Cartografia das poéticas de Eryk Rocha

Cartografia das poéticas de Eryk Rocha

Rodrigo Fonseca

13 de novembro de 2020 | 14h26

Eryk Rocha nas filmagens de “Breve Miragem de Sol”, hoje no Globoplay

Rodrigo Fonseca
Sexta-feira 13 vai passar a simbolizar sorte, pelo menos pro documentário brasileiro, graça à feliz ideia dos curadores Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos de convocar Eryk Rocha para ser o diretor sabatinado pelo seminário Na Real_Virtual desta noite. É a chance de ele refletir sobre sua conexão com as estéticas hispânicas, sobre toda sua multidisciplinaridade (com a Filosofia, as Artes Plásticas, o Teatro) e sobre sua vontade de potência para ser livre de rótulos e amarras audiovisuais. Revelado entre os talentos da Retomada com “Rocha Que Voa”, em 2002, ele disputou a Palma de Cannes de curtas-metragens com “Quimera”, em parceria com Tunga. Desde então foi abocanhando não apenas prêmios (como o troféu Redentor de melhor direção no Festival do Rio 2012, com “Jards”) e não apenas críticas elogiosas: ele conquistou fãs, fiéis a seu empenho de esculpir a forma, sempre unindo poética e política. O papo do NRV rola a partir das 19h, indo até 21h30, na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, sob a produção de Márcio Blanco, arrebanhando uma multidão de espectadores sempre às segundas, quartas e sextas. O evento virou uma celebração da linguagem documental, seara na qual Eryk ostenta uma vitória digna de loas: em 2016, graças à delicadeza no jorro memorialístico de seu “Cinema Novo”, ele saiu do Festival de Cannes com um dos mais cobiçados troféus do mundo cinéfilo, o L’Oeil d’Or.

Na ficção, onde estreou em 2010, com o tocante “Transeunte”, Eryk também brilha. Atualmente, ele conquista plateias online na streaminguesfera, via Globoplay, onde se firma, dia a dia, como um ímã de olhares e debates com “Breve Miragem de Sol”. “O ‘Breve…’ estrear no Brasil numa plataforma popular como a Globoplay é uma experiência muita nova para mim”, diz Eryk ao P de Pop. “É a possibilidade de chegar em públicos inesperados, inclusive aos próprios protagonistas, que são os trabalhadores brasileiros encarnados no filme pelos taxistas e as enfermeiras. Essa interação de métodos documentais com o trabalho da ficção é algo que me interessa muito, pois, para além de certos gêneros, o que importa é a linguagem que cada filme persegue”.

Muito há de se falar sobre esta produção – que estreou mundialmente no BFI London Film Festival, em 2019 – no colóquio deste Na Real_Virtual Parte II. “Eryk sabe, de fato e radicalmente, que o som narra… que o som é decisivo para a construção de uma dramaturgia. Sabe que o som não é coadjuvante: no seu entrelaçamento com as imagens, ele também é protagonista”, diz Abrantes. “No seu documentário ‘Campo de Jogo’, de 2015, o trabalho de mixagem, de som + imagem do filme transforma uma bela pelada num campinho de várzea em um espetáculo épico de balé. Sendo mais preciso e evitando o preconceito: a referida pelada era a decisão do campeonato anual de favelas da cidade do Rio de Janeiro. Em ‘Pachamama’, Eryk retoma explicitamente a temática latino-americana – mais especificamente falando, sul-americana -, que estava presente já em ‘Rocha Que Voa’, a partir de reflexões e depoimentos de seu pai, Glauber Rocha. A temática de sua sessão no ‘NA REAL_VIRTUAL Parte 2’ é exatamente essa: ‘Imagens de Nossa América’. O seu ‘Pachamama’, referência à expressão Mãe Terra, Terra Grande, é um road movie em que imagens de câmera-car, feitas entre o Rio de Janeiro – ponto de partida de sua viagem -, o Peru e a Bolívia, pontuam radicalmente, e por longo tempo, a narrativa”.

Abrantes lembra de uma novidade que o próprio Eryk destaca no início do filme: “Ali, pela primeira vez, ele faz integralmente a fotografia de uma obra de sua autoria. E que belas imagens! De resto, é uma evolução inquieta e repleta de novidades, de sua linguagem cinematográfica barroca e instigante”, diz o curador (com Mattos) do mais popular evento cinéfilo de 2020 no país. “Para não dizer que não falei de ficção, tem ainda sua obra ficcional, com destaque para seu último trabalho, ‘Breve Miragem do Sol’. Mas, isso é outra viagem…”.
Há algo de lúdico nessa tal viagem. Veja: com os dedos em riste, em sinal de “tudo joia” pra vida, um anjo da guarda de 10 anos, cujo nome é Mateus, abençoa as avenidas de uma terra sem sol por onde um São Jorge, Paulo, um taxista no empobrecido Rio de Janeiro da década de 2010, ganha seu pão e desenha sua sina em forma de filme. Em “Breve Miragem de Sol”, o pequeno Mateus é filho e farol de seu protagonista, vivido por Fabrício Boliveira nas raias da contenção, nas raias do mínimo, nas raias do insinuar em vez de afirmar… um Fabrício maduro, na marcha da delicadeza. Amor incondicional é o que guia a relação entre o chofer de praça e o menino, nesse drama urbano laureado com três troféus Redentor no Festival do Rio de 2019. Coube a ele as láureas de melhor montagem (pra Renato Valone), melhor fotografia (dada a Miguel Vassy) e melhor ator, para Boliveira. Na trama, o problema do personagem de Fabrício é que a fruição do amor irretrocedível da paternidade tem andado pela radial da metafísica. Os motivos: Mateus viajou para a casa dos avôs; sua mãe anda forçando Paulo a cumprir com sua parte na pensão de maneira mais assídua, para autorizar os encontros deles; e a vida, essa danada, anda no sinal vermelho pra quem vive em solo carioca.
Vassy, fiel fotógrafo de Eryk, desenha essa (nossa) geografia diluindo marcas regionais, dessaturando os excessos, pasteurizando pistas de Zona Norte e Sul, de modo a flagrar que a velha noção de Cidade Partida já não é tão demarcada quanto antes. Partidos estamos todos que aqui vivemos, sem saber que via nos leva à mais violenta das armadilhas: a segregação social. É um caminho bem parecido com o tomado por Eryk em “Campo de Jogo” (2014), com foco em futebol de bairros, porém ainda mais arguto: a geopolítica brasileira hoje planificou suas capitanias hereditárias para a microfísica do Poder. Até num táxi, passageiro se acha donatário do Rei… senhor do seu banco, de toda a viatura, do motorista que o guia. É o que demonstra o grupinho que faz sinal para o táxi de Paulo sem saber se vai para o “Baixo Botafogo” ou para o Jóquei. O abuso rege a forma com que eles se expressam… sempre senhoriais. Mas com Paulo não é assim: seu lado Ogum enfrenta o dragão de uma maldade que extrapola a mais-valia marxista, a maldade do abuso. A cruzada de Paulo é um estudo da vida da noite num RJ pré “uberização”.
“Ruy Guerra, um dos nossos grandes mestres, diz que a ficção é uma realidade que está para acontecer. Gosto de pensar esse entrelaçamento entre um e outro como uma abertura de caminhos de novas realidades”, defende Eryk ao Estadão. “Não podemos simplesmente nos adaptar às terríveis condições de vida que nos são impostas. Ao que chamamos ‘novo normal’ – que, a meu ver, trata-se simplesmente da continuação de um projeto de normatização da desigualdade brutal com o fato novo de não podermos mais respirar juntos. O cinema, a arte em geral, têm esse lugar poderoso, essa capacidade de expandir as realidades. Sinto que num país como o nosso, que está em colapso, desmanchando-se, com a panela de pressão explodindo, nada mais natural que deixar as energias da vida e das ruas afetarem o processo de criação e modularem nossa relação com o mundo. Esse é caso do ‘Breve miragem de sol’, que filmamos em 2017 sob o impacto do golpe de 2016. De lá pra cá nosso país segue nesse labirinto sem fim”.

Fabrício Boliveira no segundo longa de ficção de Eryk

Este ano, Eryk ainda afirmou sua força como produtor na Europa, ao assinar o novo trabalho de sua mãe, a artista plástica e também diretora Paula Gaitán: “Luz nos Trópicos”, exibido na mostra fórum do Festival de Berlim, em fevereiro. Vitor Grazie é o produtor-executivo de Paula nesse épico cosmogônico que encantou Berlim. “Eryk Rocha me impressiona muito pelo apetite cinematográfico que o faz estar sempre na fronteira entre registros, e sempre com um pé no experimental”, diz Carlos Alberto Mattos, curador do Na Real_Virtual com Abrantes. “Seus documentários de viagem, suas crônicas urbanas, seus vídeos de teatro com Zé Celso, tudo carrega essa inquietação do hibridismo e uma busca da sensorialidade”.

No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Susanna Lira e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção, o estudo e o aplauso – como a obra de Eryk.

p.s.: Depois de colorir a comunidade de Heliópolis, em São Paulo, em 2019, o projeto Uma Virada de Cores, que promoveu oficinas gratuitas de grafite (ou graffiti, como os adeptos dizem) para mais de 500 jovens, está de volta, agora em formato 100% online. Nesta nova fase, será lançado um kit educacional de graffiti, composto por oito videoaulas e um e-book interativo. Todas as videoaulas são ministradas por grafiteiros e arteeducadores. No dia 19 de novembro, Bruno Perê apresentará técnicas utilizadas no graffiti, como o estêncil, o manuseio correto das latas de spray e como fazer diferentes estilos de letras. As aulas acontecerão no canal do youtube da Associação de Intercâmbio Sociocultural e Empresarial Brasil-Colômbia (AISCE) (https://bityli.com/IuXfM), que realiza “Uma Virada de Cores”, em parceria com a produtora carioca Burburinho Cultura.

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