Caritó, Cabíria de um velho novo Brasil

Caritó, Cabíria de um velho novo Brasil

Rodrigo Fonseca

04 de setembro de 2019 | 07h26


Rodrigo Fonseca
Cabíria dos cafundós, defendida pela Giulietta Masina das novelas das 21h do Brasil, Maria do Caritó tem, sob seu nome de santa pura, um véu de Fellini e uma corola de Suassuna, ambas vestidas por Lilia Cabral no desacerto que vira acerto: no oco do amor que faz brotar o riso. Assim é o longa-metragem, rodado nas Gerais de Rosa com prosódia de Sertão armorial, que estreia nacionalmente em 31 de outubro, o Dia das Nações Unidas, falando o esperanto sertanejo da resiliência. Sua base é a dramaturgia com melaço de cana de Newton Moreno, em um espetáculo que virou hit nos palcos nacionais. Há, em sua brejeira protagonista, uma Shirley Valentine de Deus, uma reinvenção dos arquétipos da mocinha, da carpideira, da beata que chora aos pés de Santo Antônio pelo objeto pontiagudo chamado amor. É uma reinvenção similar à que Moreno fez no palco com “Agreste” (2004), dilacerando códigos de gênero sexual, ou em “A refeição” (2007), espicaçando o “lobo do homem”. Todos os seus textos se estruturam por figuras no limiar entre a ilusão e ignorância, apegados a uma para se aliviarem da outra. Sua Caritó, (bem) desenhada em filme (com cores de cartum) pelo diretor João Paulo Jabur, sofre desse difrúcio afetivo, entupida com a coriza de uma religiosidade que entorpece sua necessidade de prazer.

Sua Cabíria não é da (dita) “vida fácil”, como a de Fellini, mas sim dos grilhões do acaso, como a Cabíria filmada por outro italiano, Giovanni Pastrone, na Itália de 1914 – 31 anos antes do neorrealismo -, sempre à espera de um Maciste para lhe salvar da sofreguidão e do abuso alheio. Arejado pela gargalhada e pela leveza, o mundo em que Maria do Caritó assume seus votos de Cabíria, como uma doce Charity num musical de autorreinvenção, também fala de abusos, só que de uma maneira brasileira. É um filme de jornada – no encontro… e na futura vivência… da paixão se dá a redenção da heroína – mas é também um filme cerzido no arame farpado do debate. Um debate sobre a pele de cacto que o Sertão dos coronéis tornou-se, no torvelinho da História… a nossa. Por isso, na transposição de peça em filme, os diálogos de flor na boca de Moreno foram se amalgamando com as reflexões sobre a dimensão discursiva dos campos narrativos feitas pelo mestre José Carvalho, um estudioso das unidades de ação do storytelling. Os dois assinam esse roteiro, que assume o feminino como caule, mas utiliza antropocentrismo com pétala: pouco a pouco, em suas andanças, Maria se descola do ato de contrição para ralar os joelhos no milho do viver livre.

Como filme, “Maria do Caritó” inscreve-se na pluma e não na pedra, causando tumulto doce em nossa percepção a partir do colorido de tinta grossa da fotografia de André Horta e da direção de arte de Sérgio Silveira. A força delas, sobretudo nos vermelhos e azuis, jamais embota as sutilezas de uma trama sobre uma vida pálida que, cansada da espera, resolve decorar as bochechas com o pó de arroz do risco. A situação é a seguinte: Maria (Lilia, em estado de graça) viveu 50 anos sem o gozo do beijo e do abraço, sonhando com o dia em que vai ter um “perna de calça” pra chamar de seu. Com a ajuda e a torcida da amiga Fininha (um encanto de gente confiada à Mãe Coragem Kelzy Ecard), ela faz toda a sorte de simpatias que a fé Católica tolera, pra que Santo Antônio possa trazer um casório para sua rotina vazia. Por decisão de seu pai, num pedido a São Djalminha, ela foi mantida virgem, embora não suporte mais a falta de dedos e afagos em seu corpo alvo. Candidato a prefeito, o Coronel (Leopoldo Pacheco, sempre buñueliano em suas inspiradas composições) resolve usar da boa figura dela e vendê-la ao povo como milagreira. É bem parecido com o destino da Cabíria dos mitos de Rômulo e Remo. Só que não tem Maciste, pois estamos em novos tempos, nos quais a mulher não requer mais um Filho de Sansão para ser Dalila, poderosa.

No filme, uma cigana (Larissa Bracher, na medida certa do encantamento) vai prometer a vinda de um ser amado para Maria. Depois, a chegada de uma trupe de circo, chefiada por Teodora (a sempre majestosa Juliana Carneiro da Cunha, melíflua como em “O homem do pau-brasil”), parece confirmar o que a quiromancia previu. Porém, esse mundo que mais (e melhor) parece um filme de Mazzaropi só é cândido até o segundo ato. Dele pra frente, vira Voltaire: tudo são revelações e viradas que expõem a miserabilidade do Poder e a mesquinhez dos que têm fome… não de pão, mas de voto e de comando. Nem Santo Antônio pode com isso, pois sua batina só tremula sob os ventos da metafísica. E o buraco aqui é outro: é o da fisicalidade urgente, é o do desespero de não ter e de querer. Maria do Caritó é que se salve… mas que nos leve com ela em sua salvação, desbravando, em forma de riso, veredas da lucidez, da autoconfiança, da força feminina. É a heroína rural dos novos tempos, uma Malasartes na medida pícara da doçura.
Nessa brincadeira de Jabur, que desloca Lilia da telinha para a telona – onde brilhou soberana, dez anos atrás, em “Divã” -, a atriz nos dá mais um grande trabalho, cercada de parceiros de cena iluminados, com destaque para Gustavo Vaz como o apavonado artista circense Anatoli, e para (o afiado) José Karini, como um quase santo. São tipos que parecem fellinianos, mas vivem ali no coração do Brasil, onde cabemos nós todos, os santos que resistimos.

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