‘Carro rei’ acelera na tela de Gramado

‘Carro rei’ acelera na tela de Gramado

Rodrigo Fonseca

18 de agosto de 2021 | 09h23

“Carro Rei” entra em competição está noite em Gramado

Rodrigo Fonseca
Faltando três dias para seu desfecho, o 49. Festival de Gramado acolhe nesta quarta um dos títulos brasileiros mais elogiados em mostras internacionais no primeiro semestre:
“Carro Rei”, de Renata Pinheiro. A sessão rola no Canal Brasil, às 21h30, e no Canal Brasil Play. Sua estreia mundial rolou no Festival de Roterdã, na Holanda. “Transformers” meets Bob Wilson meets Stuart Hall, embalado numa direção de arte inventiva e aditivado por um Matheus Nachtergaele com aura de Gollum. Filme provocativo e inquietante em sua reflexão sobre a “maquinização” do humano. Uma tradução precisa de Renata para o “Manifesto do Ciborgue”, de Donna J. Haraway. Antes dessa pérola, a cineasta rodou “Açúcar” (2017) e “Amor, Plástico e Barulho” (2013). Como sua exibição ocorreu em janeiro, em solo holandês, esta fábula perfumada a diesel passou a ser vista como o primeiro grande filme nacional de 2021, egresso de Pernambuco, a partir de Caruaru. A trama lembra muito “Bumblebee” (2018) em seus momentos iniciais, quando um garoto é salvo de um atropelamento por um carro com quem ele estabelece uma estranha conexão. Por “estranha” leia-se: ele fala com o tal carro. Anos depois, dedicado ao ativismo ambiental, o moço (Luciano Pedro Jr.) retoma relação com o veículo, mas percebe que existe uma aura totalitária nele, mas vê seu tio (Nachtergaele) se conectar com esse totalitarismo.

Na entrevista a seguir, Renata bate um papo com o P de Pop sobre sua estética.

Qual é o limite do sobrenatural e do extraordinário que seu filme cruza? O que essas categorias apontam dramaturgicamente para a sua maneira de construir sagas sobre um certo decandentismo (seja no mundo breganejo, seja no mundo da cana) em nossa sociedade?
Renata Pinheiro:
O filme aborda a tecnologia como algo gestado pelo homem e, portanto, como parte dele, da humanidade. O homem, diferentemente dos outros animais, pode gestar o sobrenatural. Talvez o filme em si seja extraordinário quando amplia este enunciado, dando vida ao carro “um ser gerado somente por um macho”. Acho que posso dizer de uma forma bem geral que as histórias de nossos filmes são construídas em torno dos momentos de crises gerados pela precariedade, assombrada por uma iminente destruição ou auto-destruição.


Que tabus ainda travam o avanço da fantasia em nosso cinema, ainda muito sociologizado? Como “Carro Rei” dribla esses tabus?
Renata Pinheiro:
Acho que temos filmes brasileiros recentes do gênero fantasia, poucos, mas temos. Acho que a fantasia não exclui uma temática sociológica ou política. “Carro Rei” aposta numa busca por um filme brasileiro em todos os seus aspectos. E ele está conquistando o seu espaço, seja no mundo, ou no Brasil. É um filme arriscado que pode encontrar aliados ao longo do seu percurso.

Matheus Nachtergaele em um de seus mais ferozes desempenhos

A vitória de “Titane”, em Cannes, pavimenta uma certa linha de continuidade, iniciada com “Christine, o Carro Assassino” e seguida por “Crash” e por você, de filmes que usam o fetiche da máquina, da velocidade, como metáfora do desejo. Mas qual seria o componente político dessa tua máquina viva?
Renata Pinheiro:
No “Carro Rei”, o carro inteligente deseja ser humano. Quanto mais ele começa a sentir emoções humanas, mais se torna tirano, mais se inebria de poder (algo bem humano). No nosso filme, o carro e a personagem Mercedes têm um envolvimento erótico e afetivo. Esse caso se dá a partir de uma possibilidade real de envolvimento sentimental pois nosso carro fala (e até solta chacota, coloca a música preferida da sua amante). O gatilho de atração aqui é o mesmo que se dá entre duas pessoas. Não quero dizer com isso que nego o fetiche erótico, mas realmente como o nosso carro fala e é inteligente, isso não é o mesmo que sentir atração por um objeto. “Carro Rei” é uma espécie viva.


Que combustível um ator como Matheus Nachtegaele adiciona ao teu cinema?
Renata Pinheiro:
Matheus conhece o Brasil muito bem. Como é lindo ver seu encantamento pelas pessoas que vai conhecendo nos ricões deste país a cada filme que faz. É um incansável criador e criatura do Brasil. Ele adiciona liberdade. Com ele, tudo se torna possível, pois ele sabe o quanto temos de diversidade. Sabe o quanto de Brasis existem no Brasil.

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