‘Carro Rei’ acelera festa de 25 anos de Tiradentes

‘Carro Rei’ acelera festa de 25 anos de Tiradentes

Rodrigo Fonseca

19 de janeiro de 2022 | 13h09

Matheus Nachtergaele tem uma atuação sublime (e feérica) no longa de Renata Pinheiro, revelado ao mundo em Roterdã, premiado no Brasil em Gramado e prestes a ser projetado em Tiradentes

RODRIGO FONSECA
Revelado internacionalmente em Roterdã, na Holanda, em janeiro de 2021, onde arrebatou elogios em variadas línguas, o thriller sci-fi pernambucano “Carro Rei”, da diretora Renata Pinheiro, não estreou comercialmente mesmo tendo conquistado o Kikito de melhor filme em Gramado, em agosto, mas poderá ser visto na 25ª Mostra de Tiradentes. Nesta sexta começa a edição de 25 anos do evento que serve de abre pros festivais do cinema brasileiro, com 169 títulos espalhados em suas diversas seções, que seguem online até 29 de janeiro. Em sua curadoria estão Francis Vogner dos Reis, Lila Foster, Camila Vieira, Tatiana Carvalho Costa e Felipe André Silva. Essa turma trouxe para a seleção, além da joia de Renata, potenciais pérolas como “Rua Ataléia”, de André Novais Oliveira; “Ficções Sônicas #2”, de Grace Passô; “Diário Dentro da Noite”, .doc poético dirigido pelo ator Chico Diaz; “A Felicidade das Coisas”, de Thaís Fujinaga; e uma obra-prima chamada “Capitu e o Capítulo”, de Júlio Bressane. Mas é difícil não salivar pelo longa de Renata, que ganhou ainda, em Gramado, os troféus de melhor desenho de som (dado a Guile Martins), direção de arte (de Karen Araújo) e trilha sonora (de DJ Dolores), além de um prêmio especial do júri, dado a Matheus Nachtergaele, por uma vulcânica atuação.

Sua trama lembra muito “Bumblebee” (2018) em seus momentos iniciais, quando um garoto é salvo de um atropelamento por um carro com quem ele estabelece uma estranha conexão. Por “estranha” leia-se: ele fala com o tal carro. Anos depois, dedicado ao ativismo ambiental, o moço (Luciano Pedro Jr.) retoma relação com o veículo, mas percebe que existe uma aura totalitária nele, mas vê seu tio, o mecânico Zé Macaco (Nachtergaele), conectar-se com esse totalitarismo. Diretora de arte aclamada, Renata (que dirigiu “Amor, Plástico e Barulho” e “Açúcar”, com Sérgio Oliveira), firma-se cada vez mais como realizadora. À época de Gramado, ela contou ao P de POP que “Carro Rei” é “um filme que aponta para questões que estão presentes hoje, mas também apontam para um possível futuro da humanidade. Nessa questão da sexualidade e do prazer, vejo a possibilidade de haver outros estímulos que não dos humanos. A loucura pode chegar a esse ponto da transa com máquinas, que a gente vê no filme. Acho que isso já começou e existe há muito tempo, mas esse desejo do carro, e da descoberta da sexualidade dele, é muito poderosa, o que torna o carro ainda mais vivo e ainda mais ávido por vida e poder”, diz Renata, que, na ocasião, não tinha visto “Titane”, de Julia Ducournau, o ganhador da Palma de Ouro de 2021, que tem uma temática similar.
Aliás, esse belo longa de Ducournau vai estrear dia 28 na MUBI (www.mubi.com). Já o filme de Renata promete ser um dos campeões de audiência da Mostra de Tiradentes, criada em 1998 por Raquel Hallak da Universo Produção. Este ano, os filmes da seção Aurora, a menina dos olhos de Tiradentes, famosa por revelar talentos, são: “Seguindo todos os Protocolos” (PE), de Fábio Leal; “A Colônia” (CE), de Virgínia Pinho e Mozart Freire; “Sessão Bruta” (MG), de As Talavistas e ela.ltda; “Panorama” (SP), de Alexandre Wahrhaftig; “Maputo Nakurandza” (RJ-SP), de Ariadine Zampaulo; “Bem-vindos de Novo” (SP), de Marcos Yoshi; e “Grade” (MG), de Lucas Andrade.
“O cinema sempre resiste e sempre permanece, modifica e se expande, ganha as telas maiores e menores, os dispositivos móveis, as plataformas, ganha o mundo, em busca de novos olhares, em nome da diversidade, sem protocolos e consensos de estilos. Menos grife e mais autoralidade, produtividade, eficiência e movimento”, diz a já citada Raquel Hallak, que esbanja cinefilia na coordenação da Mostra, a partir da Universo Produção.

“Maputo Nakurandza” (RJ-SP) é dirigido por Ariadine Zampaulo

Antes dedicada em coroar seus longas com prêmios de júri popular, Tiradentes mudou seu perfil em 2008, quando a então curadoria, assinada pelo crítico Cléber Eduardo, instaurou a Aurora, estabelecendo uma escolha rígida de experimentações alotais. “Meu Nome É Dindi”, de Bruno Safadi, foi o primeiro vencedor. Desde então, à luz de uma competição xará de um cult de Murnau nasceram “Baronesa” (2017), de Juliana Antunes; “Os Dias Com Ele” (2013), de Maria Clara Escobar; “Estrada para Ythaca” (2010), de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti; e “A Fuga da Mulher Gorila”, de Marina Meliande e Felipe Bragança. E cada nascimento desse passou a atrair o olhar da crítica internacional e mesmo de festivais como Cannes para o evento, que já foi citado nas páginas da septuagenária bíblia cinéfila “Cahiers du Cinéma”, em 2017.
“O diálogo internacional da Mostra de Cinema de Tiradentes tem início em 2009, por ocasião do Ano da França no Brasil, na 13a edição do evento”, diz Raquel. “Recebemos três curadores e programadores dos Festivais de Cannes, Toulouse e Nantes. A partir desta experiência de apresentar o cinema brasileiro para estes profissionais internacionais, abriu-se uma janela de novas possibilidades de intercâmbio e interesse pelo cinema exibido na Mostra Tiradentes. Já virou tradição Tiradentes receber importantes nomes do cenário audiovisual mundial para acompanharem o evento. Atuando como ‘olheiros’ privilegiados, esses convidados têm a oportunidade de conhecer em primeira mão o cinema brasileiro contemporâneo que ganha as telas na Mostra. Graças a essas presenças, vários dos filmes exibidos, entre longas e curtas-metragens, passam a ser discutidos, comentados, recomendados e debatidos em outros espaços, extrapolando os limites de seus próprios territórios e ganhando as telas do mundo”.

Para conferir a seleção de Tirandentes deste ano, basta fazer uma inscrição rápida no site www.mostratiradentes.com.br, ir na aba Filmes, escolher estre as diversas seções da programação um filme ao qual você queira assistir e conferir se ele já está disponível. Se estiver, é só clicar no nome do filme e dar play. Se não estiver, clique na opção agendar, e você receberá uma mensagem assim que o título estiver online.

“Manhã de Domingo”: Tiradentes exibe representante brasileiro da seção Berlinale Shorts de 2022

p.s.: Mesmo sem poder arrancar um ursinho sequer de M. Night Shyamalan, que preside o júri de longas-metragens da 72ª Berlinale, o Brasil pode vencer a competição de curtas-metragens do evento com “Manhã de Domingo”, de Bruno Ribeiro, que está na Mostra de Tiradentes. Ainda sobre Berlim… nós, do Brasil, teremos um destaque lá, na seção Panorama, com “Fogaréu”, longa da goiana Flávia Neves. É uma trama na fronteira entre o real e o fantástico, entre o passado colonial e a modernidade avassaladora do agronegócio, onde a cidade de Goiás é palco do encontro entre a jovem Fernanda (Bárbara Colen) e suas secretas raízes. Vai haver ainda uma exibição no Berlinale Market Selects da (divertida) série “Filhas De Eva”, de Adriana Falcão, Jô Abdu, Martha Mendonça e Nelito Fernandes, da TV Globo. Estamos também na sessão Fórum, com “O dente do dragão”, de Rafael Castanheira Parrode. Já na seção Generation, foi selecionado o longa “My Fathers’s Truck”, uma coprodução Vietnã/EUA dirigida pelo brasileiro Maurício Osaki. Trata-se de uma expansão do curta do mesmo diretor, “O Caminhão de meu Pai”, que foi exibido no Festival de Berlim 2013. O longa é um road movie pelas estradas do Vietnã que retrata um difícil contato entre pai e filha. Temos ainda a instalação “Se Hace Camino Al Andar”, de Paula Gaitán.

p.s.2: No dia 15 de março, o roteirista e cineasta Bebeto Abrantes, um dos curadores do seminário Na Real_Virtual, inicia na PUC do Rio as aulas de seu imperdível curso “DOC_MOD”, um estudo sobre o documentário brasileiro contemporâneo. O link para quem desejar obter maiores informações sobre o curso é: https://bit.ly/3DJx3jQ.

p.s.3: Tem “Nasce Uma Estrela” (“A Star Is Born”, 2018), de Bradley Cooper, esta noite na TV Globo, às 23h20.

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