‘Carrie’, o gato Jérôme e ‘Lucy’: domingão à vista

‘Carrie’, o gato Jérôme e ‘Lucy’: domingão à vista

Rodrigo Fonseca

03 de maio de 2020 | 12h07

Sissy Spacek no set do cult da fase 70s de Brian De Palma

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Remexendo no catálogo da mostra “Stephen King: O Medo É Seu Melhor Companheiro”, uma das mais bem-sucedidas retrospectivas do CCBB nos últimos tempos, chega-se à lembrança de que “Carrie, a Estranha” vai completar 45 anos daqui a um pulo. O projeto começou a sair do papel em 1975. Para quem quiser matar saudades deste filmaço, num momento em que os longas-metragens mais recentes de Brian Russell De Palma (“Paixão”, “Dominó”) não estreiam em telona por aqui, a solução mais simples é recorrer ao Telecineplay.
Muitos talentos da Hollywood dos anos 1970 se consideram em dívida (estética e moral) com De Palma, incluindo o Rei Midas, Steven Spielberg, que numa entrevista por fone (ele em LA; a gente, em Bonsucesso), mediada pela Fox, derreteu-se pelo colega: “Ele é fênix. Brian tem a habilidade de se reinventar quando a gente menos espera, e, em parte, porque o olho dele não está no Real, como o nosso, e sim na ilusão”. “Tubarão” (1975) já era uma isca de dólares quando o irmão cinéfilo mais velho de Spielberg foi chamado para inaugurar o rol de adaptações de Stephen King para o audiovisual, filmando o romance “Carrie”, de 1974. Os direitos autorais foram negociados por uma bagatela (US$ 2,5 mil) por um jovem escritor que, alguns anos à frente, tornar-se-ia um dos maiores vendedores de livros do planeta. De Palma, à época, gozava de prestígio por conta de “Irmãs diabólicas” (1972), no qual esbanjou domínio das dinâmicas do medo e demonstrou habilidade ímpar para investigar a psique feminina. Daí se sentir à vontade para explorar a mente fraturada da tímida Carrie White, papel que quase foi de Melanie Griffith. Um amigo dele indicou o texto de King, em 1975, e ele farejou ali uma bela história a ser filmada, dando alguns telefonemas para viabilizar o projeto, num périplo de seis meses de negociações e espera, finalizada pela Red Bank Films e a United Artists.

Apesar do cacife comercial de que o filão terror desfrutava, De Palma teve apenas US$ 1,6 milhão para filmar, o que acabou sendo engordado para US$ 1,8 milhão. O cineasta testou Melanie para o papel, depois testou Nancy Allen (sua futura mulher), mas encantou-se por Betsy Slade. Sissy Spacek tirou a personagem de Carrie dela com muita perseverança: foi para o teste com vaselina no cabelo, sem maquiagem, usando um vestido da sétima série. Aquela imagem encantou De Palma, que não imaginaria ver aquela talentosa atriz ser indicada ao Oscar por um thriller de horror tão comercial. Tampouco ele imaginava que o filme renderia US$ 33 milhões aos cofres da UA só nos EUA, jogando luz sobre um de seus coadjuvantes, um garotão chamado John Jospeh Travolta, que, em 1977, alcançaria a consagração como Tony Manero, em “Os Embalos de Sábado à Noite”. De Palma deixou ele como um dos estudantes que praticam bullying contra Carrie.
Se houvesse maior atenção do cineasta ao universo pop da indústria editorial dos EUA, De Palma veria uma associação direta entre Carrie e Jean Grey, a heroína dos X-Men, da Marvel, igualmente psiônica e igualmente atormentada com seus poderes. Ambas possuem telecinese, a habilidade de mover objetos com a mente, inclusiva partículas, o que gera fogo, na fricção da mente. A diferença central é que Jean tem seus superpoderes explicados cientificamente por um certo Fator X, uma disfunção genética idealizada por Stan Lee. Já Carrie tira seus dons de algo que pode vir da Danação ou do Sagrado. Sua mãe, Margaret (interpretada com soturno brilhantismo por Piper Laurie), acredita em ambos, e afoga a filha em seu fanatismo, que serve de disfarce para a castração sexual de seu moralismo religioso. Amy Irving é uma das colegas que testemunham como a educação sentimental de Mrs. Margaret pesa sobre Carrie.

Como Carrie não se adequa ao padrão cool de sua época, ela é espicaçada por seus colegas, o que desperta sua força sinistra, expressa pela aeróbica de câmera que consagrou De Palma e por efeitos especiais até então não conhecidos. O perfeccionismo do cineasta para imprimir excelência visual a uma narrativa decalcada das palavras de Stephen King levaram à demissão do diretor de fotografia original, Isidore Mankofsky, substituído por Mario Tosi, que vinha de “A invasão das rãs” (1972). A troca rendeu um espetáculo visual, que ganhou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, na França, com direito a uma menção para Sissy, que foi dublada por Miriam Ficher no Brasil. O filme ainda inspirou um musical na Broadway, em 1988, e um remake vexaminoso, de 2013, com Chloë Grace Moretz, também presente no Telecineplay.

p.s.: Muita coisa boa, no terreno da fantasia fantástica, está em gestação nesta 40ena. Mas frente ao que já saiu do papel e já se fez ver, poucos exercícios têm a voltagem poética (e um protagonista tão bom quanto o) de “Jérôme: Um Conto de Natal”, de Beatriz Saldanha. Este filmaço com CEP em Jundiaí faz parte do menu online do Fantaspoa. Para conferir, recorra ao link: https://www.youtube.com/watch?v=2PUPNvVWVcI&feature=youtu.be. Nele, o COVID-19 dizimou boa parte de São Paulo, transformando escolas desativadas em hospitais de campanha. Ataques de gangues e cercos militares tornam o cenário ainda mais assustador. É nele, em meio à chegada do 25 de Dezembro, que o perseverante gato Jérôme, astro deste “As Aventuras de Chatran” em versão macabra, vai vislumbrar dimensões satânicas, enquanto luta por ração e afeto. O roteiro do curta é uma aula de concisão de dramaturgia, dominando com plenitude a cartilha do suspense.
Um dos maiores especialistas em filmes de horror das Américas, o crítico e escritor Carlos Primati faz uma participação hitchcockiana em cena. Descubra-o.

p.s.2: Às 22h20 desta noite, o “Domingo Maior” revisita o desempenho antológico de Scarlett Johansson pelo terreno da ação em “Lucy” (2014), um dos maiores sucessos de bilheteria do diretor francês Luc Besson. A produção custou US$ 40 milhões e faturou US$ 458 milhões. Na trama, a jovem Lucy (Scarlett, dublada por Fernanda Fernandes Baronne) aceita transportar drogas para ganhar um troco, sem medir os riscos que correrá por isso. Ameaçada pelo chefão do crime que é dono do bagulho, ela acaba absorvendo as substância. A sequela: ela ganha poderes sobre-humanos, incluindo dons telecinéticos, alta tolerância a todo tipo de dor e a capacidade de adquirir conhecimento instantaneamente. É uma injeção de adrenalina na veia.

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