Carlos Nader manda a real sobre a amizade

Carlos Nader manda a real sobre a amizade

Rodrigo Fonseca

28 de julho de 2020 | 08h33

Rodrigo Fonseca
É dia de alegria para o cinema documental brasileiro, com a inclusão de “Narciso em Férias” (um relato de Ricardo Calil e Renato Terra sobre as memórias de Caetano Veloso acerca da ditadura) no Festival de Veneza (2 a 12 de setembro), e é também tempo de celebrar a inclusão de “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, na lista de .docs essenciais de 2020 publicada pelo “The Guardian”. É a cineasta mineira quem assume a palavra, na quarta-feira, na micareta documental animada pelos zé pereiras da não ficção Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes: Na Real_Virtual, simpósio sobre documentário que termina no dia 14 de agosto, sendo produzido por Márcio Blanco na Imaginário Digital. Basta consultar o menu de conversas no site https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Petra fala amanhã sobre a estética “álbum de família”, com base em sua experiência em “Elena” (2012), premiadíssimo trabalho da diretora sobre sua irmã. É um exercício personalíssimo que dialoga com a recente onda de afetos na qual esse precioso seminário online vem navegando, sobretudo após o papo de ontem (segunda, 28/7), com o paulistano Carlos Nader, cineasta, roteirista e videomaker, que alentou corações com “Soberano: Seis Vezes São Paulo” (2010) e instigou olhos ao som de sua “Trovoada” (1995). “Envolvido hoje com um curta para o Museu da Língua Portuguesa, Nader é um dos cineastas mais premiados do país. Ele foi o vencedor da competição nacional do É Tudo Verdade em 2015 com “A Paixão de JL”, no qual resgata memórias e sensações é afetivas do artista plástico José Leonilson (1957-1993). Ele constrói seus longas a partir de relatos sobre a vida de diferentes pessoas (muitas vezes, artistas) para construir uma reflexão sobre o Tempo, o Espaço e a Arte. Um de seus trabalhos mais consagrados é o belo “Pan-Cinema Permanente” (2008), centrado no poeta Waly Salomão (1943-2003). Dirigiu ainda “Eduardo Coutinho, 7 de Outubro” (2013), sobre o aclamado documentarista, morto em 2014.
Eu fiz filmes sobre amigos e falar sobre amizade é entrar em um movimento entre o local e o universal”, disse Nader no evento. “Falar de filmes como ‘Homem Comum’, que atravessa um apartheid social, é falar de pessoas que me atraíram numa ordem amorosa”.
Cada longa que ancora o Na Real_Virtual aborda uma vertente distinta da linguagem documental em voga hoje no Brasil. Os debates passam tanto pela experimentação plástica a partir do registro de um ator em ensaios (“Iran”, de Walter Carvalho) até uma investigação sobre laços afetivos e ausência no âmbito familiar, como é o caso de Petra em “Elena”.

Trailer de “Homem Comum” com a imagem no Zoom de Nader superposta

Na seleção feita pelo Na Real_Virtual, o adjetivo “delicado” pautou a inclusão de Nader no painel de cineastas. Autor do seminal “Sete Faces de Eduardo Coutinho”, Mattos disse ao P de Pop que os filmes e vídeos de CN “frequentemente versam sobre temas conceituais e metafísicos: identidade, a passagem do tempo, a hereditariedade, a vida e a morte”. “O ‘Homem Comum’ e também o ‘Pan-Cinema Permanente’, que ele fez com o acervo de sua relação com Waly Salomão, têm ainda a marca da convivência de longa duração com os personagens, razão pela qual o convidamos para falar do tempo como matéria do documentário”, diz Mattos.
Seu colega na curadoria do Na Real-Virtual, Abrantes, diretor de “Recife/ Sevilha – João Cabral de Melo Neto” (2003), ressalta a dimensão lúdica do léxico naderiano: “Nos filmes de Nader a delicadeza ameaça e desarma o indelicado. E isso não é pouco. É muitíssimo”, diz Abrantes.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 29/7 – O eu filmado e minha família – Petra Costa. Filme: Elena
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: Centrado nas excentricidades criativas e sexuais de um artista plásticas e no impacto delas sobre seu casamento, “Anos Felizes” (2013), de Daniele Luchetti, é o destaque atual do Globoplay, com Kim Rossi Stuart e Micaela Ramazzotti no elenco. Luchetti vai abrir o Festival de Veneza, em 2/9, com “Lacci”.

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