‘Cartas da Guerra’: selo português de qualidade

‘Cartas da Guerra’: selo português de qualidade

Rodrigo Fonseca

07 de junho de 2017 | 17h10

Miguel Nunes é o alter ego do escritor Lobo Antunes em “Cartas da Guerra”

RODRIGO FONSECA
Enfim o circuito brasileiro vai receber uma das mais potentes experiências narrativas do cinema português contemporâneo: Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira. A estreia ficou para 13 de julho, de acordo com o site da Imovision.

Da boca de um veterano dramaturgo, o francês Jean Anouilh (1910-1987), autor de O Viajante Sem Bagagem, veio acertada lição de que “existe o amor, é claro, e existe a vida, sua inimiga”. E é a partir deste aforismo filosófico sobre querer que se articula o deslizamento da palavra à imagem no processo de diálogo entre cinema e literatura estabelecido por Ferreira em Cartas da Guerra, um dos indicados – o mais doce, aliás! – ao Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2016. Há o bem-querer, é claro, como bem disse Anouilh, mas existe a brutalidade institucional e existe o imperialismo, que dão as mãos numa tentativa de sufocar o altruísmo na África de António Lobo Antunes. São as entranhas dele, em prosa epistolar, que anima este longa-metragem, num fluxo de consciência expresso como uma ode ao amor. E, desde a Berlinale, sua fotografia, em preto e branco, tem deixado críticos estonteados.

Centrada nos conflitos armados coloniais da década de 1970, entre portugueses e angolanos, a produção é baseada em epístolas escritas pelo próprio Lobo Antunes e traz o ator Ricardo Pereira, galã popular no Brasil em novelas da TV Globo, sob a farda de um dos combatentes lusos. Sua atuação é pontual, mas tocante, sobretudo num desabafo que sintetiza toda a azia moral dos campos de batalha. A narrativa é toda estruturada em cima de uma narrativa em off, que corresponde às cartas (regadas pelo fel da ausência) trocadas entre o médico militar António (Miguel Nunes) e sua mulher, Maria José (Margarida Vila-Nova), enquanto ele está em missão em um front africano, em 1971. Os dois trocam frases regadas a ultrarromantismo, do tipo: “A distância apaga muita coisa, até o som de uma voz”.

Existe em cena um lado político, expresso a partir da autopsia de uma tragédia que uniu duas nações. Há um sentimento de que a perversão é a bússola das atitudes de quem guerreia, como uma inquieta reação à inutilidade dos confrontos em trincheiras. Mas, a cada nosso plano, os maniqueísmos caem e os lados contrários se pasteurizam pelo sangue ou pelo apego a amor, pois o objeto explosivo chamado paíxão é uma maneira de representá-las como sobreviventes. Só o amor foi capaz de fazer António sobreviver na vida real.

Rodado em solo angolano com destaque épico para a paisagem local, Cartas da Guerra tira de Ricardo Pereira aquela que talvez seja a melhor interpretação de uma carreira multinacional, dividida entre a teledramaturgia brasileira e filmes europeus de prestígio. Ele interpreta um dos oficiais que contam com a ajuda de Dr. António. Numa sequência que comoveu a Berlinale, ele externaliza sua fadiga em relação ao ambiente de morte ao seu redor, usando uma apreensão com sua saúde para encobrir suas angústia. Seu pleito é um rasgo de fragilidade humana em figuras cuja subjetividade está abafada pela obrigação de ceifar vidas. Neste dilema, Ivo inocula em seu belíssimo filme o DNA de épicos similares, seja O Paciente Inglês (1996), de Anthony Minghela, ou Entre Dois Amores (1985), de Sydney Pollack. É a tradição revisitada por olhos lusos… olhos livres.

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