‘Casa de Antiguidades’, um filme ‘globetrotter’

‘Casa de Antiguidades’, um filme ‘globetrotter’

Rodrigo Fonseca

29 de maio de 2021 | 09h38

Cristóvam (Antonio Pitanga, em brilhante desempenho) é acossado por uma comunidade racista: ator usa todo o cabedal de expressões corporais adquiridas ao longo de seis décadas de carreira em prol de uma atuação que cria perplexidade

RODRIGO FONSECA
Alegoria ferocíssima contra o racismo em institucinalização no Brasil, “Casa de Antiguidades” não para de ganhar o mundo: dia 13 de junho ele será projetado na Cinémathèque de Toulouse, na França, no programa Cinélatino Rencontres. Lá, o longa-metragem de João Paulo Miranda Maria ganhou o Prix Fipresci (Láurea da Crítica, dada pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica) e uma menção honrosa. Estima-se que Cannes, cuja 74. edição vai de 6 a 17 de junho, também vá celebrar a potência deste tenso estudo sobre a barbárie, exibido na Mostra de S. Paulo, mas ainda inédito em circuito.
Cada viagem Globo terrestre afora do longa-metragem dá visibilidade e elogios a Antonio Pitanga, seu protagonista. E isso num momento em que se celebram os 60 anos de “Barravento” (1961), de Glauber Rocha, primeiro filme que o projetou mundo adentro, ao receber a láurea de Ópera Prima, em solo tcheco, no Festival de Karlovy Vary.

Preparando-se para dirigir um filme sobre a Revolta dos Malês (levante de africanos muçulmanos contra a escravidão), Pitanga vê sua carreira de ator, iniciada há seis décadas, ganhar um novo e bem-vindo ânimo com a contínua consagração “Casa de Antiguidades”. Chancelado com o selo de Cannes 2020, aclamado em Toronto, o tenso longa de João Paulo – originalíssimo na representação da violência racial – gerou arrebatamento no 68. Festival de San Sebastián, na Espanha, na seção New Directors. É o trabalho de maior peso do astro baiano desde sua presença em “A Idade da Terra” (1980), do já citado Glauber, no qual fazia um Cristo negro. Entre os temas que marcam essa sua consagradora volta às telas, destacam-se o projeto separatista dos estados sulistas, a cultura armamentista (com espingardas nas mãos de crianças) e a analogia da humanidade servil com gado.

Numa narrativa pontuada pelo mistério, num ambiente avesso à solidariedade, Pitanga dá vida a Cristovam, um goiano que leva uma rotina como empregado de um laticínio no Sul do país, entre imigrantes de origem austríaca. Lá, práticas racistas acossam seus passos, de modo cada vez mais opressor, até que um incidente envolvendo uma criança (ou seria um felino) vai despertar seu lado animal. Uma jovem com que ele tromba num bar, Jenifer (Ana Flávia Cavalcanti, em impecável atuação) libera ainda mais seu lado selvagem, o que culmina numa catarse sociológica que deixou San Sebastián sem palavras. O mesmo efeito há de se repetir em Toulouse.
Merece aplausos a direção de arte meticulosa de Isabelle Bittencourt, capaz de valorizar a estranheza daquela metonímia sul-americana de células nazistas germânicas. O clima plúmbeo no ar, bem destacado na fotografia sem saturações de Benjamín Echazarreta, torna-se ainda mais sufocante graças à montagem de Benjamin Mirguet, que cozinha o suspense na fervura precisa.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.