Carta de amor a Ziraldo nas telas

Carta de amor a Ziraldo nas telas

Rodrigo Fonseca

06 de outubro de 2019 | 11h16


RODRIGO FONSECA
Tem Ziraldo em cartaz nos cinemas, num documentário sobre a gênese de seu patrimônio fabular nas artes gráficas: o filme sobre “A Turma do Pererê” anda comovendo plateias no circuito exibidor. Sua narrativa, pilotada por Ricardo Favilla, realça o falto de que o desenhista é uma lenda (sempre) viva das histórias em quadrinhos, das práticas de resistência política e da construção de um patrimônio fabular 100% brasileiro. No Rio de Janeiro, tem sessão dele sempre às 18h, no Espaço Itaú. Editado na medida da doçura, o longa-metragem combina uma dose de reflexão histórica (seja sobre o mercado editorial do país, seja sobre a gênese do pensamento ecológico na América Latina) com discussões sobre brasilidade na fabulação, com um delicado trabalho de arquivo. Nessa produção de Tarcísio Vidigal, PH de Sousa e do próprio Favilla, vemos o Pererê como um herói de nossas matas, que começou a ser desenhado por Ziraldo nas páginas da revista “A Cigarra”, em 1957, passando para “O Cruzeiro”, em 1958. Dois anos depois, o Pererê ganharia sua própria revista, que se tornou um sucesso de vendas: o gibi circulou entre outubro de 1960 e abril de 1964 com uma tiragem média de 120 mil exemplares. Estas e outras curiosidades integram o longa de Favilla, que trabalhou como produtor executivo em “O Menino Maluquinho 2” (1998), decalcado do universo de Ziraldo.

O que o Ziraldo trouxe para a afirmação da brasilidade a partir de suas HQs?
Ricardo Favilla:
Ziraldo injeta em seu estilo único e inconfundível a enormidade da cultura brasileira. Ele bebe de todas as fontes possíveis e imagináveis; dos artistas de todas as regiões e matizes, das histórias, sons e imaginação que o Brasil, nação continental, produz. Olhando a vasta obra de Ziraldo, que começa na sua infância, você percebe que, daquele fascínio pela HQ americana, que povoa sua juventude em seus primeiros rabiscos e desenhos, ele salta rapidamente, ao chegar à cidade grande (Rio de Janeiro), para um traço mais estruturado. No RJ, ele entra em uma busca pela simplicidade e eficácia na comunicação, uma economia e um estilo na qual a ideia do movimento no traço esta sempre presente nas suas charges humorísticas. Ele recusa usar os clichês então em voga, como cartuns de náufragos, de mulheres com rolo de macarrão atrás dos maridos. Ele passa a utilizar tipos populares brasileiros, sem folclorizar, mas sendo fiel aos seus signos, traços e gestuais. Neste contexto ele troca seu 1º personagem de cartum, um canguru, por um personagem folclórico popularizado pela literatura de Monteiro Lobato: o Saci Pererê. O Saci é um personagem que atuava em suas charges mudas. Com a possibilidade de transformar o Saci em astro de uma revista inteira, Ziraldo percebe que tinha que completar a criação do universo entorno deste personagem. É aí que ele parte para colocar o Brasil em sua obra de forma definitiva.
Que Brasil existe em Ziraldo?
Ricardo Favilla:
Pererê é a crônica de um Brasil que desabrocha entre o arcaico e o moderno. É mistura ainda da cultura rural, de raiz, que vai dando lugar a uma urbanidade, de novos valores, modos e expressões: na música, nas imagens, na arquitetura, nas letras e nos demais domínios da ação humana. Uma valorização de todas as formas, velhas e novas, que se confrontavam nas histórias da Mata do Fundão. Os brasileiros, principalmente os mais mirins, reconheceram-se de alguma forma naquele universo mágico, colorido, alegre e abrangente, de norte a sul, das criaturas da fauna, da flora e sobretudo dos humanos do Brasil. O país que emerge da obra de Ziraldo é um Brasil que se moderniza, cria, se adapta aos novos tempos, mas valoriza o bem comum da riqueza brasileira: suas matas, sua luz, sua simplicidade, seus mitos e lendas. Mas é um Brasil com o pé na novidade, com postura crítica, combatividade e questionamento político. Um Brasil com uma inquietação constante, um humor ácido e a visão esperançosa do “dar certo”, sempre otimista, apesar dos constantes reveses.

Que tipo de herói é o Pererê?
Ricardo Favilla:
O Pererê é um herói generoso, com bom humor, cujo maior poder é fazer as partes, os personagens conflitantes, entenderem-se e procurar soluções para os problemas que se apresentam ao próprio “biocosmo” da Mata do Fundão. Ela própria é um personagem de suma importância nesta obra.
O que o teu documentário te representou como descoberta acerca do mercado editorial brasileiro que permitiu o surgimento de uma HQ como Pererê?
Ricardo Favilla:
Sinto que a importância da saga do Pererê, como um produto cultural pop, tanto se dá pelo lado estético artístico inovador, totalmente inserido no contexto político social efervescente daquela época… dos anos 1950s… do início dos anos 1960s… como pela possibilidade de percebemos como tudo isso também agitava a economia brasileira. Havia uma competição entre as empresas do mercado editorial do período, envolvendo as grandes forças do jornalismo daquela época. Pererê nasce de uma dupla pressão: a dos movimentos de organização das áreas culturais, na música, no cinema e em outras manifestações artísticas, que também chegam nas artes gráficas. Notadamente, os desenhistas de jornal, publicidade e afins já queriam fazer coisas diferentes das colocadas pelos velhos padrões do mercado de então. Estes artistas começam a se organizar pra fazer produtos, livros e gibis de maneira coletiva, mas esbarravam nas dificuldades econômicas e no eterno gargalo da distribuição. Por outro lado, as grandes empresas temiam que o movimento de nacionalização da cultura pudesse barrar a entrada dos produtos de origem estrangeira, principalmente os americanos, e que eles, os editores, de uma hora para outra ficassem sem conteúdo para o mercado. Assim, o grupo dos Diários Associados se lançou na frente e propôs a criação de três revistas inteiramente brasileiras para serem realizadas por seus artistas mais renomados. Duas não vingaram no nascedouro: a de Péricles, autor de “O Amigo da Onça”, que não entregou seu material; a do Carlos Estevão, que só saiu tempos depois; e a do incansável e sonhador Ziraldo. Ele apresentou em poucos dias a sua completa e fabulosa criação, “A Revista do Pererê”. Esta ousadia dos Diários Associados, tanto por cálculo comercial quanto por temor de uma possível paralisação, colocou subitamente por terra a equivocada crença de que o brasileiro não queria saber de uma “HQ subdesenvolvida”. Ziraldo provou que o brasileiro ele era capaz de se reconhecer, consumir e valorizar sua própria cultura e sociedade. Foi assim como a batalha do “petróleo é nosso”. E sim, tínhamos petróleo. Também tínhamos quadrinhos. O Brasil reconheceu e descobriu, que, sim, também podíamos fazer quadrinhos e que tínhamos grandes artistas para isso. Mauricio de Sousa, Henfil, Laerte, Angeli e tantos outros, hoje trabalhando mundo afora. Tudo isso foi graças ao incansável e genial Ziraldo.
p.s.: Cenas cariocas: Norte Shopping cheio no sábado, na sessão de 22h de “Bacurau” no UCI da Zona Norte. Ouviam-se apupos de júbilo na torcida pelo povo brasileiro retratado no fino momento Walter Hill da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, laureada em maio na Croisette.Três anos depois de conquistar a Palma de Ouro dos documentários, o troféu L’Oeil d’Or, com “Cinema Novo”, o Brasil saiu de Cannes com uma honraria que consagra sua luta política. Ao gritar “Um beijo para todo mundo no Recife” no Palais des Festivals de Cannes, com o Prêmio do Júri, Kleber Mendonça Filho, consagrado mundialmente com “Aquarius” (2016), estava fazendo mais do que afago em sua terra natal, em meio à consagração na disputa oficial da mais prestigiada seleção competitiva do mundo: seu gesto de carinho é um indicativo de sua curiosidade acerca da carreira nacional de “Bacurau”. Ao lado dele, no palco da Croisette, o também pernambucano Juliano Dornelles fez algo parecido em seu discurso: chamou a atenção da imprensa mundial acerca da crise que se instaura no Brasil em meio ao clima de caça às bruxas que cerca quem vive de cultura ou de educação no país. Ao serem contemplados com o terceiro prêmio mais importante do evento francês – a Palma ficou com o sul-coreano Bong Joon Ho, por “Parasite”, e o Grand Prix com a francesa de origem senegalesa Mati Diop, por “Atlantique” -, os dois diretores demonstraram estar com a cabeça na realidade brasileira. A vitória deles veio na decisão do time de jurados presidido pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (de “Birdman”) em criar empate entre dois longas que traduzem o desajuste social de seus países num ambiente de barbárie: “Les Miserábles”, de Ladj Ly, foi o escolhido para dividir a o prêmio com Dornelles e Kleber. No thriller dirigido por esse francês de origem maliana, três policiais enfrentam uma rebelião dos moradores de um subúrbio majoritariamente negro de Paris em retaliação a uma agressão contra um menino daquela periferia. O povo se levanta contra uma instituição de controle. “Bacurau” mostra uma situação parecida: os habitantes da cidadezinha sertaneja que dá título ao longa se insurgem contra um célula de assassinos estrangeiros, chefiados por um alemão (Udo Kier), que coordena uma caça a pessoas pobres. Sonia Braga integra o elenco no papel de uma médica com surtos de fúria, sempre que exagera no álcool. Fotografia impecável de Pedro Sotero.
p.s. 2: O cinema brasileiro fez a festa neste sábado no Festival de Biarritz, na França, com direito ao prêmio de melhor filme para “A febre”, de Maya Da-Rin, e um prêmio especial do júri para “A vida invisível” (ex-“A vida invisível de Eurídice Gusmão”), de Karim Aïnouz. Deu ainda láurea de melhor curta para “Mistério da carne”, de Rafaela Camelo.

Tendências: