrente ideia de vingança. Seria monolítico investir em mais uma história de revanchismo”, disse Chayé em entrevista ao Correio da Manhã. “Mesmo o filme com a Doris Day não foi uma referência, apesar de seu estilo queer ser interessante como transgressão, para o padrão dos anos 1950 no cinema de Hollywood. Eu caminhei por outra linha do Oeste, usando como referência ‘Mais Forte Que a Vingança’, do Sydney Pollack, em seu estudo sobre a solidão e sobre a relação de um indivíduo solitário com a Natureza. Partir muito da percepção de que existem westerns que são feministas e que seguem uma linha mais psicológica. Minha ação está no Oeste, mas meu pensamento, não. Ele está na jornada de uma menina e como ela cresce em um terreno hostil”.

Fora do MyFrenchFilmFestival, participam do Rendez-vous da Unifrance deste ano os longas “Petite Solange”, de Axelle Roppert; “A L’Ombre Des Filles”, de Étienne Comar; (o extraordinário western queer) “After Blue (Paradis Sale)”, de Bertrand Mandico; “Suzanna Andler”, de Benoît Jacquot; “Petite Fleur”, de Santiago Mitre; “A Fratura” (“La Fracture”), de Catherine Corsini; “Titane”, de Julia Ducournau (que conquistou a Palma de Ouro); além do ganhador do Leão de Ouro do ano passado: o tenso drama “L’Événement”, em que a cineasta Audrey Diwan denuncia a criminalização do aborto na Paris dos anos 1960.
Tudo está sendo feito via Zoom, pela segunda vez desde a gênese do evento, por conta da pandemia. Já na abertura, um dos maiores campeões de bilheteria da Europa, o parisiense François Ozon (de “8 Mulheres”), mobilizou a imprensa para falar do ainda inédito “Está Tudo Bem” (“Tout s’est bien passé”), exibido no Rio no Festival Varilux, em novembro. Nele, Sophie Marceau é uma escritora que lida com o desejo do pai, André Dussollier, vítima de um AVC, de se despedir deste mundo por meio de uma eutanásia. Ozon virou “o” assunto dos franceses no setor cinematográfico por ter sido escolhido para abrir a Berlinale, no dia 10 de fevereiro, com “Peter von Kant”, seu novo longa, com Isabelle Adjani e Denis Menochet.

p.s.: Depois de bombar na audiência com “John Wick 2” e “Coringa”, o “Festival Ano Novo” da TV Globo segue com sua curadoria impecável, apostando na adrenalina, com “Invasão ao Serviço Secreto” um sucesso que Hollywood não esperava. Sucesso que estreia nesta quinta no Brasil, após ter faturado US$ 130 milhões mundo. Orçada em US$ 40 milhões, a feérica produção batizada originalmente de “Angel Has Fallen”, é a terceira parte de uma franquia inaugurada em 2013, cujo faturamento beira US$ 1 bilhão, apoiada no carisma (nem sempre infalível) do cinquentão escocês Gerard Butler, o Rei Leônidas de “300” (2007). Dublado aqui por Affonso Amajones, ele repete (de modo glorioso) o papel do agente Mike Banning, antes envolvido com terroristas na alta cúpula do Poder dos EUA (em “Invasão à Casa Branca”, lançado há nove anos) e com antipatizantes do presidente americano na Inglaterra (“Invasão a Londres”, de 2016). Agora, Banning é convocado pelo líder dos Estados Unidos (Morgan Freeman) para comandar a Segurança de sua pátria. Mas um atentado feito com drones (numa sequência regada a adrenalina e bom gosto) deixa a vida do estadista por um fio e acaba com a reputação de Banning, que passa a ser considerado um traidor. A fim de provar sua inocência, ele foge e sai atrás dos culpados, contando com a ajuda de um ermitão violento: o Sr. Clay, pai com quem não falava há anos. O papel coube a Nick Nolte, bem dublado por Mauro Ramos. A exibição na Globo começa após “Um Lugar Ao Sol”, ali pelas 22h30.

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