‘Casa de Antiguidades’ nas telas no dia 21

‘Casa de Antiguidades’ nas telas no dia 21

Rodrigo Fonseca

01 de julho de 2022 | 13h28

RODRIGO FONSECA
Está prevista para 21 de julho a estreia de “Casa de Antiguidades”, um filme de contágio, que dá nó nas nossas certezas morais e exige que se rumine suas poéticas estratégias para flagrar o racismo estrutural do país. E tem Antonio Pitanga em cena em um desempenho que espanta. Batizado internacionalmente de “Memory House”, esse longa-metragem fez parte da seleção de Cannes de 2020, que não teve chance de ser exibida na Croisette em função da pandemia da covid-19, migrando para outros festivais – e que festivais! Só numa triagem rápida pelo IMDB, percebe-se que a ferocíssima alegoria do diretor paulista João Paulo Miranda Maria contra a institucionalização do racismo correu alguns dos mais disputados eventos do planisfério cinéfilo, como TIFF-Totonto, San Sebastián, Pingyao e Thessaloniki. João conquistou o prêmio Roger Ebert de Melhor Cineasta Estreante no Festival de Chicago e seu filmaço ainda rendeu um prêmio de melhor fotografia a Benjamín Echazarreta em Estocolmo. Em Toulouse, o realizador ganhou o Prix Fipresci, Láurea da Crítica dada pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica e uma menção honrosa. A cada viagem globo terrestre adentro, a longa alcança mais visibilidade e colhe mais elogios para Pitanga.
Envolvido com a direção de um filme sobre a Revolta dos Malês (levante de africanos muçulmanos contra a escravidão), Pitanga vê sua carreira de ator, iniciada há seis décadas, ganhar um novo e bem-vindo ânimo com a contínua consagração de “Casa de Antiguidades”. É o trabalho de maior peso do astro baiano desde sua presença em “A Idade da Terra” (1980), do já citado Glauber, no qual encarnava uma versão do Cristo. Entre os temas que marcam essa sua consagradora volta às telas, destacam-se o projeto separatista dos estados sulistas, a cultura armamentista (com espingardas nas mãos de crianças) e a analogia da humanidade servil com gado bovino e caprino.

Na narrativa de “Memory House”, Antonio Pitanga é acossado pelo perigo

Numa narrativa pontuada pelo mistério, num ambiente avesso à solidariedade, Pitanga dá vida a Cristovam, empregado de um laticínio no Sul do Brasil, que trabalha em meio a imigrantes de origem austríaca. Lá, práticas racistas acossam seus passos, de modo cada vez mais opressor, até que um incidente envolvendo uma criança (talvez um felino, ninguém sabe) vai despertar seu lado animal. Uma jovem com que ele tromba num bar, Jenifer (Ana Flávia Cavalcanti, em impecável atuação) libera ainda mais seu lado selvagem, o que culmina numa catarse sociológica que deixou San Sebastián sem palavras.
Merece aplauso a direção de arte meticulosa de Isabelle Bittencourt, capaz de valorizar a estranheza daquela metonímia sul-americana de células nazistas germânicas. O clima plúmbeo no ar, bem destacado na fotografia sem saturações de Benjamín Echazarreta, torna-se ainda mais sufocante graças à montagem de Benjamin Mirguet, que cozinha o suspense na fervura precisa.

p.s.: A boa deste fim de semana no Varilux é “Querida Léa” (“Chère Léa”), de Jérôme Bonnell. Um achado romântico que aposta na crença nietzschiana do “eterno retorno” para cartografar as emoções de um homem apaixonado, Jonas (Grégory Montel, impecável). Ele passa um dia em um bar na frente da casa de sua ex-namorada (Anaïs Demoustier) e acaba formando uma amizade inusitada com o barman, vivido pelo colosso Grégory Gadebois, hoje um dos maiores talentos da França.

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