Cartoon Network, serelepe tradução de ‘animar’

Cartoon Network, serelepe tradução de ‘animar’

Rodrigo Fonseca

19 de julho de 2019 | 12h29

Fenômeno de popularidade na TV, “O Irmão de Jorel” vai ganhar exibições de gala do Anima Mundi, que segue até domingo no RJ

Rodrigo Fonseca
Internautas estão em festa com a entrada da YouTuber virtual Any Malu, criação do Combo Estúdio, adorada por milhões na www, para a grade do Cartoon Netwook, que está a mil no Anima Mundi, na edição carioca do evento, discutindo e estudando cases de construção de uma teledramaturgia serializada de desenhos (e outras técnicas) no Brasil. Tem novidade à beça vindo pro canal, encarado hoje como um bunker para a preservação da arte de animar à moda brasileira. Em ritmo de micareta audiovisual, o CN promove uma penca de eventos na maior maratona animada da América Latina. Neste sábado, vai ter, por lá, no CCBB- RJ, a exibição de um conteúdo especial da mimosa “O Irmão do Jorel”, uma propriedade brasileira que é febre na televisão. Ele teve uma audiência de mais de 21 milhões de pessoas na TV paga em 2018 (dados do IBOPE). A exibição, chamada “Irmão do Jorel – Edição Especial Alucinante”, é uma junção de histórias em um único enredo, que parece um filme, mas ainda não o é. Quase lá… Esse especial mescla conteúdo da primeira e da segunda temporada do desenho, além de extras feitos para o cinema.   Eis a programação do Cartoon no festival:
“Irmão do Jorel – Edição Especial Alucinante”: 20/07, às 15:30 – CCBB Sala 1, RJ; “Turma da Mônica – Surra de Sansão”: 28/07 às 13:30 – Unibes Cultural, SP; “Irmão do Jorel – Edição Especial Alucinantes”: 28/07 às 19:00 – Unibes Cultural, SP; “Especial Oswaldo”: 28/07 às 17:00 – Unibes Cultural.

Diante desse ritmo serelepe da emissora, Adriana Alcântara, diretora sênior de conteúdo e produção do Cartoon, falou um pouquinho com o P de Pop sobre a parceria com o evento:

“O Cartoon Network é hoje um ecossistema multiplataforma e um de nossos principais objetivos é mesclar, justamente, nossas estratégias do linear com o digital, oferecendo novos espaços de conexão e interatividade com os fãs. Queríamos incluir esse universo de influenciadores no nosso universo, mas o maior desafio seria fazer isso sem o elemento do live action, já que somos 100% focados em animação. Por isso, Any Malu não podia ser mais perfeita. Ela é uma personagem que chega ao Cartoon já com o DNA da marca: é engraçada, divertida, irreverente, original e muito autêntica, por isso foi um caminho muito natural e genuíno”, diz Adriana. “O Anima Mundi é um dos maiores e mais importantes festivais de animação do mundo e uma ferramenta indispensável ao continuo desenvolvimento da  produção nacional. Para o Cartoon Network é um prazer patrocinar e ajudar a viabilizar a edição de 2019. Não poderíamos ficar de fora desse apoio à indústria brasileira e ao público”.

Vai ter uma chuva de novidades no CN nos próximos meses, sem contar a entrada triunfante de Any Malu em 2020. O achado de julho é a “Toontubers League”. É a primeira vez que o Cartoon Network cria uma liga de eSports juntando digital, físico e On-Air no mesmo projeto. Rigby e Mordecai, dois personagens do desenho “Apenas Um Show”, são os gamers oficiais do canal que lideram os embates, que contam também com jogadores reais, como Hagazo, criador do canal Hagazo / hagazodois e do canal Criadores de Conteúdo no Youtube; Thedonato, gamer argentino; Pac, um dos criadores do canal Tazercraft; Kim Bonilha, gamer mexicana; e Swaggron333, gamer do Chile. As disputas acontecem em episódios do desenho, “Toontubers”, no canal do YouTube e na TV, e a grande final será ao vivo no dia 28 de julho em São Paulo, na sede da Webedia. Os competidores jogarão ao vivo e tudo será transmitido no CN e no YouTube, para toda a América Latina.

A YouTuber de imaginação Any Malu

Inaugurado na quarta-feira, no RJ, com salas lotadas, o Anima Mundi 2019 tem um fim de semana inteiro pela frente para dar seu recardo de diversidade, apoiado em um cardápio de 300 filmes de 40 países. Nele, há algumas pérolas, como o misto de .doc, fantasia, HQ e divã “A Cidade dos Piratas”, do gaúcho Otto Guerra, e o longa espanhol “Buñuel en el laberinto de las tortugas”, de Salvador Simó. O primeiro conversa sobre identidade de gênero com a obra da cartunista Laerte. O segundo fala sobre os anos de juventude do diretor de “Um cão andaluz” (1929). Com base numa HQ, o filme de Simó recria os passos do cineasta Luis Buñuel (1900-1983) para voltar a fazer filmes, no início dos anos 1930, após uma confusão com a alta cúpula da Igreja Católica.

Cabe ao Irã o aplauso mais caloroso deste evento, pelo doloroso “Son of the Sea”, vindo da terra de Asghar Farhadi e Jafar Panahi precedido de elogios. Laureado com um prêmio especial no Festival de Annecy, a Croisette da animação, este ensaio sobre o luto é assinado pelo diretor Abbas Jalai Yekta e fala sobre como se acomoda a dor da perda. Nele, o desenho de um guri sapeca representa a fantasmagoria da saudade de um pai que perdeu seu rebento.

O segundo maior aplauso deve ficar com a Espanha de Buñuel. De lá veio o assustador “Um dia no parque”, de Diego Parral (“Un día en el parque”): Um idoso revê o quanto sua juventude… nos anos 2000 (!)… foram melhores do que os dias atuais de um futuro distópico, onde a realidade virtual desconecta pessoas. É uma fábula sobre a alienação digital.

Da Bulgária, veio uma joia que brinca com o universo da música: “Miles”, de Kalina Detcheva. É a história do cotidiano de um gato trompetista às voltas com o ruído que suas notas e suas harmonias geram nos humanos. Mikhail Yosof é o instrumentista responsável pelos arranjos do filme. Também da Europa, mas de terras francesas, veio o contundente “Le Mans 1955”, de Quentin Baillieux, que recria um terrível desastre automobilístico nas pistas de corrida. A França volta a bater um bolão com “Hors Piste”, de Léo Brunel, Loris Cavalier, Camille Jalabert e Oscar Malet. Num hilário exercício com a computação gráfica, um time de estudantes da École de Nouvelles Images narram a rotina dos dois melhores socorristas dos Alpes em meio a uma operação de salvamento onde tudo sai errado. É uma chanchada médica, hilária do começo ao fim.

Quem é fã de desenho animado japonês não pode perder “Invisible”, de Akihiko Yamashita. Artesão do estúdio Ghibli, onde foi integrante da equipe do mítico cineasta Hayao Miyazaki em “A viagem de Chihiro” (2002), o veterano animador de cults como “Chûzumô” (2010) narra neste anime a saga de um homem invisível que tenta se fazer notar, numa grande metrópole, como pode.

De Portugal, o Anima Mundi recebe o premiado “Tio Tomás – A contabilidade dos dias”, de Regina Pessoa. De um detalhismo milimétrico na representação da rotina de um absorto contador e do dia a dia de travessuras de sua sobrinha, este ensaio lusitano sobre o processo de falência existencial carrega todo o lirismo que fez da diretora de “A noite” (1999) uma das maiores animadoras da Europa. Conquistou o Prêmio do Júri do Festival de Annecy, na França, a maior vitrine da animação mundial.

Nas fileiras nacionais, consagra-se o rascante “Selvageria”, de Guy Charnaux, um poema em 2D, baseado nas HQs do genial André Dahmer. Vale um olhar atento para “Apneia”, de Carol Sakura e Walkir Fernandes, do Paraná, que vai concorrer aos Kikitos de Gramado, em agosto. Com uma sutileza singular, este mergulho nos traumas de infância tangência fantasmas de abusos enquanto gera metáforas ligadas a substâncias líquidas, numa relação mãe e filha. Os diálogos transbordam poesia, como se vê em falas do tipo: “Nem sempre quem vai à água te socorrer aprendeu a nadar” ou “Havia um mar dentro da minha mãe; quando eu saí, ela secou”.

Para quem gosta de filme policial, a pedida nacional obrigatória é “Contra-filé”, de Pedro Iuá. Neste thriller com bonecos de resina, um homem ligado ao crime luta para sobreviver à perseguição do submundo, encontrando num açougue  uma possível saída para seus problemas. Diálogos hilários se alternam com situações de extrema tensão, numa narrativa policial com ecos de clássicos do cinema noir, à la Howard Hawks e John Huston. E há uma deliciosa comédia que tira sarro dos programas sensacionalistas do universo da PM e do crime no país: “Isso é o mundo cão”, de Rodrigo EBA, com protótipos de Datena.

Para quem estiver saturado da brutalidade de nosso país, a saída é ver Heatwave”, de Fokion Xenos, da Inglaterra. Soberana no stop-motion, a terra de Sua Majestade aposta em massinha de modelar para mostrar os efeitos de uma onda de calor sobre um grupo de pessoas que tenta curtir um dia de praia. Confira a seguir a grade exibidora do Anima Mundi:

Rio de Janeiro: de 17 a 21 de julho, no Centro Cultural Banco do Brasil (R. Primeiro de Março, 66 – Centro) e Estação Net Botafogo (R. Voluntários da Pátria, 88 – Botafogo);

São Paulo: de 24 a 28 de julho, no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149 – Bela Vista), Petra Belas Artes (R. da Consolação, 2423 – Consolação), IMS Paulista (Av. Paulista, 2424 – Consolação) e Auditório Ibirapuera (Av. Pedro Álvares Cabral – Vila Mariana).

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