Carta de amor a ‘Central do Brasil’ hoje na TV

Carta de amor a ‘Central do Brasil’ hoje na TV

Rodrigo Fonseca

05 de março de 2022 | 11h32

Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira em “Central do Brasil”, filme ganhador do Urso de Ouro da Berlinale 1998

RODRIGO FONSECA
É dia de revisitar “Central do Brasil”, filme que nos deu o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1998 e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 1999: tem sessão dele, neste sábado, às 15h, na TV Globo. É uma oportunidade para se matar as saudades de Dora, escrevinhadora de cartas na base da malha ferroviária carioca que rendeu à diva Fernanda Montenegro um de seus mais aclamados papéis, coroado com uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Dora deixa o Rio e parte para o Nordeste conduzindo um menino, Josué (Vinícius de Oliveira), que acabou de perder a mãe, até o pai que ele não conhece. Walter Salles assina a direção, numa aula de fina poesia, a partir de um roteiro de João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein, embalado na música de Jaques Morelenbaum e Antonio Pinto. A arrebatadora fotografia é assinada por Walter Carvalho. Foram 43 prêmios no total, no currículo do longa, que vendeu 1.186.859 ingressos em circuito nacional.
Pioneiro de La Nueva Onda, o brevíssimo (1998-2005) mas seminal movimento por trás de um redesenho neo-neorrealista do cinema latino-americano, assim batizado por certa similitude com a Nouvelle Vague, Walter Salles foi a liga que aproximou cinematografias de uma pangeia separada pelo Tratado de Tordesilhas da língua (português no Brasil; espanhol nas demais pátrias) e pelo multiplicismo cultural. Seu “Central do Brasil” foi o longa inaugural da estética que fechou a década de 1990 a pautar os anos 2000 nas Américas, em uma mistura de registros documentais e ficcionais, gerando uma hemodiálise sociológica das representações e dos arquétipos. Mas antes de extrair de Fernanda Montenegro a genial interpretação que até hoje arranca elogios (como comprova uma recente e apaixonada declaração de Glenn Close em respeito a ela), Salles já havia estabelecido uma reputação singular como documentarista. “Socorro Nobre” (1995), sobre a correspondência entre a presidiária Maria do Socorro Nobre e o artista plástico polonês Franz Krajcberg, premiou o cineasta no Festival de Biarritz e virou cult. Duas décadas depois, ele saiu de Berlim ovacionado por “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang” (2014), um retrato afetivo de um de seus ídolos cinéfilos: o realizador chinês laureado por longas como “Um Toque de Pecado” (2013).
“Os filmes de Nelson Pereira dos Santos e de Michelangelo Antonioni me levaram ao cinema. Graças a eles, entendi que o mundo era muito mais amplo e polifônico do que eu poderia imaginar”, disse Salles, em entrevista ao Estadão em 2020. “Sem ‘Socorro Nobre’, não haveria ‘Central do Brasil’. Nos documentários que fiz sobre Krajcberg, Socorro ou Tomie Ohtake é sempre a geografia humana, a maneira com que as transformações da sociedade afetam o homem, que me interessaram, antes de mais nada”.

No próximo dia 12, o último longa de ficção rodado e lançado comercialmente por Salles, o belo “Na Estrada” (“On The Road”, 2012), baseado no romance homônimo do beatnik Jack Kerouac (1922-1969), vai entrar na grade da MUBI. Em meados do ano, o cineasta começa a filmar “Ainda Estou Aqui”, com Mariana Lima, baseando-se no livro de Marcelo Rubens Paiva.

p.s.: A premiada artista visual e escritora Katia Canton celebra o centenário da Semana de Arte Moderna de 22 em dois eventos no Rio. Ela é curadora do ciclo de debates “Contingências Antropofágicas / 100 anos depois de 22”, de 11 a 13 de março, às 18h30, no CCBB. O evento propõe reflexões sobre os contextos sócio-históricos que propiciaram a concretização do movimento ocorrido entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo. Entre os palestrantes, estão Denise Mattar e Priscila Figueiredo (11 de março), Carolina Casarin e Frederico Coelho (12 de março), Agnaldo Farias e Marcelo Campos (13 de março). A vencedora do Jabuti também lança o livro infantojuvenil “Ana e a Semana”, dia 12, das 15h às 17h, na Travessa de Ipanema.

p.s.2 : Depois de uma curta temporada no ano passado, “PANÇA” volta ao cartaz, na sexta-feira, no Teatro Ipanema, propondo uma reflexão: quais os efeitos que o poder de circular ideias pelo mundo gera na sociedade? Com dramaturgia e direção de Cecilia Ripoll, o espetáculo constrói uma fábula para tratar da reprodutibilidade da notícia e das falhas da comunicação humana. Com estrutura cômica e farsesca, a história é centrada em um endividado escritor que, de seu pequeno vilarejo, escuta falar sobre a mais nova invenção da capital: a famosa máquina de imprensa. No elenco, estão Ademir de Souza, André Marcos, Clarisse Zarvos, Diogo Nunes e Julia Pastore. “Sem compromissos rígidos em dar conta de contexto ou fatos históricos, a fábula está mais preocupada em se perguntar o que acontece com a sociedade quando surgem avanços que transformam a capacidade de reprodutibilidade de obras e ideias. Como a ampliação dos meios de reproduzir discursos impacta na transformação social e no imaginário dos indivíduos?”, questiona Cecilia Ripoll.

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