‘Carrie, a Estranha’ celebra 45 anos de assombro

‘Carrie, a Estranha’ celebra 45 anos de assombro

Rodrigo Fonseca

15 de novembro de 2021 | 11h04

RODRIGO FONSECA
2021 está chegando ao fim e nada de Brian Russell De Palma filmar, apesar da torcida para ele dirigir Wagner Moura, o diretor de “Marighella”, em “Sweet Vengeance”. Mas os cults de sua obra seguem sendo estudados, enaltecidos e redescobertos pela streaminguesfera, como é o caso de “Carrie, a Estranha”, hoje na grade do Amazon Prime. Remexendo no catálogo da mostra “Stephen King: O Medo É Seu Melhor Companheiro”, uma das mais bem-sucedidas retrospectivas do CCBB nos últimos tempos, chega-se à lembrança de que esse marco do assombro está comemorando 45 anos. O projeto começou a sair do papel em 1975.

Muitos talentos da Hollywood dos anos 1970 se consideram em dívida (estética e moral) com De Palma, incluindo o Rei Midas, Steven Spielberg, que numa entrevista por fone (ele em LA; a gente, em Bonsucesso), mediada pela Fox, derreteu-se pelo colega: “Ele é fênix. Brian tem a habilidade de se reinventar quando a gente menos espera, e, em parte, porque o olho dele não está no Real, como o nosso, e sim na ilusão”. “Tubarão” (1975) já era uma isca de dólares quando o irmão cinéfilo mais velho de Spielberg foi chamado para inaugurar o rol de adaptações de Stephen King para o audiovisual, filmando o romance “Carrie”, de 1974. Os direitos autorais foram negociados por uma bagatela (US$ 2,5 mil) por um jovem escritor que, alguns anos à frente, tornar-se-ia um dos maiores vendedores de livros do planeta. De Palma, à época, gozava de prestígio por conta de “Irmãs diabólicas” (1972), no qual esbanjou domínio das dinâmicas do medo e demonstrou habilidade ímpar para investigar a psique feminina. Daí se sentir à vontade para explorar a mente fraturada da tímida Carrie White, papel que quase foi de Melanie Griffith. Um amigo dele indicou o texto de King, em 1975, e ele farejou ali uma bela história a ser filmada, dando alguns telefonemas para viabilizar o projeto, num périplo de seis meses de negociações e espera, finalizada pela Red Bank Films e a United Artists.
Apesar do cacife comercial de que o filão terror desfrutava, De Palma teve apenas US$ 1,6 milhão para filmar, o que acabou sendo engordado para US$ 1,8 milhão. O cineasta testou Melanie para o papel, depois testou Nancy Allen (sua futura mulher), mas encantou-se por Betsy Slade. Sissy Spacek tirou a personagem de Carrie dela com muita perseverança: foi para o teste com vaselina no cabelo, sem maquiagem, usando um vestido da sétima série. Aquela imagem encantou De Palma, que não imaginaria ver aquela talentosa atriz ser indicada ao Oscar por um thriller de horror tão comercial. Tampouco ele imaginava que o filme renderia US$ 33 milhões aos cofres da UA só nos EUA, jogando luz sobre um de seus coadjuvantes, um garotão chamado John Jospeh Travolta, que, em 1977, alcançaria a consagração como Tony Manero, em “Os Embalos de Sábado à Noite”. De Palma deixou ele como um dos estudantes que praticam bullying contra Carrie.

Nancy Allen e John Travolta foram parte do elenco habitual de Brian De Palma nos anos 1970 e 80

Se houvesse maior atenção do cineasta ao universo pop da indústria editorial dos EUA, De Palma veria uma associação direta entre Carrie e Jean Grey, a heroína dos X-Men, da Marvel, igualmente psiônica e igualmente atormentada com seus poderes. Ambas possuem telecinese, a habilidade de mover objetos com a mente, inclusive partículas, o que gera fogo, na fricção da mente. A diferença central é que Jean tem seus superpoderes explicados cientificamente por um certo Fator X, uma disfunção genética idealizada por Stan Lee. Já Carrie tira seus dons de algo que pode vir da Danação ou do Sagrado. Sua mãe, Margaret (interpretada com soturno brilhantismo por Piper Laurie), acredita em ambos, e afoga a filha em seu fanatismo, que serve de disfarce para a castração sexual de seu moralismo religioso. Amy Irving é uma das colegas que testemunham como a educação sentimental de Mrs. Margaret pesa sobre Carrie.
Como Carrie não se adequa ao padrão cool de sua época, ela é espicaçada por seus colegas, o que desperta sua força sinistra, expressa pela aeróbica de câmera que consagrou De Palma e por efeitos especiais até então não conhecidos. O perfeccionismo do cineasta para imprimir excelência visual a uma narrativa decalcada das palavras de Stephen King levaram à demissão do diretor de fotografia original, Isidore Mankofsky, substituído por Mario Tosi, que vinha de “A invasão das rãs” (1972). A troca rendeu um espetáculo visual, que ganhou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, na França, com direito a uma menção para Sissy, que foi dublada por Miriam Ficher no Brasil. O filme ainda inspirou um musical na Broadway, em 1988, e um remake vexaminoso, de 2013, com Chloë Grace Moretz, também presente no Amazon Prime.

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