‘Carcereiros’: objeto pontiagudo de invenção

‘Carcereiros’: objeto pontiagudo de invenção

Rodrigo Fonseca

28 de novembro de 2019 | 10h11

RODRIGO FONSECA
Em meio aos debates éticos acerca das escolhas da FLIP, que andam eriçando ânimos pelo mercado editorial adentro em torcidas prós e contra a seleção de Elizabeth Bishop como homenageada, a literatura brasileira, embatucada por controvérsias, tem pelo menos uma alegria assegurada para 2020: Marçal Aquino vai voltar às prateleiras das livrarias com um projeto inédito. Há tempos, ele vem rascunhando um policial com implicações existenciais chamado “Baixo esplendor“, para lançar no ano que vem. Mas, até lá, ficaremos com seu (precioso) trabalho como roteirista, que pode ser conferido, a partir desta quinta, nas telonas, com a estreia de “Carcereiros: O filme“. Com direção de José Eduardo Belmonte (“Gorila”), este thriller cria uma aventura à parte das missões encarnadas pelo agente penitenciário Adriano (Rodrigo Lombardi) na série de TV homônima, da TV Globo. No longa-metragem, cercado de expectativas pelos exibidores, o Gregory Peck de periferia vivido por Lombardi tenta garantir a tranquilidade no presídio, mesmo sofrendo com grandes dilemas familiares. A chegada de Abdel (Kaysar Dadour), um perigoso terrorista internacional, aumenta ainda mais o frenesi no presídio, que já vive dias de racha por conta da peleja entre duas facções criminosas. Na produção pilotada por Belmonte, Adriano terá que enfrentar uma rebelião, além de controlar todos os passos de Abdel. Premiado com o troféu Jabuti por “O amor e outros objetos pontiagudos” (1999), além de ostentar mais uma penca de láureas em seu currículo de contista e romancista, Marçal, hoje com 61 anos, falou ao P de Pop aqui do Estadão sobre a dimensão sociológica do microcosmos onde Adriano opera.

O que “Carcereiros”, a série, trouxe de mais ético, estético e político para a televisão brasileira?
Marçal Aquino:
Acho que a contribuição mais relevante da série “Carcereiros” foi, além de contar boas histórias, a de lançar luz sobre os dramas prisionais, a partir de um ponto de vista absolutamente inédito na chamada “dramaturgia do cárcere”, que tanto tem interessado ao cinema e aos seriados nos últimos anos: o do agente penitenciário. Adriano torna possível refletirmos sobre a dura rotina de um “profissional da tranca”, que atua armado apenas com a força de sua palavra, com todas as implicações que essa ocupação traz para sua vida pessoal além-muros.

Que tipo de herói é o Adriano e o que ele sintetiza da realidade do cinema social brasileiro?
Marçal Aquino:
2 – No início, não era nossa preocupação como criadores (uma equipe que incluiu os roteiristas Fernando Bonassi, Dennison Ramalho e Marcelo Starobinas) propor qualquer tipo de discurso. A intenção era escrever um filme de ação pura, em que a adrenalina estivesse no comando das emoções. “Tiro, porrada e bomba”, como se diz por aí. Mas, ao longo do processo de escrita, dado o âmbito em que se passa a trama, foi inevitável incorporar elementos do real – a existência das facções, a Operação Lava-Jato etc. Ou seja, elementos que devem fomentar uma reflexão pós-entretenimento. Adriano marca um retorno ao herói clássico, que atua munido de ideais nobres e boas intenções, em oposição à figura do anti-herói que está se tornando cada vez mais convencional hoje em dia.

Que tipo de troca estética, de parceria, você estabeleceu com Belmonte, ao longo da série e do filme?
Marçal Aquino:
Vem de longa data minha amizade com o Belmonte e minha admiração por alguns dos filmes dele. Tivemos a oportunidade de trabalhar já em “Supermax”, em 2016. E sei que ele, como eu, tem grande apreço pelo cinema policial americano da década de 1970. Acho fundamental a contribuição dada por ele aos resultados das duas temporadas de “Carcereiros”.

p.s.: A Manuela Dias anda fazendo um negócio aí que faz Douglas Sirk saltar à mente da gente a cada minuto que o choro abafa. Em três capítulos, “Amor de mãe” já desopilou canais lacrimais do país inteiro, em especial os lá de Bonsucesso, planeta natal aqui do P de Pop. Desempenhos memoráveis. Texto com relevos de “Imitação à vida”. Coisa que bate, pega e fica.

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