‘Carmen M.’ em translação: Felipe Bragança no mundo

‘Carmen M.’ em translação: Felipe Bragança no mundo

Rodrigo Fonseca

14 de outubro de 2019 | 09h34


RODRIGO FONSECA
Exercício de arqueologia dos mitos… no caso um mito – Carmen Miranda (1909-1955) – que é símbolo de brasilidade no imaginário da cinefilia global, “Tragam-me a cabeça de Carmen M.”, haikal cinematográfico, fará parte da retrospectiva que o diretor carioca Felipe Bragança vai ganhar na Alemanha, na sala Wolf Kino de Berlim, entre os dias 26 e 27 de outubro. Antes, o jorro poético dirigido por ele e pela atriz Catarina Wallenstein, vai para a colônia de pérolas da 43ª Mostra Internacional de São Paulo, que abre seu menu para o público nesta quinta-feira. Bragança passou a fazer parte da cartografia mundial de talentos da América Latina após exibições no exterior de seu “A Fuga, a Raiva, a Danca, a Bunda, a Boca, a Calma, a Vida da Mulher Gorila”, em 2009; e de “A alegria”, em 2010, ambos feitos em parceria com Marina Meliande. Correu pelas telas de Cannes, da Berlinale e de Roterdã, que exibiu sua “Carmen M.”, um projeto que, segundo o diretor “combina Cassavetes e Sganzerla, pois tentamos misturar os dois num caldeirão”. A trama: Ana, uma atriz portuguesa, mergulha nos labirintos da identidade brasileira e no pesadelo político de 2018, enquanto tenta viver a icônica Carmen Miranda em um misterioso longa-metragem. Em solo paulista, sua programação é a seguinte:
Dia 18/10, às 21h30 no FREI CANECA – sessão seguida de conversa com Felipe Bragança; Dia 19/10, às 14h00 no RESERVA; Dia 25/10, às 15h00 no MIS.

Felipe Bragança e Catarina Wallenstein numa das apresentações da “arqueologia de afetos cinéfilos” com um pé em Rogério Sganzerla e outro em John Cassavetes


Onde que esse seu “8 1/2” sobre uma atriz em dias de Pirandello negocia com a fábula? O que existe de fabular no jogo entre uma atriz que negocia com o legado de Carmen Miranda e com o legado colonial entre Brasil X Portugal?
Felipe Bragança:
De alguma forma, este “CARMEN”, dirigido em parceria com a Catarina Wallenstein, em seu primeiro filme como realizadora, é sobre um corpo em busca de uma fábula com nome: Carmen Miranda. Uma fabulação do corpo, da forma de se agir, atuar, falar. A busca de Ana, a personagem, é a busca pela possibilidade de um corpo-fábula. Um corpo que se projete para além de si mesmo. Foi a forma que encontramos para falar da resistência e da luta cultural que não se passa pela brutalidade. Uma embate cultural violento não precisa passar pela brutalidade.

Soa quase uma alquimia seu jogo de cena com a atriz Catarina Wallenstein em cena. Que parceria criativa se estabelece ali?
Felipe Bragança:
Eu e Catarina Wallenstein fizemos um filme rodado no final de 2017, que ainda está em pós-produção, chamado “UM ANIMAL AMARELO”. Direção minha. Nele, a personagem dela canta em uma determinada cena – cena para a qual escrevemos uma letra de música juntos. A partir daí, veio o interesse em escrevermos juntos um filme a partir da nossa paixão pela música, especialmente a brasileira. Começamos escrevendo notas sobre a Carmen Miranda e a ideia de cultura brasileira e logo percebemos que o interesse não era fazer uma biopic sobre a Carmen, algo que merece ser feito um dia, aliás, mas retratar essa nossa busca pela ideia, pela imagem, pelo corpo e pelas ruínas e sobrevivências da Carmen como nó cultural e histórico brasileiro. O filme, então, encena e ensaia nossa pesquisa, a nossa procura, corporificada na trajetória de Ana, vivida pela Catarina, e na misteriosa cineasta, vivida pela linda Helena Ignez. O que se vê na tela são fragmentos dessa pesquisa sobre nosso sentimento diante daquele sombrio ano de 2018. Uma ferida aberta, como o atual estado do país.
O quanto esse filme aquietou a fúria de uma brasilidade profunda que vinha da sua Alligator Girl, nome parcial em inglês de seu longa “Não devore meu coração”, de 2017? Ou essa fúria tomou outros rumos?
Felipe Bragança:
“CARMEN” é um ensaio sobre uma utopia de país a ser erguido e construído através da linguagem musical, pensando a música como uma forma de corporeidade de uma sociedade brasileira que exprimisse na vida o que a música expressaria de fusão de signos, miscigenação cultural e pulsão existencial. Em “CARMEN”, a fúria tomou as vestes de uma angústia diante do caminho de destruíção dessa linguagem, dessa afasia, que começou a tomar forma no último ano com a tomada de poder de um projeto de país baseado no esquecimento e no apagamento de nossos processos históricos. No filme “Não Devore Meu Coração” (“Alligator Girl”), a fúria era justamente a do despertar de uma memória engolida, escondida, da Guerra do Paraguai, e que vinha transbordar para além das margens do Rio Apa, na forma de um amor juvenil desarvorado e na raiva dos olhos das duas heroínas indígenas que nos olham nos olhos e nos perguntam o que faremos com as carcaças de nossa História, tão mal contada, e que seguem atravessadas nos nossos corpos. O que você chama de fúria é, em ambos os casos, é uma expressão da sobrevivência e da memória.
O que esperar dessa mostra alemã? Onde ela se passa? Que Felipe Bragança se materializa na programação dela?
Felipe Bragança:
A mostra acontece no WOLF KINO, referência da cinefilia em Berlim, no coração de Neukolln, bairro conhecido por sua efervescência multicultural. Serão exibidos dois longas e dois curtas, com conversas com o público, à convite da curadora Verena von Stackelberg. A mostra se chama “Felipe Bragança: Cinema, Sonhos, Tempos e História” e vamos focar em fimes que lidem com essa perspectiva exibindo o “NÃO DEVORE MEU CORAÇÃO” (2017), “ESCAPE FROM MY EYES” (2015), “ZAHY” (2012) e o próprio “TRAGAM-ME A CABEÇA DE CARMEN M.” (2019). O escritor João Paulo Cuenca e a atriz Juliane Elting vão ser os mediadores das conversas.
Qual é a estética que se desenha nos dez anos entre a sua Mulher-Gorila e sua Carmen M.? Que novas estéticas estão pra chegar?
Felipe Bragança:
Acho que desde “A Fuga da Mulher Gorila” até este “Carmen M.”, e antes nos curtas, o que me atrai são personagens e corpos que sobrevivem atravessados por diferentes camadas de tempos – tempos históricos, tempos oníricos, tempos de existência. Acredito que o cinema tem o poder de ser essa máquina de tempos e ter os personagens como catalizadores disso. Entre a urgência e o sonho, os corpos sobrevivem e carregam seus pequenos cristais de vida e imaginação diante de uma sociedade construída engolindo memórias violentas e erguendo máquinas de controle que nos ditam como e onde agir e de que forma até mesmo devemos filmar. Meu próximo filme se chama “UM ANIMAL AMARELO” e pensa novamente este lugar do corpo cinematográfico: o de ser um acumulador de tempos históricos e afetivos que se transformam e nos transformam na sua potência e na sua insuficiência. Seja em filmes mais narrativos e doces, sejam em obras mais ensaísticas e amargas, é isto que eu procuro. É o que me encontra.

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