Cardápio de cults na streaminguesfera

Cardápio de cults na streaminguesfera

Rodrigo Fonseca

29 de janeiro de 2021 | 17h04

RODRIGO FONSECA
Tesouro pra qualquer cinemateca, o repertório de cults do passado dos maiores streamings em atividade no Brasil anda invejável. Confira a seguir uma programação sabor nostalgia para este fim de semana.
“I BASILISCHI” / “OS INATIVOS” (1963), de Lina Wertmüller (MUBI): É o primeiro longa da realizadora de “Pasqualino Sete Belezas” (1975). A produção rendeu a ela um prêmio de direção no Festival de Locarno, na Suíça, com esta crônica sobre três jovens italianos desocupados. Antonio Petruzzi, Stefano Satta Flores, Sergio Ferranino são os protagonistas.
“CRIMES EM PRIMEIRO GRAU” (“High Crimes”, 2002), de Carl Franklin (AMAZON PRIME): Ator de formação, Franklin foi um dos primeiros cineastas americanos a vencer o preconceito racial, dirigindo entre a TV e o cinema, sempre discutindo a representação negra em Hollywood. Este thriller jurídico baseado na literatura de Jospeh Finder tornou-se conhecido no Brasil por ter viabilizado a vinda de Morgan Freeman ao país, onde participou de uma coletiva de imprensa no Cine Odeon, no RJ. Na trama, Freeman vive um advogado ligado ao universo militar (e abalado pelo alcoolismo) escalado para ajudar uma jurista (Ashley Judd) a provar a inocência de seu marido (James Caviezel), acusado de uma série de assassinados que pode estar ligada a uma conspiração. A montagem de Carole Kravetz-Aykanian é de uma agilidade singular.
“O SEGREDO” (“The Chamber”, 1996), de James Foley (NETFLIX): É uma grata surpresa rever este thriller de tribunal que cogitou fazer de Chris O’Donnell, o Robin dos anos 1990, um astro para além da franquia Batman, apoiado na literatura de John Grisham, o autor de “A Firma”. A década de 1990 foi o apogeu de Grisham nas livrarias e nas telas. Neste filme, o escritor cede a argamassa para a história de um jovem advogado idealista (O’Donnell) destinado a investigar a verdade por trás da prisão de seu avô (Gene Hackman, soberbo), acusado de um crime ligado à Ku-Kux-Klan. Jomeri Pozolli dublou Hackman na versão brasileira do longa.

“MIMI, O METALÚRGICO” (“Mimì metallurgico ferito nell’onore”, 1973), também de Lina Wertmüller (AMAZON PRIME): Por que não aproveitar a onipresença de Lina nas plataformas para maratonar sua monumental obra? Aqui, seu velho fetiche Giancarlo Giannini dá um banho de atuação no papel de Carmelo Mardocheo ou só Mimí, um siciliano que deixa seu lar e cai na vida operária de Turim, onde viverá um caso extraconjugal caloroso. A produção concorreu à Palma de Ouro de Cannes.
“À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA” (1964), de José Mojica Marins (GLOBOPLAY): É a gênese da trilogia do maior mestre brasileiro de horror sobre o périplo do coveiro Josefel Zanatas, o Zé do Caixão, para encontrar uma mulher capaz de gerar um filho com a pureza genética e espiritual dignas de controlar o mundo. A inventividade de sua direção surpreende até hoje.
“101 DÁLMATAS” (“One Hundred and One Dalmatians”, 1961), Clyde Geronimi, Hamilton S. Luske e Wolfgang Reitherman (DISNEY+): Este clássico da animação vem das páginas da literatura de Dodie Smith (1896–1990) e lançou uma das mais tenebrosas vilãs do estúdio de Mickey Mouse: Cruela Cruel (na voz de Betty Lou Gerson). Ela deseja usar o pelo de dálmatas em um projeto para incrementar seu guarda-roupas.
“O ARTESÃO PICKPOCKET” (“Pickpocket”, 1998), de Jia Zhangke (MUBI): Um dos primeiros sucessos do realizador de “Em Busca da Vida” (Leão de Ouro em 2006). Nele, o batedor de carteiras de uma pequena cidade chinesa percebe que é rejeitado por todos que conhece quando um ex-companheiro ladrão se casa e não lhe envia um convite. Ele visita um bordel e se apaixona por uma prostituta, o único relacionamento que parece dar certo em sua vida. O longa foi lançado na Berlinale, há 23 anos.

“ELA QUER TUDO” (“She’s Gotta Have It”, 1986), de Spike Lee (NETFLIX): Três anos antes de explodir mundo afora com “Faça a Coisa Certa” (1989), Lee ganhou o Prêmio do Júri Jovem de Cannes com esta doce dramédia de costumes sobre uma mulher empoderada, Nola (Tracy Camilla Johns), às voltas com três namorados e múltiplas escolhas para o futuro de uma América machista e racista.
“O SIGNO DO ZORRO (“The Signo of Zorro”, 1958), de Lewis R. Foster e Norman Foster (DISNEY+): Trata-se de uma deliciosa transposição para o audiovisual da literatura de Johnston McCulley (1883–1958), com base nos feitos do vigilante mascarado da Califórnia. Numa gaiata atuação, Guy Williams (aqui dublado por Nilton Valério) torna Don Diego um dândi cheio de lábia que se mascara para combater as injustiças do Capitão Monastario (Britt Lomond) e seu acólito mais implacável, o Sargento Garcia (Henry Calvin).
“O HOMEM DO BRAÇO DE OURO” (“The Man With The Golden Arm”, 1955), de Otto Preminger (AMAZON PRIME): Frank Sinatra concorreu ao Oscar por seu desempenho como um ás do carteado assolado por um vício em heroína neste drama do realizador de “Laura” (1944), embalado nos acordes de uma das mais belas trilhas sonoras de Elmer Bernstein. A fotografia de Sam Leavitt decanta o preto e branco numa composição visual hipnótica.
“O QUATRILHO” (1995), de Fábio Barreto (GLOBOPLAY): No engatinhar da Retomada, nome dado à produção de longas feitos nos Brasil de 1995 a 2010, a partir da Lei do Audiovisual, em resposta ao sucateamento da distribuidora e fomentadora Embrafilme (que paralisou a chance de se filmar no Brasil por cinco penosos anos), nosso audiovisual conquistou uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, com esta produção de Luiz Carlos Barreto sob uma troca adúltera de casais numa região de imigrantes italianos. Glória Pires arrebata olhares.

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