‘Casa de Antiguidades’ e de indignações

‘Casa de Antiguidades’ e de indignações

Rodrigo Fonseca

24 de setembro de 2020 | 10h53

Tenso, originalíssimo e apoiado em requintada direção de arte, “Casa de Antiguidades” deixou San Sebastián em silêncio pela crueza de seu olhar para o racismo, com brilhante atuações de Ana Flávia Cavalcanti e Antônio Pitanga

RODRIGO FONSECA
Xará do conquistador das Américas, hoje encarado como um pioneiro da morte em massa de povos indígenas, Cristovam, o protagonista do originalíssimo “Casa de Antiguidades”, é um dos mais ferozes signos (em nosso cinema recente) de reação a um processo exploratório que verte pessoas em gado. Mais explícito do a fantasia de boi usada por seu protagonista, impossível. Ele a veste em uma hora de atomização moral plena (e doída) no longa-metragem de João Paulo Miranda Maria, que deixou San Sebastián em silêncio fúnebre, atônita com seu retrato da violência racial brasileira. Só se perguntava, já na saída do Kursaal (o centro nervoso do festival espanhol), “quem é aquele ator com olhar tão avassalador?”. O P de Pop ouviu essa pergunta de umas dez bocas, todas impactadas com a figura de Antonio Pitanga, escalado para viver Cristovam. É, de longe, o melhor trabalho dessa lenda do Cinema Novo, pelo menos desde “A Idade da Terra” (1980). Tão potente quanto a atuação dele é o trabalho da atriz Ana Flávia Cavalcanti (de “Rainha”) no papel de Jenifer, uma jovem que, em sua rotina num bar, é chamada de “onça loura” pela claque machista que afoga sua intolerância em goles de cerveja.

Num filme capaz de adequar mistério e sociologia, sem se afogar em “intelectualices”, desafiando a curiosidade da plateia a cada cena, Cristovam cruza com Jenifer quando seus instintos de bicho estão a um passo de aflorar. Na cidade onde vive, de colonização austríaca, o preconceito que o ronda é praticado por idades variadas, de meninos a anciãos. Em meio a um movimento separatista dos estados sulistas, crianças carregam rifles, imigrantes brancos olham para pessoas negras com brutalidade e patrões enxergam seus empregados como carne a moer. Cristovam trabalha no laticínio Kainz, onde se vê forçado a aceitar uma redução salarial, anunciada por uma funcionária de frieza glacial (o reator nuclear de talento Gilda Nomacce). As hostilidades à volta de Cristovam só aumentam e o afetam, gerando um comportamento algumas vezes bem condenável, sob ecos de machismo.

Em dado momento da trama, um incidente envolvendo uma criança (ou talvez um felino, como a mente fraturada do personagem faz crer) vai empurrar o ronin vivido por Pitanga a uma reação. Reação que deixou San Sebastián sem palavras… sem palavras para dar conta da intolerância que assombra nosso país. Intolerância que abre uma potente parentela entre “Casa de Antiguidades” e “O Homem Que Virou Suco” (1980), de João Batista de Andrade. A conexão vem daquilo que os oprimidos podem gerar, em resposta ao desrespeito, ampliando nossa indignação.

Estruturado a partir de uma atmosfera de suspense crescente, “Casa de Antiguidades” impressionou bem o público europeu também pela direção de arte requintada de Isabelle Bittencourt. É um filme com muito a conquistar, com muita discussão a gerar.

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