‘Casa de Antiguidades’ vai a Pingyao

‘Casa de Antiguidades’ vai a Pingyao

Rodrigo Fonseca

30 de setembro de 2020 | 16h11

Antonio Pitanga é o rosto que leva a indignação de “Casa de Antiguidades” contra o racismo para o mundo

Rodrigo Fonseca
Festival mais importante da China na atualidade, construído sob a grife cuidadosa de Jia Zhangke, Pingyao escalou o Brasil para brigar por prêmios uma vez, em sua mostra principal, a seleta Crouching Tigers, onde “Casa de Antiguidades”, de João Paulo Miranda Maria, vai concorrer, de 10 a 19 de outubro, incluindo mais um pouso nobre em sua rota de consagração. Há sete dias, este inventário das cicatrizes do racismo silenciou salas de projeção em San Sebastián, no norte da Espanha, na disputa New Directors. Antonio Pitanga é seu protagonista e vem brilhando pelo mundo no papel de um funcionário de um laticínio acossado pela brutalidade racial. Na mesma sessão concorrem longas-metragens estrangeiros cercados de badalação como “Preparations To Be Together For Na Unknown Period Of Time”, de Lili Horvát (Hungria) e “Milestone”, de Ivan Ayr (Índia). Vai ter produção nacional ainda nas projeções de gala: “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, que disputou o Urso de Ouro em Berlim, em fevereiro.
Homenageado em janeiro, ao lado de sua filha, Camila, na Mostra de Tiradentes (MG), e hoje bem preparado para dirigir um filme sobre a Revolta dos Malês (nome do levante de africanos muçulmanos contra a escravidão), Antonio Pitanga vê sua carreira de ator, iniciada há 60 anos, ganhar um novo e internacional ânimo com a luminosa trajetória planeta afora de “Casa de Antiguidades”. Chancelado com o selo de Cannes e aclamado em Toronto (de onde saiu badalado como um possível concorrente a Oscars), o longa-metragem – originalíssimo na representação da violência racial – fez uma arrebatadora estreia, na quinta passado, na 68ª edição do Festival de San Sebastián. É o trabalho de maior peso do astro baiano de 81 anos desde sua presença em “A Idade da Terra” (1980), de Glauber Rocha, no qual fazia um Cristo negro. Entre os temas que marcam essa sua consagradora volta às telas, destacam-se o projeto separatista dos estados sulistas, a cultura armamentista (com espingardas nas mãos de crianças) e a analogia da humanidade servil com gado.
Numa narrativa pontuada pelo mistério, Pitanga dá vida a Cristovam, um goiano que leva uma rotina como empregado de um laticínio no Sul do país, entre imigrantes de origem austríaca. Lá, o racismo assola seus passos, de modo cada vez mais opressor, até que um incidente envolvendo uma criança (ou seria um felino) vai despertar seu lado animal. Uma jovem que ele encontrar num bar, Jenifer (Ana Flávia Cavalcanti, em impecável atuação) libera ainda mais seu lado selvagem, o que culmina numa catarse sociológica. Sua direção de arte é um primor.

p.s.: Às 2h da madrugada tem “Ghost – Do Outro Lado da Vida” (1990) dublado na Globo, com Garcia Júnior e Monica Rossi emprestando a voz a Patrick Swayze e a Demi Moore.

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