Carlos Saura volta à ficção pelas telas do Cairo

Carlos Saura volta à ficção pelas telas do Cairo

Rodrigo Fonseca

28 de novembro de 2021 | 19h50

Aos 89 anos, Carlos Saura exibiu um curta em San Sebastián, há dois meses. Crédito da foto é de @JorgeFuembuena

RODRIGO FONSECA
Depois de ter aberto o 69º Festival de San Sebastián, no norte de seu país natal, em setembro, com o curta-metragem documental “Rosa Rosae. La Guerra Civil”, numa colagem de gravuras, o artesão autoral espanhol Carlos Saura resolveu fazer do ano de 2021 uma das datas mais produtivas de sua (historicamente prolífica) carreira ao lançar, no circuito das mostras internacionais, sua primeira ficção após um hiato de uma década. “El Rey De Todo El Mundo”, exibido neste domingo no 43º Festival do Cairo, no Egito, tem muito a ver com várias fases da carreira do cineasta que, décadas antes de Pedro Almodóvar virar um titã, tornava as inquietações morais da Espanha um objeto de discussão mundial, representando-as na forma de abrasivas crônicas de costume. Ganhador de 56 prêmios, entre os quais o Urso de Ouro de Berlim (por “Depressa, Depressa”, em 1981) e o Grande Prêmio do Júri de Cannes (por “Cria Corvos”, em 1976), ele pisou no freio da fabulação a partir de “Tango” (1998), optando por narrativas documentais sobre estilos musicais (“Fados”) e danças (o belo “Flamenco. Flamenco”) ou por musicais que mais parecem um registro do que se baila num palco europeu, como é o caso de “Salomé” (2002). Rodado no México, seu novo longa – sua volta às veredas ficcionais após a experiência de “Io, Don Giovanni”, em 2009 – é um quebra-cabeças metalinguístico onde não se sabe o que é recordação, vivência do presente ou encenação, a partir de um corpo de baile que busca montar um espetáculo de balé.

“El Rey De Todo El Mundo”: aula sobre o uso cinematográfico da metalinguagem

Além da fotografia de Vittorio Storaro, seu habitual parceiro, Saura conta com o talento GG da atriz mexicana Ana de la Reguera (de “Army of the Dead: Invasão em Las Vegas”). Ela e Manuel Garcia-Rulfo são (respectivamente) a coreógrafa e o diretor de uma trupe empenhada em narrar uma história de amor. Mas o casal de protagonistas tem sua rotina de ensaios abalada depois que o pai da dançarina é morto pela máfia local. Saura fala de crime, de renúncia, da paixão pelo corpo em movimento e da opressão histórica da colonização hispânica em um filme acidentado, mas de uma austera beleza. Aos 89 anos, o cineasta não se cansa de ousar.

“Rosa Rosae. La Guerra Civil”

Nesta segunda, o Festival do Cairo segue revistando pérolas já reveladas por outros eventos, como a Berlinale, que confiou o prêmio principal de sua recém-criada mostra Encontros para o documentário “We” (“Nous”), de Alice Diop, com CEP na França. Neste 29 de novembro, vai ser forte a corrida em terras egípcias atrás dessa produção. De origem senegalesa, sua realizadora, conhecida por “A Morte de Danton” (2011) e “O Plantão” (2016), cria aqui um mosaico documental riquíssimo sobre a engenharia da exclusão na França a partir das pessoas com que cruza ao longo de uma linha ferroviária que corta Paris de norte a sul. Vai ter filme bom cá pelo Cairo até o dia 5, quando será conhecido o ganhador do troféu Pirâmide de Ouro, dado por um júri presidido pelo cultuado diretor sérvio Emir Kusturica, ganhador de duas Palmas de Ouro – uma por “Quando Papai Saiu Em Viagem De Negócios” (1985) e outra por “Underground – Mentiras de Guerra” (1995).

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