‘Carnívoras’ e outras bossas do Varilux online

‘Carnívoras’ e outras bossas do Varilux online

Rodrigo Fonseca

29 de abril de 2020 | 10h59

Rodrigo Fonseca
Poucas cinematografias mundiais apostaram tanto na promoção de suas produções locais, nestes dias de 40ena, quanto a indústria francesa, a se julgar pela campanha fomentada online pela Unifrance, ao expandir o evento virtual My French Film Festival Stay Homem Edition, iniciado em março, até 25 de maio. Onde rola: basta digitar myfrenchfilmfestival.com para se deliciar com um mar de curtas da terra de Truffaut (sane, né: nos menores frascos…) e ótimos longas como “Não Sou Um Canalha” (“Je ne suis pas un salaud”), de Emmanuel Finkiel; “Os Últimos Parisienses” (“Les Derniers Parisiens”), com Reda Kateb; e “A Excêntrica Família de Gaspard” (“Gaspard va au marriage”), de Antony Cordier. Em paralelo, no Brasil, há uma louvável iniciativa do Festival Varilux, pilotado pelo Belmondo da cinefilia Christian Boudier, de disponibilizar na web uma repescagem do que sua maratona trouxe de melhor. Até 25 de agosto, o site www.festivalvariluxemcasa.com.br vai exibir 50 longas-metragens franceses (ou franco-belgas) de sucesso, incluindo aí a pérola sensorial “Carnívoras”. Prejudicado por uma certa aspereza técnica em seu roteiro, travado em sequências nas quais deveria fluir de maneira azeitada, “Carnivores” (do original) exerce seu fascínio sempre que seus diretores – os belgas Yannick e Jérémie Renier, irmãos, ambos bons atores, estreantes como cineastas – deixam a palavra de lado e se lambuzam na estética do fotógrafo Georges Lechaptois. Um corpo moreno que afunda numa banheira de água azulíssima, um roçar de rostos femininos que encenam a relação entre um cavalo e sua tratadora, ou um ritual pagão a céu aberto: são algumas das sequências em que Lechaptois pesa a mão nas cores. Ele acentua a temperatura e a pressão de uma narrativa que ganha mais solidez quando aposta numa abordagem sensorial, na sinestesia pura. A trama, em si, tenta (e nem sempre consegue) dar timbres inusitados à melodia ordinária do dia a dia: duas irmãs, de temperamentos distintos, diferentes também no quesito sorte, vão estabelecer um processo de (re)aproximação e de transferência quase doentia. Mona (a ótima Leïla Bekhti, de “Astrágalo”) é frustrada em sua trajetória como atriz, sendo obrigada a ajudar sua maninha mais nova, Samia (Zita Hanrot), esta sim uma estrela, a administrar seu cotidiano. O que sobra em Samia falta a Mona. E essa percepção vai gerar entre elas, ambas fãs da arte de representar, uma tragédia grega, feita à moda da Bélgica, num híbrido de drama e suspense, sobre fraternidade, produzido (não por acaso) por dois irmãos: Luc e Jean-Pierre Dardenne (diretores de cults como “A criança” e “Rosetta”).

O que mais há de bom no Varilux:
“As Filhas do Sol” (“Les Filles du Soleil”), de Eva Husson: Nestes tempos de empoderamento feminino, esta produção vem ganhando holofotes desde sua passagem pelo Festival de Cannes de 2018, na briga pela Palma de Ouro, ao recriar a história real de um grupo de mulheres do Curdistão que formaram um grupo guerrilheiro para proteger suas famílias em meio a uma guerra guiada por homens. Golshifteh Farahani, estrela do cultuado “Paterson” (2016), vive a líder do bando;

“O Imperador de Paris” (“L’Empereur de Paris”), de Jean-François Richet: Concebido para ser a ofensiva francesa contra os blockbusters de Hollywood, esta superprodução do diretor de “Inimigo público nº1” (2008), baseada nos feitos do criminoso Eugène François Vidocq (1775-1857), fez jus a seu objetivo: graças ao carisma do astro Vincent Cassel, o longa vendeu 730 mil ingressos em três semanas. Na trama, Vidocq tenta refazer sua vida como comerciante, mas é empurrado de volta ao submundo, mas, desta vez, para debelar os malfeitores. As cenas de ação rodadas por Richet são impressionantes;

“Graças a Deus” (“Grâce à Dieu”), de François Ozon: Ganhador do Grande Prêmio do Júri (um Urso de Prata) no Festival de Berlim de 2019, o novo longa-metragem do diretor de campeões de bilheteria como “Dentro da casa” (2012) e “8 Mulheres” (2002) explora um tema polêmico: o abuso sexual de crianças nas mãos de padres pedófilos;

“Gaugin – Viagem ao Taiti” (“Gauguin: Voyage to Tahiti”): Ignorada pelos maiores festivais do Velho Mundo, mas lançada com sucesso em seu país, vendendo 85 mil pagantes em apenas três dias, este biopic do pintor Paul Gauguin (1848-1903) revê a jornada do artista plástico pela Polinésia, em busca de uma transcendência mais radical em relação à sua condição burguesa de berço. Vincent Cassel vive Gaugin. A direção é de Edouard Deluc (do belo curta “?Dónde Está Kim Basinger?”), que explora o exotismo verde a seu redor para registrar as inquietações de um artista devastado pelo desejo de liberdade e de transgressão a qualquer preço;

O Retorno do Herói (“Le Retour du Héros”: Realizador do fenômeno “O Pequeno Nicolau”, Laurent Tirard faz um vaudeville apoiado no carisma de Jean Dujardin, coroado com o Oscar por “O Artista” (2011). Nesta novela das seis pautada pelo romance e pelo riso, o galã interpreta o capitão Neville, um militar cascateiro que deserta de seus compromissos com a guerra para se casar com uma jovem rica. Mal sabe ele que a irmã de sua noiva espalhou cartas falsas falando da morte dele em batalha;

“A Raposa Má” (“Le grand méchant renard et autres contes”): Talhado para plateias das mais variadas idades, este desenho foi coroado com o César (o Oscar francês) pelo requinte de seus desenhos. Inspirado em HQs educativas de Benjamin Renner, que codirigiu o filme com Patrick Imbert, o longa narra uma peça teatral na qual um bando de bichinhos lelé da cuca encena problemas de identidade.

Esquece não: www.festivalvariluxemcasa.com.br.

“Le grand méchant renard et autres contes”

p.s.: Uma das mais potentes formadoras de opinião da web na atualidade, Lully de Verdade vai entrevistar a assessora de imprensa Paula Ferraz, responsável por promover alguns dos mais ousados filmes brasileiros de baixo orçamento da década, nesta quinta, às 20h, na Live Semanal do Estação NET. Paula imprimiu um estilo singular na forma de promover longas, buscando pautas alternativas. Atualmente, ela milita na divulgação de “Zombi Child”, de Betrand Bonello, que chega a plataformas digitais como o iTunes, Google Play, YouTube, Vivo Play e NOW nesta quarta.

p.s. 2: Se você tem em casa princesinhas serelepes ou um pequeno príncipe saltitante, liga na Globo às 22h30 desta quarta porque tem “Fozen – Uma Aventura Congelante” (2013) com direito a todo o “Let It Go” do mundo, na voz aveludada de Taryn Szpilman. Cuidado para não derrubar nada com as coreografias.

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